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Tantas histórias para contar

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Escolheu aquela livraria porque tinha mesas como as de café e se podia beber qualquer coisa além de água. E tinha de ser à tarde, mas não tão tarde que o seu fim de tarde, como todos os seus fins de tarde, estavam reservados para o Gambrinus, o sítio de há muito tempo onde se demorava nos cigarros, nas conversas, nas bebidas.

Chegou de casaco de bombazina cor de mel e aquele rosto sempre de sorriso desenhado de bonomia, mas era a voz que eu fixava atrás do olhar curioso, de cineasta, lembro-me de ter pensado. Ele pertencia áquele grupo de pessoas que me intimidava, à cabeça das quais eu colocava José Cardoso Pires. Acho que era a pose de uma sabedoria sincera, feita de experiência, de rua, onde entravam longas conversas, discussões, livros e um tipo de boémia que parecia estar em declínio. Íamos falar de livros. Gostos, manias, leituras, casas de venda e consulta de livros, viagens com livros, os de estima e aqueles que depois de muito tempo perderam a glória e se escondem em prateleiras cheias, atrás de outros. Quis saber de mim e eu com quase nada para dizer, enquanto brincava com um cigarro. Não recordo se se podia fumar ali. Foi há muito tempo e talvez sim porque acho que o vejo também de cigarro na boca a dizer poemas de cor. Voz rouca, lenta, um grandioso pano de fundo para as histórias que lhe saiam. Tantas. Grande contador de histórias, quem dera aos ecrãs que as pudesse filmar a todas.

Quando se levantou foi para procurar um livro. Não me disse qual e apareceu com um volume de poemas de W.H. Auden. Abriu numa página ao calhas e começou a ler aquele poeta que nunca mais esqueci e que conheci ali, de que aprendi a gostar ali. Quem bem que a poesia de Auden soava na voz de Fernando Lopes.
A conversa só acabou quando chegou a hora de ele ir até ao Rossio. Apanhamos o metro em Entrecampos e na carruagem as histórias continuaram a sair daqueles olhos risonhos.
Foi depois “Belarminho”, da adaptação de “Uma Abelha na Chuva”, de Carlos de Oliveira, e antes de “O Delfim”, aquele que eu elegeria o melhor filme de Fernando Lopes. Não sei se pelo facto de ser a adaptação de outro grande livro de José Cardoso Pires, se pela sugestão daquela conversa antes tida com o realizador.
Naquele dia ele saiu no Rossio, directo para o Gambrinus.

Voltámos a falar quando estreou “O Delfim”. Mas tínhamos antes falado dele. Em casa, quando fui falar com Maria João Seixas, a mulher. Ele segredou que já escolhera o elenco, que seria uma surpresa enorme. Pediu segredo. Guardei.

A última vez que o vi foi quando entrou no metro, na estação de Roma, a mais próxima de sua casa. Eu vinha a ler e ele sentou-se ao meu lado sem olhar para mim. Vinha de olho no jornal, com o mesmo casaco cor de mel, e seguia para o Rossio. Antes de sair, olhou para o lado e viu-me: “Tá boa?Então não me disse que estava aqui?” Tinha mais umas histórias para me contar, avisou.

Perdição


Era Abril em Nova Iorque.
Abri o livro na página em que ela, a Patty, foi violada e sentei-me num bendito lugar na carruagem do E, a linha que faz ligação para a Lexington Avenue. Tudo vai fresco na cabeça.
O biergarten onde no sábado comi umas salsichas alemãs dera lugar a um kindergarten e era ver as criancinhas a correr e a gatinhar por entres as mesas e as cadeiras. Elas e as educadoras olharam para mim, não com tanta curiosidade e surpresa quanto eu olhei para elas. Como era possível? Era.
A prova estava naquela menina de uns dois anos que ria e dizia adeus pela janela enquanto eu colava o nariz no vidro não fosse andar a ver coisas.
Entrei na livraria umas portas abaixo e perdi-me. Nos títulos, nas capas e quando olhei tinha uma braçada de livros, mais olhos que barriga, mas um pouco de bom-senso lá moderou a conta para números menos proibitivos. Gula.

Uma hora depois voltava à chuva miudinha e o kindergarten voltava a ser biergarten. Já passava das seis e o cheiro a talco ainda persistia quando pedi o lanche.
O caminho não era aquele. Foi um atalho que saiu longo e levou uns trocos da carteira. São as coisas de andar perdida numa cidade por querer perder-me numa cidade. Como eu, tantos.

Aquela mulher que parece saída de New Orleans veio contra mim e deixou cair as compras quando não tirava os olhos da página do jornal que noticiava mais um crime do serial killer de Nova Iorque que andava por ali. “I’m sorry.” Ia eu a caminho de me perder no metro por achar pouco razoáveis as indicações do mapa. “Não duvides, menina. Põe questões”, lembrava-me eu do tal padre David.
E talvez por tudo isto quando me sentei no ‘E’ e li as passagens que contavam a violação tudo me pareceu real. A ficção de Jonathan Franzen, o menino bonito das letras norte-americanas que a Europa não se cansa de mimar, era demasiado real e não descolei os olhos.
A cidade agora estava no livro. Naquele “Freedom” que pressupõe que todos são o que são porque escolheram ser assim, mas que não é bem assim porque todos são as suas circunstâncias e as suas hipocrisias e os seus medos. A inocência não se ganha, perde-se. E lembro o sorriso da menina e o cheiro a pó-de-talco, longe da preocupação da mulher que foge do serial killer e se esquece das compras e do resto. Porque é ali. Tudo é ali.
São flashes de realidade numa ficção que parece bem mais contida e não conta a conversa dos rapazes que por sua vez contam ao cameraman italiano a dança na rua e o dinheiro que levam para casa numa linguagem mais de rua do que a dança.

E o italiano filma o inusitado. Eles sentados ou meio deitados no chão. Ele, como eu, vinha no metro. Queria realidade a cheirar a ficção e ela andava ali à mão de semear. Invejei-o na sua missão. Também eu quis ter a minha. Uma desculpa para questionar, um pretexto, qualquer coisa que me fizesse sair do silêncio da banalidade e me desse uma função, uma identidade, me tirasse daquele limbo em que para tentar entender a realidade vou à ficção e não sei onde pertenço.
Nem que fosse só a perguntadora.. Mas aqui é fácil ser simplesmente a que passa, banal para ser questionada, interpelada, nem por alguém que quer saber para onde vai aquele metro, que afinal não era o ‘E’. Como eu não quis saber julgando que sabia. Eu e o silêncio que saía de mim. Por isso tudo o resto ecoava, como no vazio. E foi o eco que me trouxe uma voz: “What’re you reading?”, e alguém me olhava e ao livro e esperava um resposta, de mim. A realidade chamava-me à ficção. Olhei num sentido e noutro e apontei a ficção à realidade quando dobrei o livro para revelar a capa sem sair do meu silêncio.

Acreditam?

Como é que eu podia convencer o velhote a quem passei uma rasteira sem querer, como é óbvio, de que a rasteira foi sem querer, que por uma coincidência do demo saí da porta e pus o pé no passeio ao mesmo tempo em que ele ia a passar no passeio e ele caiu redondo no chão chamando-me mulher do caralho? Isso, assim, à lisboeta e em bom som para a vizinhança ouvir no eco da manhã das ruas estreitas. Como ia eu convencê-lo, a ele que estava ali, no chão e se negava a que eu o ajudasse a levantar, continuando deitado porque as forças lhe iam todas para a voz, para gritar um nome que nunca me tinham chamado. “O senhor está bem? Como lhe explicar? E já as vizinhas tomavam partido dele, às janelas; as que se abriram porque das outras, onde as cortinas apenas se arredaram, veio a acusação.
Melhor seguir, engolir a vergonha, o segundo embaraço de um dia que começara há pouco mais de uma hora hora. Antes, no metro, foi o pé que me escorregou ao descruzar as pernas e sai disparado indo embater na canela da passageira da frente que deu um tremendo ai. Sim, fui eu quem lhe pós a perna a sangrar, mas não foi de propósito, mesmo. Acreditam?