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In a big jet plain

Levo uma música. Não me lembro de a ter escolhido…  Gonna take you for a ride in a big jet plane.

Angus & Julia Stone a picar-me os miolos como quando os ouvi pela primeira vez numa estrada larga, a caminho do mar na costa leste da América. Foi desde aí. Um frio de rachar, eu a fazer anos e a querer esquecer que fazia.

Bela música para fugir. Pelo menos naquele dia era. Bom som para sair da idade. Agora cola-se, nostálgica, miudinha. Lá está ela enquanto os seguranças me mandam fazer tudo o que não quero.
Penso nos pés sem sapatos. A revelação pública das meias irrita-me mais do que a mulher polícia que me manda pôr os braços para cima enquanto os dela seguem para baixo, na direcção das meias. Eu ali, exposta, e vale-me a música que ganhou direito a beatificação e me iludiu nesse tempo. Para mim, a meia é mais íntima do que o pé. Nada a fazer. Gonna take you  for a ride  in a big jet plane… Não olho para os pés, ou melhor, para as meias. Angus e Julia continuam e se o pensamento tivesse headphones emprestava um à senhora que me pede agora um teste às mãos. Vestígios de quê? Posso ir detida? E assim descalça, ou melhor, de meias?

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Aside

Hoje comecei a leitura de O Verão de 2012, um livro que antes de o abrir já me fez viajar. Fixo-me na capa. Revivo marés-baixas, banhos gelados e de sol. Leituras e livros cheips de areia de uns meses tão … Continue reading

Tabucchi, o homem que escrevia de pé


Vê-mo-lo ao longe. Uma figura debaixo de um imenso pinheiro manso a
 fazer gestos com os braços para indicar o lugar certo. É ali, naquele refúgio alentejano perto do mar, que António Tabucchi aceita ser o anfitrião de uma conversa que nem ele sabe onde o irá levar. É uma conversa solta, com a informalidade dos calções que traz vestidos e insiste trocar por umas calças para as fotografias. “Assim pareço mais sério”, diz, irónico. O italiano mais português da literatura sente-se alentejano no Alentejo e gosta de se perder a olhar o céu ou a mergulhar na água fria do Atlântico. Sente-se em casa e espera um amigo para cozinhar um jantar para outros amigos. Há convidados e uma casa cheia como gosta neste país que chama de seu.

António Tabucchi, italiano com várias pátrias, escolheu Portugal como refúgio. Sabe o país quase de cor. Conhece-o quase a palmo. Sabe os cantos onde melhor se come, os livros que guardam a melhor escrita. Atento, risonho, afável, escolhe cada palavra que usa na fala como se a estivesse a escrever. É isso um escritor. Saber pôr no lugar cada palavra, a única, aquela que encaixa perfeita na sintaxe.

Quanto tempo passa neste refúgio?
Aqui, pouco. Gosto de vir cá sobretudo no Inverno para escrever. É uma maravilha, uma calma… Só cá estão as pessoas da aldeia.

Toda a gente o conhece por aqui?
Sim, sim. Somos familiares. São uma simpatia de pessoas. O clima pode ser um bocadinho rígido, mas é um refúgio.

Precisa de silêncio para escrever?
Eu? Não necessariamente. Posso escrever nos cafés. Gosto de escrever nos cafés quando estou em Paris. Sentir as pessoas. Escrever é uma profissão solitária que pode dar muita solidão, de maneira que intuir, sentir pessoas à nossa volta não é nada mau.

Sempre de cigarro na mão?
Eu fumo com moderação.

É um homem solitário?
Não. Não. Gosto de companhia. Mas há várias fases da escrita. Quando se está a pensar numa primeira fase, quando uma história está a nascer, até se pode escrever em companhia, com sons, ruídos, vozes, mas depois há uma fase mais artesanal. Isto é para desmistificar um pouco a ideia da escrita. Há um cliché e não se pensa muito no trabalho, no labor que a escrita requer.

É um trabalho de oficina?
Exactamente. E naquele momento, depois de ter lançado uma história no papel, é preciso trabalhar como faz um carpinteiro, porque as peças têm de encaixar e as palavras também. Às vezes uma palavra não chega e é preciso outra e outra. Creio que isso se passa com todos os escritores. Trabalhamos com palavras. O texto é feito de palavras, substancialmente, e portanto as palavras merecem respeito. É como um pintor que trabalha com as cores. Ele quer um azul,mas há vários tipos de azul, de maneira que nesta grande área semântica que uma palavra fornece é preciso escolher com cuidado aquela que é justa, justa para aquela frase. “Animais doentes as palavras, também elas”, dizia o Alexandre O’Neill. Às vezes as palavras adoecem.

Adoecem em que sentido?
Não sei. Por vezes vejo palavras serem muito mal tratadas, com pouco cuidado. E adoece-me a linguagem adoece.

É por isso que está sempre a experimentar fórmulas novas para a sua escrita?
É. Escrever é uma maneira de pesquisa de perceber, ou tentar perceber a alma humana, as nossas complicações. E qual é o instrumento que o escritor tem? As palavras.

O que é para si um romance? Tem que ter uma história, uma narrativa?
Acho que na modernidade, e o Kundera tem um ensaio lindo sobre isso, o romance é uma forma muito aberta e tem já muito pouco a ver com o romance tradicional do século XIX. Como Eça de Queiroz ou o Stendhal ou o Victor Hugo ou o Balzac. É uma forma muito aberta e muito hospitaleira. É uma forma elástica onde se podem deixar vários tipos de textos, diálogos, cartas, enfim, na modernidade… “O Processo” ou “O Castelo” de Kafka serão romances de horror, romances de mistério, romances de ódio… A obra completa do Pessoa, pensando bem, o que é senão uma grande, gigantesca e curiosa forma romanesca. É um grande romance. Parece a “Comédia Humana” só que é escrita em poesia.

E que história acha que conta?
Conta várias, como pode contar uma obra-prima.

Conta um país?
Claro. Conta um país, conta o amor, conta os vários amores. Conta os amores de Álvaro de Campos, mas conta a pobre corcunda que escreve a carta ao homem que passa pela rua, como conta a filosofia de um doido que está numa clínica em Cascais, como conta as metafísicas de um guarda-livros que se chama Bernardo Soares que vive numa mansarda na Baixa de Lisboa… Tem um respiro gigantesco. Só os génios têm esta capacidade de respiração. Devia ter uns pulmões deste tamanho… É “Goethiano” é Goethe, é Homero, é homérico. É titânico. É gigante.

Traduziu a poesia de Pessoa. Não se acha um poeta?
Não! [Fala sobre a Bea, a “neta linda” e poliglota de cinco anos]

O António é um homem de muitos humores?
Todos nós somos, todos nós. Há pessoas mais estáveis que outras. Sim, os escritores são mais humorais, acho. Se calhar estou enganado…

“Tristão Morre”, o seu último romance, é um livro muito forte devido à temática da dor e da morte. São coisas que o atormentam?
A morte é agonia e sofrimento, também. Ele tem uma gangrena que está a roer-lhe uma perna, um homem no fim da sua vida, é atormentado pela dor. Isto implicava falar e escrever não só sobre a morte mas também sobre o sofrimento.

Foi difícil escrever esse livro?
Bastante. Porque precisa de um esforço, de um salto bastante alto. Para uma pessoa de uma certa idade e com uma certa experiência é difícil pôr-se no papel de um homem de 80 anos… Todo o século dele, as histórias que eu não vivi, e está a ser atormentado pela dor. É difícil descrever a dor alheia embora eu possa ter experiência de ver sofrer pessoas,mas o sofrimento é uma coisa muito difícil. Pôr no papel aquilo que é a essência de quando o corpo adoece ou é atormentado, ainda pior. O que mais me horroriza não é só a dor, mas a dor que os outros possam infligir ao nosso corpo. A tortura… uma coisa desumana. E curiosamente ainda não a conseguiram eliminar. Há muitos países debaixo da tortura. Qual deve ser o papel do intelectual? Suspeitar. Ter suspeitas, ter dúvidas. A dúvida é importante. Pensar que há verdades que podem ser mentirosas. Estar com muita atenção e informar-se. Percebemos que há verdades que são mentiras. É uma forma de vigilância, digamos assim. Não pertence só ao escritor mas a qualquer intelectual que tenha possibilidade e capacidade de comunicar com os outros de forma pública. E nós sabemos que a mentira continua a circular. Circula nos países mais democráticos do mundo, como a América, como a Inglaterra, como Itália, porque a mentira é intrínseca a qualquer forma política e até à democracia. Portanto acho que o papel de um escritor é vigiar. Depois, se esta atenção não chega, ter dúvidas, ter dúvidas.

Foi Pessoa que o trouxe a Lisboa?
No fundo, foi. Mas não foi ele que me fez ficar.

O que o fez ficar?
Outras pessoas. A literatura pode ser…

A primeira vez que vem a Lisboa é em 1965?
Sim, com uma bolsa. Estava inscrito no primeiro ano da Universidade, em Itália. Mas descobri o Pessoa em Paris… na altura nem fazia bem ideia de onde ficava Portugal. Naquela altura, a Europa não sabia muito bem onde ficava Portugal. Portugal tinha virado as costas à Europa e a Europa tinha-lhe virado as costas. O que interessava a Portugal era a Guerra colonial. As colónias, sobretudo, e a guerra colonial. Sabia mais alguma coisa de Espanha porque Espanha tinha tido uma guerra civil violentíssima que tinha, digamos assim, colado na Europa inteira no mapa mundial. Portugal era um país pequenino, fechado, com grandes colónias e a Europa não sabia nada dele. De maneira que li um poema… “A Tabacaria”.

Era estudante nessa altura.
Estudante é dizer muito. Fingia que era estudante. Estudava filosofia. É uma estória simples, um acaso, um imprevisto, está a ver? Como dizia um filósofo “o inevitável nunca acontece, o imprevisto acontece sempre”, o que é bonito. Bom, depois quando cheguei a Itália inscrevi-me na faculdade de Letras, em filosofia, vi que havia um departamento de Filologia – eu sou filólogo, como profissão – e também havia um ensino de Língua e Literatura portuguesa e aí ouvi também aquele magnífico poema que eu tinha lido no comboio. Inscrevi-me no curso. Também acidentalmente, e como era um dos melhores estudantes, ofereceram-me uma bolsa para passar aqui o Verão e fazer o curso de estudantes estrangeiros. É assim que venho a Portugal. Encontrei pessoas, fiquei muito tocado por um Portugal que era um Portugal de 65.

Que Portugal era esse?
Era um Portugal muito pobre. Muito melancólico, muito solitário, muito deixado sozinho, com muitos escritores – conheci vários escritores – sobretudo de uma geração que não era a minha.

Mais velhos?
Sim. Os meus primeiros amigos foram o Alexandre O’Neill, Cardoso Pires, pessoas daquela geração. Porque também havia…

…uma partilha de ideais…
Não, não propriamente. Seria demais dizer isso. Havia uma comparticipação sentimental e humana muito forte. Um pano de fundo muito claro: todos eles eram anti-salazaristas e esse era o pano de fundo fundamental. Mas, pelo que me diz respeito, conheci alguns deles porque havia amigos ou familiares deles que viviam em Roma, exilados, alguns trabalhavam, e havia um professor que conheci na Universidade e que me encarregou de levar umas cartas… Enfim, tive possibilidade de conhecer pessoas, escritores e artistas que tinham assumido uma posição democrática e anti-totalitária, anti-salazarista,muito evidente e levavam uma vida muito difícil, modesta. A Pide andava sempre de olho neles. Era o Portugal de 65.

Foi esse Portugal triste que o seduziu?
Se eu tivesse andado assim, comestes sapatos que tenho agora (de pano) pela rua fora, as pessoas olhariam para mim com ar escandalizadíssimo. Era um Portugal que a Isabel não pode imaginar. Era realmente arcaico, mais arcaico do que sou eu agora. Muito mais. E respirava-se uma atmosfera muito pesada. Ao mesmo tempo havia umas pessoas com uma inteligência absolutamente brilhante; com uma generosidade enorme e um companheirismo muito grande. Aquilo foi, obviamente, um‘coup de foudre’. E nasceu uma solidariedade muito forte. Falta dizer que conheci a Maria José. Ela era uma estudante mais ou menos da minha idade. Mais nova. Conheci a mulher da minha vida… Foram todas estas circunstâncias que me fizeram ficar e também o facto de Portugal ser aquele Portugal, com aquela situação. Eu era um estudante que vinha de Paris onde tinha passado um ano. Se calhar, se tivesse ido para Estocolmo, não teria acontecido o mesmo encaixe. Teria encontrado uma cidade muito bonita, muito democrática, teria conhecido uma senhora, loura, pela qual se calhar não me teria apaixonado – estou a fazer a história ao contrário–mas é a vida que se encarrega de fazer as coisas. Há um filósofo que diz que nós pensamos, mas que sobretudo somos pensados porque é o pensamento que está a pensarnos como se o pensamento fosse autónomo. E a vida tem uma tal autonomia…!

E o António deixa-se embalar por ela.
É preciso tambémtentar dar o mínimo de rumo às coisas. Se não seria um rio sem margens.

E o que é isso de ser um vagabundo?
Ser um vagabundo significa ser uma pessoa que se aborrece e que gosta de
mudar de sítio.

E é por isso que hoje está aqui, depois está em Itália, em Paris?
Também porque gosto de viajar.

Falou-me há pouco de quando chegou a Portugal, do Portugal que viu em 65.
Passaram muitos anos.

Neste momento que Portugal é que vê?
Muito melhor. Felizmente. Portugal é um país inserido perfeitamente na Europa. Conservou muitas características mas acolheu, até com bastante desenvoltura, a modernidade. É um país onde as pessoas podem ter uma vida digna. Onde as pessoas não são presas sem razão, onde não se cometem abusos, onde há uma democracia a funcionar. Onde há eleitores. E quando os eleitores não gostam do tipo de administração, têm a possibilidade de dizer “agora os senhores vão para casa que vamos eleger outro”.

Não vota em Portugal. Poderia votar. Decidiu não o fazer.
É que às vezes quando há eleições não me encontro em Portugal.

Encontra uma família política com a qual se identifique aqui em Portugal?
Famílias políticas, exactamente não. Eu nunca tive etiquetas. Famílias políticas,hoje em dia, para mim, são aquelas que mais representam um comportamento ético mais do que ideológico. Aliás, fala-se muito do fim das ideologias. Acho que as ideologias, sobretudo, as que tornaram trágico o século passado, o XX, é bom que já não tenham razão de existir. Mas as razões éticas são fundamentais. O que interessa é ‘surveiller, pas punir’ mas, vigiar uma classe política ou o poder, seja qual for.

Esquerda ou direita?
Se for um tipo de direita que se inspira em doutrinas fascizantes como o século passado, é óbvio que é um tipo de direita que não tem nada a ver comigo, que eu rejeito. Estão a verificar-se várias manifestações em Itália, como na Hungria, e em vários países do bloco comunista; estão a voltar neo-nazis, um anti-semitismo muito rigoroso… Portanto esta Europa… neste momento a democracia europeia…

Está em risco?
Não, não está em risco, tem algumas febres passageiras. Parece-me que o Conselho da Europa não presta suficiente atenção a fenómenos que podem ser perigosos e que podem vir a dar problemas muito grandes. Há um continente, que é a Europa, que inventou o fascismo. Os outros não inventaram, fomos nós. É um ‘made in Europe’. Eu sou um europeísta convencido e sempre o fui. Mas queria chamar o CE a maiores responsabilidades.

Posso dizer que é de esquerda.
De direita não sou de certeza. Esquerda, depende. A esquerda, em geral… democrático liberal, talvez. Mas é evidente que um democrático liberal, votando.

Está a escrever actualmente?
Neste momento, nada. Neste momento, leio porque também é outra forma de escrever, é outra face da medalha.

E lê o quê?
Eu leio tudo.

Lê os escritores portugueses da actualidade?
Olhe, comecei a ler um romance de um escritor que conheci recentemente e que se chama Rui Cardoso Martins mas simultaneamente leio muitas outras coisas.

Gostou desse livro?
Muito bonito, muito interessante, muito curioso. Com uma grande força. Eu gosto de tudo, quer dizer, não sou sistemático nas minhas leituras.

Foi um conselho de alguém?
Não, foi uma descoberta minha porque eu tinha lido um livro anterior de contos do qual tinha gostado. E portanto saiu este e comprei e o Rui mandou-mo mas não é obrigatório ler todos os livros que me mandam. Simultaneamente estou a reler um outro livro magnífico que é “Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaño. Sabe, depende da hora do dia.

A escrita também tem horas, rotinas?
Quando escrevo, sim, tenho. Quando escrevo a primeira versão das minhas coisas gosto de escrever entre as seis da tarde e as dez da noite. Mas quando entro na segunda fase, a fase da oficina, sou um operário muito sério. Trabalho desde manhã até à noite.

Já se pode dizer de si que é escritor profissional?
Há anos, dizia que não. Isto não é profissionalidade. É gostar de fazer as coisas, é aderência ao texto, é respeito por nós próprios, é muita coisa… Estou a insistir com a metáfora do carpinteiro. Passar a noite na loja, no ‘atelier’ do carpinteiro, à noite, quando está quase a fechar, e olhar para o chão e ver quantas coisinhas de madeira estão lá é um bocadinho a mesma coisa que escrever um livro. É preciso também preencher com páginas, não diria falhadas, mas em tentativas diria não satisfatórias. O cesto dos papéis que está ao nosso lado espelha isso mesmo.

No seu caso é mesmo assim. Não escreve em computador.
Eu escrevo à mão.

Por isso diz que é um homem arcaico…
Sou do ‘cromagnon’. Sim, escrevo à mão mas depois há uma passagem no computador.

Feita por si?
Há quem me ajude. Sou muito lento.

A escrita que sai da sua cabeça, sai à mão.
À mão. Depois há uma fase de transcrição, tem que haver. Antigamente fazia eu próprio na minha Olivetti 22. Agora não, tambémpor razões físicas porque passar muitas horas sentado… Eu escrevo de pé…

A sério?
Sim, é melhor. É uma postura mais confortável. Claro que quando vou para um café tenho de estar sentado. Mas depois de passar muitas horas sentado para transcrever um texto é fisicamente negativo e em termos de tempo, também, porque sou lento. Se há alguém que me ajude, melhor. Mas a primeira transcrição, normalmente não resulta, preciso de trabalhar sobre ela. Trabalho à mão, como quem pintou um quadro e depois quer dar uma pincelada, outra pincelada, e outra, porque normalmente um quadro não sai à primeira a não ser a alguns génios. Mas eu não sou um génio. Não sou o Picasso. O Picasso fazia “tic” e já está.

Escreveu um livro em português. O “Requiem”. Foi diferente esse trabalho de oficina?
Tive essa ousadia.

Consegue pensar em português?
Sim, claro. Traduzir-se a si próprio, do cérebro até à mão, seria demasiado complicado.

Esse livro foi pensado e escrito em português.
Sim, senhor. Depois a primeira questão que se pôs era limpar o texto dos meus eventuais erros no português, pequenos ou grandes, inevitavelmente ficam na página. Mas tinha depois fazer o mesmo trabalho que faço sempre quando escrevo em italiano, ou seja, procurar uma palavra que sirva melhor, modificar uma frase, sei lá, mudar de um relativo para um gerúndio. É mais fácil, resulta mais bonito, estas coisas.

Fernando Pessoa, que tão bem conhece, dizia “a minha Pátria é a minha língua”. Qual é a sua pátria?
Substancialmente é o italiano. Espontaneamente a minha pátria é o italiano, mas há pátrias adoptivas, também. O Pessoa, embora a sua pátria fosse a língua portuguesa, nunca deixou de escrever em inglês, o que significa que era um homem que tinha mais do que uma pátria. Acho que termais do que uma pátria é melhor do que não ter nenhuma. Como acontece hoje em dia, aliás, e fora da metáfora, há muita gente que não tem pátria. Coitados, não pertencem a nada.Pertencem a uma pátria ideal mas essa pátria não é conhecida. São vagabundos pelo mundo, são párias. E esta pátria adoptou-me e eu também a adoptei.

Sente-se adoptado por Portugal? Sente-se um escritor português?
Sinto-me adoptado por Portugal mas acho um bocadinho evasivo definir-me como escritor português. Sou um escritor português mas de passagem- no fundo somos todos de passagem, com pausas mais ou menos largas neste tempo reduzido que alguém nos deu a viver.

E que relação tem com essa entidade, com esse alguém que agora referiu?
Não sei. Gosto de olhar para o Céu, no Alentejo, e pensar que o Universo é vasto. Prefiro não me pôr a pergunta, se este Universo foi criado por si próprio ou se foi criado por alguém.

Porquê?
Porque acho que não há respostas.

Mas procura outras. Procura respostas para o amor, por exemplo.
Claro! Para a nossa vida terrena não há dúvidas… Mas para a eventual ultraterrena tenho pouquíssima relação, se não do ponto de vista individual, psicológico, etc., não, digamos assim, de uma forma metafísica mas com as recordações, os defuntos, algo ou alguém que pertenceu também à nossa vida humana e terrestre.

É isso que chama memória?
É memória, claro. Eu poderia até dizer que a literatura é a memória.

Insisto. Uma das suas grandes questões é o amor. Há um livro onde essa interrogação é feita através de várias relações, várias cartas…
Sim, sim. “Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde”.

Exactamente, onde aborda o amor e o fim do amor.
A literatura, como forma de conhecimento, dentro da experiência humana, é fundamental. Por exemplo, o amor. A Isabel falou do amor que é um dos sentimentos muito complexos e muito vasto. E depois uma pessoa tem um amor, encontrou uma pessoa e não sei quê, mas depois? Há vários tipos de amor com várias facetas. O que é que poderíamos saber sobre o amor se não conhecêssemos “Tristão e Isolda”, “Julieta e Romeu”, “Madame Bovary”, enfim… A literatura é a possibilidade de conhecer através de experiências alheias, de estórias alheias, um sentimento tão vasto e complexo para o qual a nossa pobre vida humana não seria suficiente em alguns sentimentos humanos, uma fonte de informação fundamental.

O amor é a grande fonte da literatura?
O ódio, também. As paixões humanas, até os vícios capitais, pode dizer-se. Aquilo a que a Igreja Católica chama de vícios capitais. É tudo o que pertence à criatura humana e é universal. E pode ser no Alentejo, pode ser em Paris, no século XIX, pode ser na China actual, pode ser em qualquer lado porque o comportamento e os sentimentos humanos são absolutamente idênticos. Uma lágrima de um italiano, de um chinês ou de um português, coincidem, têm a mesma quantidade de sal. É por esta razão que, no fundo, a arte, a literatura, a pintura, a música, são formas universais de conhecimento e de comparticipação

O António é um viajante. Gosta de se definir como tal. O que encontra na viagem que o seduz tanto?
A viagem é o imprevisto. É óbvio que o imprevisto também pertence ao nosso dia-a-dia. A nossa vida é feita de imprevistos, mas a viajem fornece um quociente maior de imprevisto e, portanto, pode ver uma coisa que não estava à espera de ver, ter um encontro que não… conhecer uma pessoa que não… É abrir mais sobre o imprevisto. E também a simples curiosidade, a legítima curiosidade, de conhecer o que ainda não conheceu.

A diferença?
Sim, a diferença, para chegar, se calhar à conclusão de que tudo é igual. Mas por que não? ‘Vive la diference’. É por esta razão que o mundo é bonito. É diferente. Se fosse tudo igual seria extremamente monótono.

Sendo Itália um país com a tradição humanista e cultural que tem, como explica a deriva governativa, com executivos pouco duráveis e agora esta permanência que é Sílvio Berlusconi?
A Itália está tão à direita que caiu naquele estado deplorável. Os historiadores desde 45, quando acabou a guerra, que fazem a mesma pergunta: como é que um país que tinha Bach, Kant, Thomas Mann, etc., gostou daquela gente? Mistérios. O pior, normalmente, tem mais adesão do que o melhor.

Berlusconi é uma figura romanesca?
Para romances de péssima categoria. Nem para o satírico. Nemum romance de quiosque. Era preciso atribuir-lhe muita coisa que acho que ele não tem.

Mas os italianos continuam a escolhê-lo.
Como estava a dizer, o pior,muitas vezes… é como o “pimba”. O “pimba” pega. É mais fácil pegar o “pimba” do que o Schubert. Já pensou nisto? É porque é simples. O “pimba” é fácil e o Schubert é difícil. O melhor precisa de educação, respeito pelos outros, compreender o que é um contrato social, precisa de esforço, de estudo… Para nos tornarmos pessoas sérias e civilizadas temos de fazer um esforço. Para sermos selvagens não é preciso esforço nenhum. E é por esta razão que este tipo de acções políticas são reversíveis do ponto de vista da humanidade. É fácil abrir uma janela, se há uma plateia que está a ouvir, e dizer palavrões. Então eu também posso dizer palavrões, diz a plateia. O “pimba” pega. Se uma pessoa abre a janela e começa a recitar um poema de Shakespeare ou um poema do Pessoa, se calhar…

Então qual é a responsabilidade de políticos que têm este poder?
É a de lançar ‘el peor del dia’ como diria o Almodóvar. O pior do dia.

Gosta do Almodóvar?
Gosto muito de Almodóvar.

Muitos dos seus livros deram filmes. É um cinéfalo?
Gosto muito de cinema. Considero o cinema uma linguagem perfeitamente à parte. Seria pretensioso ou, de qualquer modo, uma leitura errada, ir ver um filme inspirado num filme meu à espera que seja o meu livro. Porque o meu livro é o meu livro e o meu filme é o meu filme.

Qual acha que foi a melhor adaptação que fizeram dos seus livros?
Gostei muito de “O Fio do Horizonte”, do Fernando Lopes. É um filme magnífico.

É seu amigo.
Sim, é um grande amigo mas não digo isto por ele ser meu amigo. Digo porque é um realizador de primeira categoria. Foi um dos inventores deste Cinema Novo português. Mas continua a ter uma linguagem cinematográfica magnífica. Mas também gosto do “Requiem” do Alan Tanner, é muito interessante.

Quais são os seus grandes prazeres?
Gosto muito de conversar.

A comida é outro prazer?
É. Sim, sim.

Gosta de cozinhar?
Gosto mais quando cozinha a Maria José.

Mas gosta da cozinha portuguesa?
Adoro. A cozinha portuguesa, a popular que, daquelas coisas que sobraram, consegue fazer um prato. Aí é que é preciso génio, sabe? O senhor Gervásio, ali do café, estava agora a comer caracóis.

Gosta?
Sim, sim. Na Toscânia, caracóis é um prato da minha infância. Gosto muito. Estes são mais para petiscar. Um bom prato de caracóis não é nada mau. Com alho e salsa. Estava a pensar nas coisas culinárias e, no fundo, os nossos países do sul têm a inteligência, o génio de saber transformar o que ficou, as sobras, num prato.

Pode dizer-se que é um homem totalmente virado a Sul?
Sim. Sempre procurei o Sul. Sinto-me melhor. Corresponde mais à minha maneira de ser. Se calhar, fisicamente, não sou muito do sul. Mas, internamente, humanamente ou até gastronomicamente, sou um homem do Sul.

Entrevista publicada no Outlook, do Diário Económico de 8.8.2009

Arrumado

O escritor deixou de fazer sentido. Leio-o e encontro malabarismos, piruetas, emoções a martelo. Um bocejo. Escrita à medida de uma expectativa fabricada pelos fabricantes de livros, cada título uma encomenda. É preciso fazer chorar, fazer rir, fazer bonito, mostrar que se sabe, citar… O escritor deixou de olhar para dentro, de observar cá fora, para se ver a ele num espelho gigante, corpo inteiro de sucesso, músculo ganho à conta de vendas. Nada contra as vendas, bem entendido, mas… Continuo a olhar as páginas como para encontrar a razão da perda do tal sentido. Achar nelas o talento de fazer diferente com as mesmas palavras sem trair a essência da escrita: o tal espelho onde cada um é capaz de se ver e não apenas encontrar o reflexo do escritor musculado. O meu escritor tornou-se banal, papagaio sem penas nem fado. Fecho o livro e arrumo-o na prateleira, ao lado dos outros livros dele que me fizeram segui-lo, e passo à letra seguinte.

Ilíada, a cabeleireira

Era nova no bairro e arriscou entrar no cabeleireiro com a angústia feminina de entregar o cabelo a mãos desconhecidas. Perguntou se havia vaga para agora. “Tem preferência?” Não tinha. Preferia não estar ali. Atrás do balcão a mulher de óculos, inexpressiva, passou o dedo pelo bloco que tinha à frente.

“A Ilíada está disponível, pode ser?” A naturalidade com que aquele nome foi dito só permitia uma resposta. Claro que podia. A Ilíada.

Numa rua de um bairro de Lisboa, Ilíada era uma cabeleireira sem nada de homérico. A sua odisseia era a dos cabelos, metro à porta, metro de volta para o autocarro e depois para um apartamento em Famões. Cabelo escadeado, preto retinto, asa de corvo, falso ou verdadeiro, pouco importa que masque pastilha e use uns jeans alguns números abaixo do tamanho, rapariga a puxar para o gordinho, figura pouco épica que arrumava a história do seu nome na história da família.

“Nome raro o seu”.

“É, nem fala, minha avó chamava assim e meus pais quiseram homenagear ela.” E já está de bata na mão, ajudando-a a vestir, gingona, ar feliz, sem tragédia que se adivinhe. Claro que se entregou a Ilíada, a imigrante brasileira, que já ouvira falar que havia um livro com o nome dela. “Dizem que é muito bom, mas eu me canso a ler, sei lá.” Falava e lavava a cabeça da outra que queria parecer menos espantada, menos curiosa, menos uma série de coisas.

“As pessoas sempre estranham.” E sem mais curiosidade, Ilíada, a cabeleireira, perguntava pelo corte, desaconselhava a franja, ensaiava penteados.”Não é para si, seu rosto não pede”. Que sim, tudo bem, Ilíada.

Sabedoria não lhe faltava, nem balanço. A Grécia tão longe dela e tão perto de nós. E havia um livro por abri que ficou fechado, no colo. Só havia olhos para as mãos de Ilíada ainda cheia de Carnaval, mesmo sendo Quaresma. Falou que era baiana e baiana  samba. Ilíada falava e ela tomava notas mentalmente. Percorria o clássico com a memória e regressava sempre ao espelho onde estava a baiana que sambava e gostava de Carnaval e… Ela queria saber mais

Onde é que estava a angústia? Aquela que desassossega em cada corte como se nele fosse algo de muito dentro e viesse algo que não se sabe bem como é, como fica. Não se via essa inquietação. Haveria ainda? Ela só sabia nunca vira uma Ilíada, essa era a história. Há livros que nos mudam, dizem. A Ilíada terá mudado muita gente. E esta? Quem terá mudado por ela? Ainda se fosse Eneida… Eneidas há muitas. Virgílio nisso conseguiu ser mais popular que Homero. Ilíada já estava de tesoura na mão e foi aí que se deu o golpe na narrativa. Cada uma das duas saberá do silêncio que guardou até a cadeira ficar vazia, a mulher do balcão fazer a conta, o bom dia já e até um dia destes, Ilíada.

Talvez volte para saber mais da história, talvez volte na ilusão de algo ainda mais épico do que o puro acaso de ter conhecido Ilíada, a cabeleireira, que todos os dias apanha o metro e depois o autocarro e volta à noite para Famões e lhe deu um rosto novo e mudou o seu dia.

Um hora antes, ela vira o nevoeiro a desfazer-se no fim da rua e entrou no cabeleireiro.

Nada de muito sério

O frio do mármore na mão acordou-a da leitura.

Há quanto tempo está naquela realidade paralela? O necessário para o arrepio na pele. Um arrepio nada literário, real, que a fez pedir um chá e uma torrada com pouca manteiga, se fizesse favor. Lembrou-se do poeta dos cafés, de um café em particular, o Central, em Viena, de Altenberg, a quem chamavam “o poeta sem casa”, estava espectadora de um livro num palco real que a gelara.

Nada de muito sério. O que lia mesmo? De repente esqueceu. Olhou à volta.

Havia quem rabiscasse num caderno, quem retardasse o acender de um cigarro. Já foi tempo em que estar num café era morar numa espécie de penumbra que matava cerimónias para grandes demoras. Ficar horas, ler, pensar e só pagar um café era um luxo reservado a poucos lugares.

A mão fria no mármore da mesa fazia-a crer que por ali ainda era possível perder-se, sair para fora de si, experimentar os outros, olhando para eles, imaginando-lhes existências, lendo-os por quem os sabe escrever como se fossem realmente. E quem nos diz que não são.

Veio o chá. Um gole e o frio a diluir-se e com ele o sentimento de ausência. Na rua, para lá das vidraças, andavam mulheres de gorro e saltos altos, homens de mãos nos sobretudos. Olhos no chão, apressados. À sua frente, o livro esperava, aberto, um lápis entre as páginas para sublinhados, não se fosse esquecer.

Esquecia. Fazia parte do jogo de tentar andar por várias existências, mas ficava sempre algo, ela sabia. Um ambiente, uma cor, a marca de um dedo na papel, uma mensagem… porque quando o poeta de Viena existia e falava da ‘encenação do colectivo’ ainda não existiam redes sociais, mundos virtuais a baralhar ainda mais o que somos, a imagem que temos de nós, a que têm de nós. Nós e os outros e tantas coisas pelo meio, a filtrar, a mediar.

A torrada tem manteiga a mais. Esse paladar era só dela. Não partilhado a não através de um ligeiro esgar de enjoo. Podia reclamar e intervir na realidade de outro. Não o fez. Comeu e calou.

A mão já estava quente. O homem da mesa ao lado saiu para finalmente acender o cigarro. Na sua mesa sentou-se um rapaz com um iPad. Pediu um café e um copo de água. Ela resistu a pedir a conta. Foi na boleia dele e enfiou os olhos no seu livro. Ia ter companhia naquela ausência de si.

Ao telefone com Amos Oz

 

Um dia, no ano em que o estado de Israel celebrava seis décadas de existência, marquei um número sem esperar grande coisa. Era minha obrigação tentar fazer algo com aquele contacto privilegiado que me viera parar às mãos. Depois do toque de chamada, aparece do outro lado uma voz rouca, afável. Era Amos Oz, o grande escritor, pacifista como David Grossman, um e outro tão imensos quanto polémicos, judeus que não se conformam com a guerra. Quando em Portugal acaba de sair “A Caixa Negra“, uma edição da D. Quixote, deixo aqui um resumo do que foi uma conversa que não hei-de esquecer. Foi publicada no Diário de Notícias, em Junho de 2005.


Só tenho um desejo a cada ano: a paz

Amos Oz. Ao telefone, a partir da sua casa no deserto do Neguev, em Israel, o mais famoso dos autores israelitas, há muito candidato ao Nobel da Literatura, falou em exclusivo ao DN. Quando Israel celebra 60 anos, uma conversa sobre memória, de política, de religião, de vida e de morte com um homem que um dia quis ser um livro

Vive no deserto do Negueve. Como é a sua rotina diária aí?
Faço uma caminhada no deserto de manhã cedo, por volta das seis, e depois tomo uma chávena de café e escrevo toda a manhã. Paro para almoçar e à tarde volto para o meu estúdio, muitas vezes para destruir tudo o que fiz de manhã.

Escreve sempre aí, no deserto?
Sim.

Para alguém que nasceu em Jerusalém e viveu num kibbutz durante tantos anos, esse não é um sítio demasiado solitário?
Gosto do deserto por isso. Sou um homem solitário e gosto da solidão deste lugar.

Como explica que os seus livros, escritos por um homem isolado no deserto, sejam tão universais?
Quanto mais provinciana é a literatura, mais universal consegue ser.

Considera-se um provinciano?
Sou um provinciano. Vivo na província, vivo numa pequena cidade, nunca vivi numa cidade grande. Penso que muita da literatura mundial foi escrita por autores provincianos.

O romance que está a escrever neste momento é um livro político?
Todo o livro é político, o que não significa que seja um manifesto.

Disse, inclusive, que não queria que os seus livros fossem olhados enquanto tal, enquanto manifestos políticos.
Nenhum dos meus romances é um manifesto político.

Mas neles o público e o privado estão muito próximos.
Escrevo sobre a vida e na vida a experiência política faz parte do mundo.

Em Um Conto de Amor e Trevas, o seu último livro editado em Portugal, relata o nascer de um país, o seu, através do olhar de um rapaz. Este é um livro de memórias. Como reconstituiu essa memória tão distante no tempo?
Esse é o trabalho de um romancista. Não nos lembramos de tudo e há coisas que temos de reconstruir por camadas, recorrendo à memória. Falei com muita gente, recolhi dados, mas foi sobretudo um trabalho sobre a memória.

E que imagem guarda Amos Oz desses tempos?
Tenho uma memória muito forte do nascimento de Israel. Vivi naquele tempo intensamente e sou testemunha desse nascimento.

Do nascimento de um país e de uma espécie de renascer de uma língua, o hebraico. Como explica esse renascer?
Porque este país nasceu de gente vinda de muitos, muitos países. De 136 países. E não havia uma língua comum, excepto uma língua ancestral, a Tora. Ela renasceu da necessidade de comunicar.

Algo comparável a um eventual ressurgir do latim, por exemplo?
Se pusesse mil portugueses numa ilha com mil polacos, eles começariam a falar latim e o latim regressaria a essa ilha.

Houve necessidade de adaptar essa língua à actualidade. Assistiu ao nascimento de muitas palavras, experiência única para um escritor…
Sim. E eu mesmo inventei uma ou duas palavras dessa língua e que fazem agora parte do dicionário e são usadas pelas pessoas e estão nos livros. É uma experiência fantástica. É o mais próximo da imortalidade que um mortal pode atingir.

Que palavras foram essas?
O equivalente a noite estrelada.

E a outra?
É para referir alguém que se torna oportunista.

Este ano, esse país a cujo nascimento assistiu faz 60 anos. Há algum desejo especial?
Só tenho um desejo para este ano, para cada ano e para todos os anos em Israel: paz.

Escreveu sobre o tema da imortalidade, quando disse que em pequeno gostaria de ter sido um livro.
Sim, queria que quando crescesse tornar-me num livro e não num homem. Muita gente morria, muitas crianças nunca chegavam a adultos e eu achava que tinha mais hipóteses de sobreviver se me tornasse um livro. Eu vivia aterrorizado, achando que um dia talvez viesse alguém para me levar. Havia um sentimento de medo generalizado, de insegurança na atmosfera.

Uma criança, hoje, não tem esse sentimento?
Depende de onde esteja. Há sítios no mundo onde esse pânico existe, é muito real.

Refiro-me a Israel.
Não no Israel de hoje. Israel não é tão inseguro como era nesse início.

E quando dizia que queria ser um livro, pensava num livro em especial?
Não. Queria apenas ser um livro para não morrer.

Viveu muito tempo, a partir dos 14 anos, num kibbutz. Foi lá que começou a escrever numa espécie de clandestinidade.
Sim. Dividia o tempo entre a escrita, o ensino e trabalhando como condutor de tractor.

E nessa altura o que queria era ser um condutor de tractor.
Sim, é verdade. Eu rebelei-me contra o meu mundo privado e contra o meu pai quando tinha 14 anos e deixei a minha casa em Jerusalém e decidi viver por conta própria no kibbutz, onde tentei mudar tudo na minha vida, ser uma pessoa diferente. Nascer outra vez.

Não conseguiu?
Claro que não. Não havia como. Eu continuava a ter o meu quarto cheio de livros, muitos livros à minha volta tal como o meu pai tinha o quarto dele cheio de livros.

Como explica isso?
É a ironia por detrás de todas as rebeliões e de todas as revoluções. Começar do zero… Isso é impossível.

Numa entrevista disse que na sua infância foi uma espécie de Tom Sawyer ou Huckleberry Fynn.
Por causa das muitas aventuras que vivi, algumas delas fruto da minha imaginação. Mas essas também não deixam de ser aventuras.

Nessa entrevista referiu que não queria ser visto como autor de ficção. Porquê?
Não gosto da palavra ficção. A palavra ficção significa algo que não é verdade e não acho que o que escrevo seja ficção. É prosa. Não é ficção.

Dois dos seus livros estão traduzidos em arábico e publicados em países árabes.
No Egipto e na Jordânia. Agora Um Conto de Amor e de Trevas está a ser traduzido para arábico e vai ser publicado na Arábia. Para mim é a mais importante de todas as traduções, porque irá ajudar, espero, a construir mais pontes para a resolução deste conflito.|

O próximo mito, à sua revelia

Maria Gabriela Llansol é uma escritora de leitores fiéis. Rompeu com as normas da escrita e conseguiu uma singularidade invulgar. Já lhe chamam o próximo mito da literatura portuguesa. Quando morreu, em 2008, aos 76 anos, deixou 29 livros publicados e mais de 70 cadernos inéditos. O Brasil está a descobri-la. Portugal continua a tentar conhecê-la.

Pode-se dizer que escreveu um único livro ao longo da sua vida. Uma parte desse imenso volume, do qual ainda há muitos inéditos por sair, chegou recentemente ao leitor brasileiro. São três diários, Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências (a que se juntou um tomo de entrevistas), ponto de partida que funciona quase como um manual de instrução para uma leitura que exige tanto fôlego quanto aquele que Llansol usou para escrever. O fôlego de uma vida que gerou “o próximo grande mito literário da literatura portuguesa”, a seguir a Fernando Pessoa, conforme vaticinou o pensador Eduardo Lourenço a propósito de uma exposição sobre a escritora realizada em 2011 em Lisboa.

A casa amarela com uma buganvília à porta, no centro da vila de Sintra, onde Gabriela viveu parte da sua vida, ecoa a sua ausência. Não estão lá mais os gatos que sempre a acompanharam. Ou melhor: Melissa ainda lhe sobreviveu. Mais uma gata, um nome a juntar aos outros que foram deixando o rasto e a memória. Foi adotada por Hélia Correia, escritora, amiga de Llansol, que só escreve com chuva, ao contrário da autora dos Diários, que gostava da luz e dos seus efeitos, ainda que esses fossem sombra.

A casa transformou-se no Centro de Estudos Llansolianos, que trabalha na catalogação de seus escritos e é responsável pela divulgação da obra da autora. Estão lá as cerca de 30 mil páginas do seu legado. Escrita miúda, letra corrida, páginas pontuadas de desenhos que ajudam a ilustrar o contágio que lhe vinha de fora, de todas as coisas.

Carlos Santos é um llansoliano. Não um especialista, mas um apaixonado por aquela que considera ser a melhor escritora em português. Descobriu-a em 2006, o ano em que venceu um dos mais prestigiados prêmios literários em Portugal, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. Foi com o romance Amigo e Amiga. Ele era estudante de Direito. “Uma colega de curso estava nas escadas da faculdade concentrada num livro”, lembra ele ao Sabático. “Perguntei-lhe o que lia e ela mostrou a capa. ‘Não conheces?’ Eu não conhecia e ela respondeu-me que tinha de conhecer, que era ‘fabuloso’.” Carlos seguiu o conselho – e deu no que deu. Depois daquele romance, viajou no tempo e foi até Herbais, um dos locais míticos da escritora quando viveu o exílio na Bélgica. Leu O Livro das Comunidades, o título que se seguiu aos diários agora editados no Brasil. Vieram os outros, quase todos. 29 publicados em vida da escritora, mais o primeiro volume do Livro de Horas, e o primeiro póstumo, aparecido no mesmo ano da morte dela.

“Culto?”, interroga Carlos Santos, repetindo a minha pergunta, enquanto caminha ao meu lado rumo a uma livraria no centro de Lisboa. “A haver, talvez seja por não sermos muitos”, lamenta. João Barrento, um dos responsáveis pelo Centro de Estudos Llansolianos, também quer quebrar a ideia de “seita” que muitas vezes é associada aos apaixonados pela escrita de Llansol. Escritores, pintores, escultores, músicos, etc., que partem para outras obras a partir de Llansol. E o leitor comum, quase sempre conquistado na juventude, quando a disponibilidade para o “novo” é maior. “A obra dela não é um objeto exótico”, afirma Barrento. “Nem tem um caráter esotérico, como muitas vezes se sugere.”

Talvez a estranheza esteja na singularidade que ela foi capaz de criar e que ajudou a sedimentar pela sua necessidade de isolamento, a fama de ser esquiva com a comunicação social, que não gostava de dar entrevistas, mas que se revelou nas poucas que concedeu e que estão compiladas na edição brasileira dos Diários. Uma vez perguntaram-lhe por que escrevia. Ela respondeu apenas porque sim. E prossegui até ao fim com “esse manuscrito aberto”, como lhe chama João Barrento. “Antes que o meu destino termine, tenho necessidade de escrever o que falta”, anotou ela.

A passagem está no Caderno I, Um Falcão no Punho e é sublinhada por Barrento. Não é o livro que Carlos Santos procura quando chegamos, enfim, à livraria. Ele passa pela fila da caixa, olha para as prateleiras que anunciam autores portugueses. A ordem é alfabética, mas o “L” parece não ter nada de Llansol. Não desiste. Ajoelha-se, olha mais de perto e descobre um volume. É o único. A prateleira fica agora despida dessa escritora a que querem chamar mito contra a sua vontade.

Ela escrevia sobre as coisas grandes e pequenas com o mesmo fervor. Carlos Santos segura nas mãos Um Arco Singular. Uma edição de 2010, saída do trabalho das pessoas que agora vão habitando a casa amarela. É o segundo volume do Livro de Horas. Reúne manuscritos de 1977 e 1978. Ele abre na primeira página, como que para reconhecer. Lá está Llansol: “Na profusão do silêncio suspendeu os ramos. E sua nostalgia provocava em seu companheiro um impacto profundo. Começaram a falar, como andavam.” Carlos Santos vai ter tempo de o ler antes de Livro de Horas, cuja edição está saindo neste início de ano. Trata-se do terceiro volume póstumo – todos com o mesmo título, Livro de Horas – de uma escrita que Augusto Joaquim, o viúvo de Maria Gabriela Llansol, classificou como um olhar “que procura a luz que emerge, algures, entre a ética da responsabilidade, a procura intransigente do belo e o dito rasante e justo”.

artigo publicado no jornal Estado de São Paulo, no suplemento Sabático

Assis Pacheco

O tempo desfaz-se em pó por cima do livro esquecido. Quantos anos? Antes de passar o dedo tento adivinhar a capa. Parece rosa, mas está velho. Luz e pó deformam uma cor. As telhas são vãs neste sótão de aldeia. Passo o dedo e confirmo ser o livro que há muito achava perdido. “Retratos Falados”, uma edição da Asa, uma relíquia que não sei como foi parar à pilha do esquecimento. Pego num trapo ainda mais velho do que o rosa da capa e limpo o tempo a um dos livros que me fez querer ser qualquer coisa.

Saber perguntar assim, ter aquela língua de perguntador, certeira, irónica, curiosa, capaz de criar no outro um grau de cumplicidade que o leva, ao perguntado, a deixar cair as armas, ao desconcerto. E saber a deixa, sempre, ser interlocutor numa conversa mais do que ser entrevistador.

Foi naquele livro que li pela primeira vez Fernando Assis Pacheco. Li-o nas perguntas e nas respostas a que elas levavam e eu quis saber fazer aquilo.

Aprende-se? Alguma vez se aprende a ser assim, a fazer assim? Mas tarde soube que se pode tentar, mas só ele sabia ser assim. Li-lhe depois os poemas, todos os livros. Fui ver como uma das suas filhas lhe ilustrou capas de obras póstumas. Amigos que privaram com ele contaram-me que ia em reportagem, e não tomava uma nota e era capaz de contar a história como ninguém. Cada vez o admirava mais.
Quando comecei  também a perguntar quis um dia poder perguntar-lhe, mas a vergonha ia-me impedindo até que ele um dia, cedo de mais, não voltou a perguntar nem a contar, nem a fazer poemas com a vida. Sem nunca o ter conhecido pessoalmente, chorei. Confesso agora sem vergonha das lágrimas, mas envergonhada pelo meu orgulho, a pena de nunca ter tido coragem de lhe perguntar o que quer que fosse mesmo que tivesse feito triste figura.

Volto ao pó. Peguei no livro e limpei-lhe o tempo depois de ter lido a biografia que a Tinta da China acaba de editar sobre Assis Pacheco. Quis voltar a ler-lhe as perguntas e sabia que esse livro tinha de existir. “Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco”, de Nuno Costa Santos, título inspirado em “Benito Prada” e na Galiza que corria no sangue do coimbrão.

Voltei às entrevistas de papel amarelo, feitas a gente que já morreu ou já perdemos ao vasto horizonte do tempo. Só ele, Assis, escapou ao pó.

Guiador de comida

A minha mãe passou a enorme fila de clientes e pediu por tudo que a deixassem telefonar. “Se quiser fique com o meu relógio”, disse. Era a única coisa que tinha depois da porta de casa se ter fechado, deixando-a trancada na rua. Do outro lado do balcão, a mulher com ar de sargento perdeu a fúria, adoçou-se depois do silêncio do desconcerto. E quem conhece, sabe que essa doçura não é fácil. “Fica mas é cá a senhora a lavar pratos”, foi o mais açucarado que lhe saiu.

Os frequentadores sabem dos riscos de furar aquela fila, sobretudo aos sábados de manhã. O Espigasol faz parte da minha vida em Lisboa. Comprar os caseirinhos para o lanche, as areias para ir debicando. Todos os dias, paragem obrigatória a caminho de casa. Era assim e agora vejo-a no “Lisboa à Mesa” e é como ver revelado um segredo à cidade, coisa pessoal.

É assim o guia de que se fala, revelador de intimidades urbanas descobertas ao ritmo de passeios a pé.  Restaurantes, tascas, mercearias e mercados, lojas gourmet e uma drogaria como só aquela, lá para Santos. É o essencial guia para foodies. Gente que gosta de comida, de passeios pela cidade e de se rever nas palavras desse caminhante citadino que o Miguel Pires é e que passou agora para o papel. 50 lugares favoritos onde comer, 25 lugares favoritos onde comprar, 280 entradas escolhidas segundo um critério pessoal, sempre que possível com um factor distintivo face ao resto, o tal factor ‘X’, como lhe chama o autor. Lugares únicos onde comer, onde encher o cesto ou fazer o gosto à gula. não, um, mas antes O petisco, ou pitéu… de se comer.

O meu guia já tem uma nódoa. Sorry. Sinal de uso em sítios de comer. Anda comigo pela cozinha. É onde gosto mais de o consultar. E onde está a nódoa? No Espigasol, mesmo ali no factor X: “se tiver dúvidas, faça uma ou outra pergunta, mas não abuse. Em caso de desespero, peça o mesmo que o cliente anterior. Acima de tudo, não quebre o ritmo do atendimento. A gerência agradece.”

Este guia de Lisboa, agora publicado pela Planeta, e assinado pelo Miguel Pires, estava longe de ser editado quando a minha mãe quase hipotecou o relógio por um telefonema. Por essa altura o Miguel andava pelo mundo da publicidade e comia nas horas vagas. Agora é um dos nomes mais respeitados a escrever sobre lugares de comida e um dos três fundadores do blogue Mesa Marcada, com o Duarte Calvão e o Rui Falcão.

Fez um guia de escolhas. Notam-se faltas. É natural. A ideia não era ser exaustivo. Era seleccionar. E não contempla alguns dos espaços que abriram nos últimos dois meses por razões de produção editorial. O “Lisboa à Mesa” é lançado hoje, na Livraria Ler Devagar da LX Factory, mas já está disponível.

Destaque ainda para o trabalho gráfico de Luís Alvoeiro Quaresma e para as ilustrações de Tiago Albuquerque.