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passear bonecas

Foto de Robert Frank

Eu fazia como a menina da foto de Robert Frank, mas usava um camião vermelho de plástico que obriguei, com uma forte birra, a minha mãe a comprar numa loja de brinquedos de uma senhora velha. Todos os dias escolhia uma ou várias bonecas para levar a passear no meu camião igual ao dos rapazes. De vez em quando fazia corridas com o camião, ladeira abaixo, e algumas bonecas saltavam. Corria a socorrê-las, mudava-lhes a roupa, penteava-as e elas voltavam a parecer bonecas. Ainda tenho esse camião. Está no sótão da casa, com uma corda tirada de um novelo de lã grossa que a minha mãe usou para fazer uma camisola. Puxei o cordel e tive o impulso de encher o camião de bonecas e pô-lo a correr ladeira abaixo, com a promessa de que mudaria de vestido às bonecas.

Mistérios de Lisboa

“Lisboa é grande?” Ela brincava com as peças do lego e não desviava os olhos da construção que já sabia de cor. Cotovelos apoiados na mesa, pés a balançar no ar. “Muito grande”, e a mãe sem tirar os olhos da revista. “Do tamanho de quê?”, a cabeça de lado, a mirar o já construído. “É grande, é uma cidade, a maior de Portugal, com muita gente a viver lá, e muitos carros, e prédios altos.” A mãe estava determinada a não deixar uma pergunta da filha sem resposta. “Mas grande como, maior que Torres?” E os olhos já não estavam o lego. Olhavam a mulher de quem esperava todas as respostas sobre o mundo. “Sim, muito maior que Torres.” Hmmm… o silêncio não era sinal de desistência, a mãe sabia. Ela sabia que a filha não estava esclarecida. Os pés a balançar, a distracção ensaiada, era sinal disso. “Maior que de Torres até lá?” Há um limite para paciência de mãe ou pelo menos um ponto em que a mãe sabe que não vai mais ter reposta para a filha de três anos que era eu. Ela queria saber da grandeza de uma cidade que aprendera como um sonho das histórias dos adultos, dos filmes, a cidade onde ia muitas vezes para ver um médico de bata branca. Gostava dele mas não gostava do cheiro. Disseram-lhe que era éter e ela passou a odiar éter. E só por chorar por causa do éter, levaram-na ao Jardim Zoológico e para que não pensasse que Lisboa era só feita de éter. Ela já desconfiava. Não devia ser por causa desse cheiro que a mãe queria ir viver lá apesar dos protestos do pai, que a avó dizia ter saudades da terra onde não havia só sirenes que haviam de levar alguém até ao éter. Por isso mostraram-lhe o rio, e as ruas e as pessoas e os cafés onde havia máquinas de davam ovos que davam brinquedos e ele aprendeu a dizer que um dia queria ir para lá. quando fosse grande queria ser de Lisboa. Quando fosse grande como Lisboa. A mãe haveria de gostar, Talvez fosse com ela. O pior era o pai que não queria ir. Um dia ela foi. Já era quase grande e ainda não fazia ideia do tamanho de Lisboa. Sabia só que era a terra da avó e por isso não acreditava quando lhe diziam que quem era de Lisboa não tinha terra. E fez bem. Hoje quando sai tem saudades de Lisboa como quem tem saudades da terra. Dos cheiros, das pessoas, do anonimato, da língua afiada da porteira. Dos becos com histórias expostas, dos bairros que são como aldeias ou dos vizinhos que não se querem falar porque não querem que seja como lá na aldeias de onde muitos vieram. Ela é das que gosta do anonimato, Do “Bom dia e um galão”, isso que poucos confessam mas que não quer dizer mais a não ser “Preservo-me”. Deve ser uma protecção, defesa, qualquer sinónimo associado ao pudor da não exibição da vida. A tal associação ao “cuidado” que lhe recomendaram quando saiu de casa. E depois de Lisboa vieram outras cidades ainda maiores, sempre com Lisboa a servir de escala de grandeza. Havia as mais pequenas, as mais cosmopolitas, as mais feias, as mais caóticas, as mais frias, as mais quentes. Lisboa o termo de comparação. Talvez o dobro do Porto, sem o charme de Paris, um encanto como o de Roma, mínima em relação a Tóquio, muito menos cosmopolita que Nova Iorque, mas nunca a digam menos bonita que… Diferente, é isso. “De que tamanho e Lisboa?” foi a primeira formulação de uma tentativa de entendimento de algo complexo. Seguiram-se outras. Mistérios desfeitos, mas o de Lisboa manteve-se. Apesar do mal que lhe vão fazendo, Lisboa sobrevive revelando uma enorme capacidade de regeneração. Já viram quantas feridas? É coisa viva. E tantos anos depois, adoptando a cidade como terra, posso andar por muitas, viver em tantas, mas continua sem resposta a pergunta feita à mãe, um dia, faz muito tempo. “Lisboa é do tamanho de quê?” Se isto fosse um filme agora entrava o silêncio e talvez o genérico.

Na curva

Como eu odiava a pasta castanha às costas. Os fechos laranja florescentes para alertar carros. E odiava ainda mais a bata branca com o nome bordado no bols,o que me apertava no pescoço e me enchouriçava por cima da roupa de lã.  Eu bem que tentava alargar a gola dando-lhe puxões com os dedos, esticando o pescoço, mas qual quê. Equipada, lá bebia de uma virada o leite com chocolate e segurava na fatia de pão com manteiga enquanto a minha mãe me compunha e passava para a mão o cesto de lanche e ainda mais um casaco não fosse arrefecer. E eu sem dar uma dentada no pão. E ela: “come”. E a prima mais nova já esperava, inquieta, irrequieta, tagarela tão chouriça quanto eu. Minto: mais porque eu era lingrinhas. Ela não e para ela era o primeiro dia na escola e sentia-se muito crescida e eu já na segunda classe portava-me como uma pedante. Fingia que não a via. E a minha mãe a dar-me um beijinho como se eu fosse para longe e a ver-me descer a ladeira, coisa que eu fazia  à pressa. Quase corria, fazendo jogos de apanhada e a sentir os lápis a bater contra as canetas, o chocalho da lapiseira no meio de livros e cadernos.  Passada a curva, olhava para trás. Estava fora de vista da mãe que me acompanhava com o olhar até me perder o vulto naqueles cem metros que a mim me pareciam muito mais. A salvo, dava então um beijinho no pão, só levemente trincado e deitava-o às ervas de modo a que ficasse bem escondido, não fosse a minha mãe passar e descobrir o meu pecado. Eu sabia que não era bem pecado. Pelo menos era o que a minha avó dizia. “Se não quiseres mais dá um beijinho no pão e depois podes deitar fora.” Era o que eu fazia e sentia-me ilibada.

Agosto está aí

Em agosto comecei a andar, em agosto vi pela primeira vez o mar e a nao houve grão de areia que não trincasse; em agosto soube o que era o som do amolador e as rodas das carroças de hortaliças a chegar à praca; em agosto comprei o meu primeiro livro com o meu primeiro dinheiro e não dei o meu primeiro beijo porque em agosto eu não tinha namorado; em agosto fiquei na rua, no degrau à noite, porque o meu pai confundiu a campainha com o despertador; em agosto comi caracois e carangueijos e tremoços com pevides; foi em agosto que andei numa bicicleta com duas rodinhas a ajudar as outras e nao houve agosto que me fizesse andar de bicicleta de outra maneira; em agosto a minha mãe usava óculos de sol do tamanho da cara dela e o meu pai ria do ridículo que achava aquilo que eu um dia queria imitar; em agosto eu andei com uns óculos do tamanho da minha cara e o meu pai nao se riu porque acho que estava distraído; ainda em agosto vi que a melhor vista do mundo pertencia a uma vaca num prado em s. Miguel, a vaca! Em agosto aprendi a fazer malas e nunca soube como as desfazer; em agosto vesti me de noiva e parti o salto do sapato tornado me uma noiva coxa que foi brincar ao carnaval de verão; em agosto fiz piqueniques com formigas a picar a língua, em agosto vi o que nunca pude ver antes, falei com quem nunca imaginei falar, chorei e ri, andei pelo país feita repórter num carro azul que perdeu a cor e soube quer podia ser marinheiro porque não enjooei num barco onde chegaram percebes e a notícia de um nascimento. Foi no mar. Em agosto amei, em agosto tive raiva e esqueci tudo. Em Agosto a minha avó caiu para nunca mais se levantar; em agosto cantei cantigas de embalar onde havia uma herói e uma menina que sabia falar inglês. Em agosto corri para ver o que nunca ninha visto; em agosto uma amiga muito amiga ia ter um bebé e teve, e eu, graças a ela, aprendi um dos  incondicionais do verbo amar; em agosto surgiu a Maria e agosto ha-de ser sempre dela. É quase quase agosto, Maria