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Às vezes o sapato é o limite

Viu que tinha chegado a um limite quando pôs os sapatos pretos de salto alto na mala de mão. Parou. Já tinha calcado o conteúdo e puxado o fecho, faltavam vinte minutos para o comboio e havia que atravessar uma cidade. Cabia tudo, como quase sempre. Mas agora baixava os braços. O relógio deixou de ter ponteiros, ou a corda partira-se. O tempo sentou-se com ela no sofá, mãos no rosto a aparar lágrimas que não pediram licença para cair.

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Sina de Natal

Um, dois, três, pé direito.

Não vá o diabo tecê-las nem as bruxas se distraírem na sua roda de chuva. Se houvesse madeira, lá ia o lagarto lagarto lagarto. Não há. E agora? Que seja o que Deus quiser, então. Só que parece que Deus não gosta de ser colocado nestas coisas da superstição.

Ela prefere chamar-lhe cautelas e caldos de galinha, já se sabe que nunca fizeram mal a ninguém a não ser às pobres das galinhas. Mas senão fosse para o caldo iam para a cabidela, por isso… Estava ela aqui a cogitar enquanto os pingos grossos batiam na vidraça e veio o trovão. Despertou-a do torpor, da lengalenga irracional, da imagem de uma bruxa vestida de cigana à porta de um banco, mesmo com a caixa para pôr cartão e sair o dinheiro que paga a sina. Há umas mais caras que outras e parece que o preço depende mais da aparência do cliente do que do tamanho do mau olhado por desfazer. “Alguém lhe quer fazer muito mal”, disse-lhe. Pois. Ela de mão direita estendida e a esquerda a segurar o jornal de um dia já com cheiro a castanhas e músicas de Natal a sair não sabe bem de onde. “Há um amor que vem de longe e não a querem deixar vivê-lo.” Hummm. A coisa a compôr-se nos seus perigos. Uma a olhar nos olhos da outra e a mão aberta. Há mais. “É um mal muito grande o que lhe querem fazer”. Ai… teria sido tão mais fácil dizer não à camisola de marca que a mulher de preto trazia nos braços. Era a camisola ou a sina. A ela calhou-lhe a sina e a merda da dificuldade em dizer “não quero nada. Importa-se de me deixar seguir para uma esplanada e pedir um café com leite e ver quem passa sempre que levanto a atenção das páginas de gente que também não parece querer-me muito bem e por acaso também me manda para o multibanco sempre que tem um pretexto.”

“Se a menina quiser eu posso curar-lhe esse mal que nunca a vai deixar ser feliz.” Apre, está a ficar aflitivo. “Dá-me agora 50 euros e eu vou fazer uma reza. Segunda passa por cá e dá-me o resto, mais 50, Estou aqui à mesma hora e tenho uma coisa para lhe entregar que vai protegê-la.” É pegar ou largar, faltou dizer. E ela quase a pegar porque deixar ir era um risco demasiado arriscado. Pagar ou não ser feliz. Afinal, teria sido tão mais fácil levar a camisola de marca. Fazia-lhe um embrulho e pronto. Estava resolvida uma prenda. Por menos de 50 euros e sem desafios à sorte.

E agora? A mão continuava aberta e já ninguém a lia. A cigana esperava, que não estava ali para a enganar que Deus a castigasse se fizesse uma coisa delas ainda mais a uma menina que via-se que sofria.” Oh como a cigana sabia de psicologia humana. Estava num canto da rua, numa esquina que escolheu para as proteger do mundo, multibanco ao lado não fosse dar-se o caso de ser preciso levantar os 50 euros. Bom serviço. Cinco estrelas. A cliente não teria de se maçar muito. Marcar código e já está. Dinheiro na mão.

E ela pensava nas palavras da cigana, no enguiço que seria não haver reza. Quem não sofre? Quem não tem um amor gostava de ter? E a inveja já se sabe, anda por aí. Bruxaria de cordel e ela a cair. Ou isso ou a carteira ‘luis viton’, dizia a cigana mais nova sem o dizer, apenas abanando a mercadoria à escolha do freguês que passava. E a mais velha num murmúrio que ela já não ouvia. “É pagar ou não ser feliz”, atirava-lhe o cérebro em jeito de pregão de rua. Como passar em frente? Ó pregãozinho eficaz. E as contas de cabeça. 50 euros era dinheiro, mas não era assim tanto, e depois faz de conta que não os tinha. E já não precisava da carteira da outra. Podia também fazer de conta que não tinha ouvido nada do que lhe fora dito. “É pagar e ser feliz. Só 50 euros”, voltava a ladainha, cérebro traiçoeiro, aliado de bruxas que se vestem de boas para desfazer o mal. E outro trovão. reparou que o jornal de sábado ainda estava enrolado. Não houve esplanada nem café com leite. Pagou pela sorte e agora parece à espera que ela venha em forma de amuleto. Amanhã na mesma esquina, a salvo do mundo. “Just in case”, justifica-se, também não haveria de ser por 50 euros. Pois não?

Claro, agora só faltam os outros 50 euros.

Agosto está aí

Em agosto comecei a andar, em agosto vi pela primeira vez o mar e a nao houve grão de areia que não trincasse; em agosto soube o que era o som do amolador e as rodas das carroças de hortaliças a chegar à praca; em agosto comprei o meu primeiro livro com o meu primeiro dinheiro e não dei o meu primeiro beijo porque em agosto eu não tinha namorado; em agosto fiquei na rua, no degrau à noite, porque o meu pai confundiu a campainha com o despertador; em agosto comi caracois e carangueijos e tremoços com pevides; foi em agosto que andei numa bicicleta com duas rodinhas a ajudar as outras e nao houve agosto que me fizesse andar de bicicleta de outra maneira; em agosto a minha mãe usava óculos de sol do tamanho da cara dela e o meu pai ria do ridículo que achava aquilo que eu um dia queria imitar; em agosto eu andei com uns óculos do tamanho da minha cara e o meu pai nao se riu porque acho que estava distraído; ainda em agosto vi que a melhor vista do mundo pertencia a uma vaca num prado em s. Miguel, a vaca! Em agosto aprendi a fazer malas e nunca soube como as desfazer; em agosto vesti me de noiva e parti o salto do sapato tornado me uma noiva coxa que foi brincar ao carnaval de verão; em agosto fiz piqueniques com formigas a picar a língua, em agosto vi o que nunca pude ver antes, falei com quem nunca imaginei falar, chorei e ri, andei pelo país feita repórter num carro azul que perdeu a cor e soube quer podia ser marinheiro porque não enjooei num barco onde chegaram percebes e a notícia de um nascimento. Foi no mar. Em agosto amei, em agosto tive raiva e esqueci tudo. Em Agosto a minha avó caiu para nunca mais se levantar; em agosto cantei cantigas de embalar onde havia uma herói e uma menina que sabia falar inglês. Em agosto corri para ver o que nunca ninha visto; em agosto uma amiga muito amiga ia ter um bebé e teve, e eu, graças a ela, aprendi um dos  incondicionais do verbo amar; em agosto surgiu a Maria e agosto ha-de ser sempre dela. É quase quase agosto, Maria