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inimigos íntimos

A edição espanhola da revista Esquire de Maio traz um especial a que chamou “inimigos íntimos”. Na capa está um Gabriel García Márquez jovem, de olho negro, resultado de um soco histórico que levou do seu amigo íntimo, o também escritor Mario Vargas Llosa. Os dois Nobel da Literatura eram inseparáveis até aquele dia, num cineclube da cidade do México. Recordei a história dessa zanga a propósito da edição comemorativa do livro “Cem Anos de Solidão”, em Janeiro de 2007, e agora recupero-a a propósito deste artigo onde a foto conta mais que as palavras. Outros inimizades íntimas ali recordadas: Ronald Reagan vs Mijaíl Gorbachov; Paul Simon vs Art Garfunkel; Fidel Castro vs Che Guevara; John McEnroe vs Bjorn Borg; Noel vs Liam Gallagher

Tão amigos que afinal eles não voltaram a ser

A história veio na edição de quarta-feira, dia 10, do jornal britânico The Guardian. Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa iriam estar juntos, num só livro – uma edição comemorativa dos 40 anos do romance Cem Anos de Solidão a sair no próximo mês de Março. O título falava em “sinais de degelo” numa “contenda” com três décadas. Era o anúncio do fim de uma zanga mítica que terminou com aquela que foi apelidada a mais famosa das amizades da literatura.
Segundo o jornal, o peruano Mario Vargas Llosa assinaria o prólogo de uma edição especial do mais famoso romance do colombiano Gabriel García Márquez. E citava um porta-voz da Real Academia Espanhola – entidade que irá publicar a edição – segundo o qual os dois escritores tinham chegado a acordo sobre o assunto. Um acordo alcançado apesar de ambos não se falarem desde o dia em que Llosa deu um soco a Márquez num cinema na cidade do México.
A introdução seria um excerto de História de um Deicídio, livro elogioso que Vargas Llosa escreveu em 1971 e que tinha por tema o seu então amigo. O mesmo que Llosa impediu de ser reeditado após a zanga, em 1976, e que se transformaria em raridade literária com preços a atingir os 500 euros. No ano passado, Llosa surpreendeu ao incluir o título nas suas obras completas (Alfaguara) e explicou as razões numa entrevista publicada na edição de 6/10 do suplemento 6ª(ver excerto na pág. 37).
A notícia desta suposta edição conjunta apanhou de surpresa Plínio Apuleyo de Mendonça, embaixador da Colômbia em Portugal, amigo pessoal dos dois escritores zangados e autor do livro O Aroma da Goiaba (uma conversa com García Márquez publicada em 2005 pela Dom Quixote). “Não pode ser, é impossível. Eu saberia disso se fosse verdade”, declarou ao DN o homem a quem Gabo – diminutivo pelo qual o autor de Cem Anos de Solidão é conhecido entre os mais próximos – chama de a sua “memória”. A novidade que Plínio Apuleyo tinha para revelar era outra. García Márquez acabava de lhe comunicar a decisão de avançar com a escrita do segundo volume de memórias Viver para Contá-la (o primeiro foi editado em 2002) para o qual conta com a colaboração do embaixador e amigo pessoal, por se tratar de um período da vida que ambos partilharam e que inclui precisamante o momento da zanga com Vargas Llosa.
O 2.º volume de memórias
A decisão foi tomada após alguma resistência do escritor, que chegou mesmo a ponderar não continuar as memórias. E especulou-se que um dos motivos era a necessidade de revelar as razões de uma zanga que permanece um mistério. Foi a 12 de Fevereiro de 1976. Num cinema na cidade do México, após a exibição de um filme que não ficaria para a História – Sobreviventes dos Andes, de René Cardona – Mario Vargas Llosa agrediu Gabriel García Márquez depois deste o tentar abraçar. As razões da agressão nunca foram divulgadas, nem pelo peruano nem pelo colombiano. Falou-se de motivos sentimentais, falou-se de divergências políticas que o futuro viria a vincar. O colombiano sempre se manteve próximo de Fidel Castro, enquanto Llosa seria alguns anos mais tarde candidato de direita à presidência do Peru. Os jornais publicaram a frase que acompanhou o soco, dita por Llosa: “Como te atreves a abraçar- -me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?”
Era o culminar de oito anos de tertúlias literárias, de partilha de ideias sobre o papel da literatura latino-americana, de viagens em conjunto, do projecto de escrever um romance a quatro mãos. Uma amizade tão forte que Márquez é padrinho do filho de Llosa.
Amigo de um e de outro, Plínio Apuleyo de Mendonza acompanhou o silêncio entre ambos durante os últimos 30 anos e estranhou, por isso, o inusitado fim da zanga. Após consultar a agente literária de García Márquez e de Vargas Llosa – que acontece ser a mesma – e de falar com o “amigo Gabo”, disse ao DN tratar-se da “invenção de um jornalista de Barcelona”.
A verdade da história é que a Real Academia Espanhola vai de facto editar uma edição comemorativa de Cem Anos de Solidão e um volume que reúne textos de vários escritores sobre o mais famoso dos livros de García Márquez. Entre eles está Mario Vargas Llosa. “Nada mais”, declarou o embaixador, que acrescentou ainda que “Gabo está a ser questionado por jornalistas de todo o mundo que querem saber o que se passa. Uma confusão. De tal maneira, que me confessou: ‘Estou tão irritado com isto que tenho vontade de falar com Llosa e fazer as pazes'”.
E o que pode haver de verdade nessa frase, dita, como afirmou Plinio Apuleyo , “em desespero”? O embaixador arrisca uma resposta: “Gabo gosta muito de brincar.”

artigo publicado no DN, a 12 de Janeiro de 2007

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A vertigem

Equilíbrio imperfeito, uma escorregadela e mãos ao chão.

Subia a montanha de olhos no céu como não recomendam as regras de um bom caminhante. A cada passo uma viagem, as que fiz e não contei. Momentos como postais, flashes de fotografias na memória e a esperança e um dia saber passar a mesma emoção a alguém. Sempre a adiar. Talvez um dia consigas a conjugação certa para dizer que o abismo é a única coisa que me segura. Ou então como explicar aquele grito que grito sai mudo? A hora era do êxtase das cores. O amarelo nunca foi tão bem definido, nem o verde tão incandescente e lá estavam todos os seres nunca vistos a passavam por baixo sem que eu lhes fizesse sombra. Eu deitada no maior aquário do mundo. O oxigénio a entrar nos pulmões, mas a respiração a atrofiar diante daquele sem fim, sem fundo, sobre o que segurava o meu corpo indiferente às gotas de uma chuvada tropical. Calor e um arrepio.

É o paraíso, convencia-me. México e um dos maiores recifes do mundo e eu nele. Qual quê? Maior que tudo era vertigem e as cores que se misturavam num turbilhão fluorescente, espiral com uma só saída.

Barco à vista, mãos no ar. Que me salvem senão eu vou-me… Onde? Ao fundo? Claro. Pra quê falar dessa humilhação de ficar três horas num barco à espera que os outros se divertissem naquele sem fundo, que o experimentassem descendo mais? Nada para contar a não ser o medo e a conversa presa com o aventureiro que levava turistas ao mar sem saber do medo do abismo. Um suíço que conhecia os Açores ao lado de um mexicano que queria lá saber. Que o acordassem quando tudo acabasse. Claro ombre! Era igual aos que vi passearem-se com metralhadoras em Guanajuato, cidade na rota da prata, onde universitários e descendentes de mineiros partilhavam a mesma música em ruas garridas, como no mar, mais a sul.

Porque é que me veio agora o México? Logo quando escorreguei a subir uma montanha na humidade do Outono na Madeira, talvez meses, talvez anos depois.

Foi outra vertigem, eu no fundo, a olhar o céu e a tontura de tanto azul. Talvez seja assim com as viagens, umas nas outras, coladas por sensações como selos com cuspo em postais ilustrados. Andam pelas gavetas.

Será por isso que parece que conheço o Chile onde nunca estive? Uma vez deram-me uma igreja em barro, branca e azul, e parece que vejo as mãos que a esculpiram. A ilusão. Fui ao Chile naquela igreja que me trouxeram de lá. Fui a Buenos Aires com Borges. E depois? Entrei numa ermida nos Açores de olhos molhados e nunca mais de lá saí. Nem nos Capelinhos. Aí fui à lua, mas foi trágico o arrepio. Não sei bem por onde andei.

Vou andado, olhando arranha-céus de Tóquio e Nova Iorque, parando na tasca para comida gordurosa. Gosto de apanhar aviões, mas uma carroça também serve.

Tomo notas de emoções em contas de restaurantes, bilhetes de eléctrico. Depois perco-as. Talvez um dia aprenda como se faz isto de contar lugares.