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falta de memória

Escrevi isto em 2003

“Há dez anos, quando pela primeira vez tive lugar numa redacção, sempre que me entregavam um trabalho, apontavam-me um jornalista capaz de me ajudar a fazer a reconstituição de um acontecimento. À distância de umas secretárias e em poucos minutos, eu tinha o background da minha história e a informação mínima para poder levantar dúvidas e questionar os interlocutores que iria enfrentar (…). Não falo de um passado longínquo. São apenas dez anos. Mas desde então as redacções foram ficando despovoadas de memória, a memória dos jornalistas com anos de profissão que, em nome da produtividade e da contenção de custos, foram sendo dispensados pelos novos conselhos de administração a quem cumpre gerir os meios de comunicação social como empresas que têm de dar lucro sob pena de fecharem. Não questiono isso. Provavelmente não haverá outro modo e os jornais têm de funcionar e existir como empresas. Mas há uma função inerente à existência de jornais e jornalistas: informar. E a informação não é feita apenas do imediato. Não existe notícia sem um passado que a justifique. Com jornalistas cada vez mais novos, com editores sucessivamente menos experientes, informar é cada vez mais dizer o que acabou de acontecer e as notícias surgem a quem as recebe como actos isolados. A investigação quase desapareceu porque tem custos que as administrações consideram incomportáveis. Há excepções. Mas a regra é a da perda da memória. Uma memória que a Internet não preenche, apesar de ser uma ferramenta essencial à actividade dos jornalistas”.

Este artigo foi publicado na revista Jornalismo e Jornalistas em Dezembro de 2003. Chamei-lhe “Falta de memória” Mais de oito anos depois pareceu-me o princípio de qualquer coisa que está a acabar

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Azinhaga foi ver neto de Jerónimo e Josefa

“Acho que se vocês fossem menos eu já tinha chorado. Mas vocês são tantos que nem sequer chorar posso.” A frase é de José Saramago em fim de festa no dia em que muitas casas da Azinhaga ficaram desertas para ver e ouvir o neto de Jerónimo e de Josefa num dos pavilhões abandonados da SIC (Sociedade Industrial de Concentrados), a fábrica onde Maria Silva e o marido trabalharam 30 anos. A fábrica fechou e Maria Silva, chapéu preto na cabeça e colete verde fluorescente, arranca agora a erva no espaço entre as pedras da calçada. Pedra a pedra, trabalho de paciência que faz de joelhos no chão. Rotina. “A aldeia está sempre limpa, não é por vir cá o Saramago”, justifica.

São duas da tarde e Maria Silva limpa a rotunda à entrada da Azinhaga, junto à placa que assinala “a aldeia mais portuguesa do Ribatejo”. A mulher mal se nota, escondida pelas letras ‘Parabéns Saramago’, azul em fundo branco a indicar o lançamento do livro de memórias do Nobel da terra e em dia de aniversário.

A casa de Maria Silva há-de ser uma entre as muitas que vão ficar desertas quando forem cinco da tarde. Fica ao lado daquela onde mora “uma prima mesmo carnal” do escritor, especifica. Todos, na Azinhaga, parecem ter uma história para contar que inclua o autor de A Jangada de Pedra. Na rua da Estação, Avelino pára o carro enquanto acende um cigarro à pressa. Quer mostrar um quadro que acabou de pintar e que o afilhado, o presidente da Junta de Freguesia, irá oferecer daí a poucas horas “ao amigo Saramago”, filho de José. “Ando à procura de umas ripinhas para a moldura”, explica enquanto exibe, apoiado à roda traseira, um retrato do escritor em pirogravura que pintou.

São os últimos preparativos, indício de azáfama na terra, com os homens à porta das tabernas a comentar a gente que vai chegando e a água do Alviela que vai subindo. “Isto qualquer dia parece Veneza”, diz um dos mais novos. Os outros confirmam que a cheia está por pouco. Estão sentados em bancos de madeira e cadeiras de plástico na praça principal, junto a um parque de estacionamento, relicário de bicicletas com caixas de fruta, pasteleiras com cadeiras de bebés, Ye-yés de Luxo made in Aveiro.
E a banda filarmónica afina instrumentos e o rancho folclórico sai à rua. À entrada do pavilhão onde Saramago há-de apresentar As Pequenas Memórias, três porcos a assam no espeto. No interior, improvisam-se bancadas feitas de palha e decoradas com mantas ribatejanas. Numa cadeira, há um volume do Principezinho esquecido e num barril de madeira, as bandeiras de Portugal e da Azinhaga esperam para ser hasteadas.

José Saramago chega com cerca de meia hora de atraso, já a rua em frente à Junta de Freguesia está cheia. “Vieram cinco autocarros”, comenta alguém. Trazem gente de Lisboa, idosos dos lares dos arredores, crianças das escolas. O escritor distribui cumprimentos e a banda toca a mesma melodia, tantas vezes quantas forem necessárias. “Não esperava tanta gente. Creio que a Azinhaga está toda aqui”, comenta o Nobel da Literatura no percurso a pé entre a Junta e a fábrica, mão dada à mulher, Pilar del Rio, “a fomentadora desta conspiração”, como a há-de apresentar daí a pouco. E o pavilhão que parecia enorme, enche. Parece pequeno para tanta gente. Gente da terra, de Lisboa, do Funchal, Madrid, Barcelona, Sevilha… E entre tanta gente de tantos sítios está Barbara Terseglav, a tradutora eslovena de Saramago.

Já o Presidente da Junta agradece aos conterrâneos o empenho, os coscorões, as broas… enquanto no placo se projectam slides de uma aldeia antiga, a das memórias do “neto de dois camponeses analfabetos, filho de uma mãe também analfabeta e de um pai que sabia juntar letras e contar”, como haveria de se apresentar; um escritor aos 54 anos que teve o primeiro grande sucesso aos 60, com o Memorial do Convento a mostrar que “os velhos também podem trabalhar”. Foi depois de Zeferino Coelho, da Caminho, lhe oferecer uma edição de A Toutinegra do Moinho, o primeiro livro que Saramago leu. Edição única, exemplar irrepetível. E a Alfaguara, a sua editora espanhola, surpreende-o com a edição em castelhano de As Pequenas Memórias, tradução que Pilar del Rio terminou 24 horas antes. E lá estava o quadro de Avelino, já com “ripinhas”.

Presentes em dia de anos. Oitenta e quatro. Uma troca. “Saramago devolve à sua terra em palavras belas e precisas o amor que recebeu aqui”, refere Zeferino Coelho. E ouvem-se essas palavras pelo barítono Jorge Vaz de Carvalho. São as do livro. As outras, de poemas, foram cantadas por João Afonso, Lurdes Guerra e Luís Pastor. Seguiram-se as que o escritor quis dizer. “Entre as boas surpresas que tenho tido na minha vida, talvez a principal tenha sido esta”, declarou num discurso que quis dirigido às crianças, mas que acabou na memória. “Sou avô, mas continuo o neto de Jerónimo e de Josefa”, disse. E disse ainda que “devia ter cultivado mais esta terra” antes de terminar a dizer: “Não vos digo adeus, digo-vos até à vista.”

Por Isabel Lucas 17 Novembro 2006
in Diário de Noticias

O guardanapo

Uma dobra e outra. Um vinco e nada. Havia o guardanapo vazio mas não havia angústia.
Isso era o bom do guardanapo de papel. Não foi feito para se encher de letras ou números, mas invariavelmente acabava por ficar preenchido por gatafunhos, projectos, contas, frases apanhadas em momentos de espera ou em boa companhia. Um cúmplice. O bom do guardanapo de papel era essa falta de compromisso e o estar mesmo ali à mão, ou melhor, mesmo ali à mesa e a mesa ser outra coisa boa.
Talvez por isso goste tanto de escrever e de ler em guardanapos de papel. As letras andam às voltas a aproveitar todo o espaço em branco para uma criatividade desprevenida. A escrita enterra-se, fofa, no papel. Ele amortece os erros e trava pressas.
Nada como um guardanapo branco para encher de azul. Acho que o azul fica ali melhor do que qualquer outra cor, talvez por me ter iniciado na escrita de guardanapos com uma caneta Bic azul. Ah!, E de escrita fina. Ali não há a vergonha de falhar. Força a mais e lá vai rasgão. Não faz mal. Bon-vivant, ele presta-se a experimentalismos e tanto guarda palavras como manchas de batom e de vinho e tudo sem censuras.
Não deve ser à toa o facto de tudo começar por aí, “guarda”. Também guarda lágrimas, mata borrões de esperas e de despedidas porque elas acontecem muito à mesa e depois guardam-se no bolso e levam-se para casa.

Eu devia estar a escrever estas coisas soltas num guardanapo de papel.

Não lembra a ninguém escrever em linho ou noutros tecidos menores. Esses lavam-se. O papel não, e ele atura bem o erro. Embora aí errar no papel do guardanapo. Errados ou errantes ou as duas coisas, o efeito é menos literário e mais visual e uma letra é como um desenho e um desenho passa a ter outra dimensão. Afunda-se num decalque e quantos decalques de declarações de amor de liceu em guardanapos perdidos lá por casa quando um a mesa de café era o sítio mais íntimo que se arranjava. Não estava lá nenhum “amo-te” mas era claro que aquele boneco com capacete e cara de poucos amigos com uma espingarda na mão só podia querer dizer isso. Senão para quê tanto trabalho empregue num guardanapo atirado à mesa, mesmo à mão de quem está em frente? E há pedaços de poemas e até cábulas. Ele guarda.
E tudo seria diferente se isto, esta página de jornal, fosse um guardanapo de papel. Agora talvez escrevesse: “Hoje morreu Jorge Semprún” e desenhava o nome do livro dele que li não como o de um activista político, mas como o de um grande romancista, escritor. “Vinte e um anos e um dia.” Punha lá isso como quem faz um registo. E seria para guardar esse guardanapo. Teria a data de hoje, claro. Oito de Junho de 2011. É sempre de fixar o dia em que morre um escritor que quase de certeza também escreveu coisas em guardanapos, ao descaso. Fosse eu de guardar frases na memória e agora guardaria uma dele no guardanapo para solenizar o momento.

Não sou e não se vai consultar livros para escrever em guardanapos. Ou bem que é espontâneo ou não é para guardanapos. Não tenho aqui nenhum guardanapo à mão, à mesa. Mas ao contrário de frases, guardo guardanapos na memória e há um que tem um boneco com capacete e cara de mau e o azul um pouco desbotado.