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O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

Escuto Nocturno

As pedras estão molhadas pela cacimba de uma noite quente. Há um candeeiro a projectar sombras, a sublinhar um efeito de água que é pouco mais do que o brilho do alcatrão da estrada. O silêncio tomou conta da cidade, mesmo quando já é dia. Sassetti morreu. Não é fácil repetir a frase até a assimilar, tomar-lhe o sentido brutal. Ouço “Nocturno” apesar do sol, do bafo quente quando abro a janela. Penso no riso dele, nos olhos dele quando fixavam o piano e o piano era tudo, ainda nas mãos dele ontem, quando ouvi dizer que morreu sem ouvir no ecrã da televisão de um restaurante. Havia demasiado barulho, mas a notícia estava escrita no telejornal. Bernardo Sassetti morreu aos 41 anos. Li aquilo enquanto lhe via as mãos, adivinhando um som.

A morte enquanto impossibilidade e logo real. O embate. E a música dele que tantas vezes me acompanhou lágrimas, sorrisos. Que levei, que guardo. E as palavras, as primeiras que lhe ouvi já lá vão anos numa entrevista de rádio. As palavras depois do nome, depois da música.

Anos depois tomámos café numa casa de chá ao Carmo. Ouvi-lhe projectos com o entusiasmo dos inquietos, os que querem sempre fazer e para os quais a vida nunca tem tamanho que chegue. Nem que vivesse cem anos Sassetti conseguiria fazer tudo. Viveu 41. E é impossível não escutar no silêncio da sua música genial toda a possibilidade do génio que não chegou a acontecer por falta de tempo. E foi tanto o que aconteceu.

Escuto Nocturno enquanto o sol entra pela casa.

A prazo

Não é preciso olhar para os ponteiros para saber que se consegue.

Talvez no início. E quanto mais se olhava maior o stress, tempo perdido sem saber dessa perda. Depois vem o hábito, a rotina. Sim, a perfeição é o limite determinado pelo prazo. É uma lição de humildade. Saber que é provável o erro, a falha, a gralha. Tudo porque, depressa e bem… Não somos máquinas, temos dias, horas e um minuto pode deitar tudo a perder, matar o resto, que foi tanto e acabou em nada. Dói. Tanta angústia ao deitar sem saber como vai sair a página amanhã. E sempre mais um telefonema, mais uma declaração, a tentativa de apanhar o que ninguém apanhou, e mais uma penteadela ao texto, uma corrida, uma demora a escutar quem não sabe desta pressa, da urgência.

Dead-line, linha da morte. Em português tem outro peso. É ir, esquecer o tempo e saber que na vertigem se é capaz. Afinal, nunca saiu uma página em branco, ouvimos dos mais velhos, repetimos aos mais novos. Nunca. Comprimido que acalma. Isso ou: “esse texto é para o Pulitzer?” que acaba com a pretensão. Uma vida a obedecer a um relógio sem o ver. Prazos a cumprir nem que isso custe o sono, o almoço, uma sandes ao jantar, a família que não se vê. E tudo porque… às vezes nem se sabe bem. Porque se gosta da adrenalina, da história, de a contar, de fazer chegar aos outros algo que temos a pretensão que seja importante para eles. Se é para nós… E continuamos, às vezes robots, às vezes demasiado gente com lágrimas que tentamos esconder.

Olheiras, sorrisos, acontece um êxtase. Pode ser apenas por uma missão cumprida. Fechar uma página, fechar 40. Escrever a breve das nossas vidas. Ir a todas, ou ser capaz de ir. Na vida, na morte, o livro, a música, na rua, com os pobres e os ricos e os outros todos em quase todos os lugares. Ver rir, ouvir o choro, provar o bom, saber do amargo. Viver e contar. Uma vida a trabalhar para um prazo, há quem diga que é uma missão. Às vezes queremos acreditar que sim, mas há sempre quem nos tente, como a Judas. E quem nos tire o relógio, e então, mesmo sem olhar para ele há tanto tempo, é como se faltasse tudo e o que era o sonho do alívio do tempo, de não haver a linha da morte, acaba num desasar.

Com todo o tempo, sem prazo, a quem  culpar pelo erro, pela gralha e pela angústia que ela dá? Sem cruzar os braços, sou uma espécie de Bartleby, “preferia não” e a grande dúvida volta nessa passagem do rápido ao longo. Não pior, não melhor. Outro ritmo. Serei capaz de esquecer que não há relógio e uma hora pode durar um ano?

O tempo e um rebuçado de mentol

“Sabes, uma vez passei três dias em cima de uma árvore e a boca sabia-me a sangue.”

Ele não tinha ideia de quantas vezes já me contara aquela história. Nem eu. Os anos passavam e escutava-a como se fosse nova. Falava e não desviava os olhos da televisão, mas duvido que soubesse quem marcara o golo pelo Sporting. Festejou, claro, mas essa alegria merecia castigo. Ele não podia ter a futilidade dos que vibram com a bola. Não ele que sabia o que era ter a boca a saber a sangue. Não pela fome, mas pela sede. Estar num equilíbrio difícil, silencioso, agarrado a uma arma como à vida, se se poder deixar vencer pelo sono, estômago dormente com falta de comida, força nos limites mínimos, concentração a raiar a loucura … “mas se tu soubesses o que é não ter água para beber… Morre-se mais depressa de sede do que de fome.”

Lá estava ele e uma das primeiras verdades que me ensinou quando eu ainda não tinha idade para perceber o que era morrer, quanto mais morrer de sede. Nem ele, quando estava em cima da árvore, uns vinte anos e a levarem-no de casa para o mato, quase uma criança na sua ingenuidade rural. Era assim que falava: do mato.

E era Natal por esses dias, mas nem a lembrança das filhoses da mãe, do perú que ele aprendera a embebedar antes de ser caçado para o forno. Se ao menos pudesse ele, ali em cima daquela árvore, embebedar-se com o whisky de quinta categoria que lhe ia chegando sempre, contrabandeado, para esquecer a sede e o amargo de boca. Quantas vezes despejara garrafas só para esquecer onde estava, o que fazia? Mas era com água que sonhava. Podia vir em latrinas sujas, podia vir dos rios infectados com doenças de que ele mesmo antes de saber o nome já perdera o medo. Medo de quê quando pode vir um tiro de qualquer lado e acabar com tudo? Ele não tinha medo mas precisava de whisky. Afinal não ter medo pode ser assustador e agora o que precisava era de água porque um soldado não pode simplesmente acabar caído de uma árvore que nem um tordo. Também nunca quis tanto uma caneta e aquele bloco de folhas de carta. Não há melhor maneira de escrever sobre uma alucinação a não ser no momento em que ela está ali a alucinar. Sabia que não iria esquecer aquela sede enquanto fosse vivo, mas tudo o que contasse ou lembrasse depois seria pouco diante daquela presença.

E talvez por isso contasse tanto, logo que desceu da árvore, não fosse aquela memória diluir-se. Há coisas que matam que não queremos matar.

Contraditório? Seja, mas é assim. E lá estava ele, tantos anos depois, comando da televisão na mão, pés cruzados no conforto do sofá, a não deixar apagar. E sempre a mesma interlocutora. Ela havia de reter essa guerra onde ele ainda vivia, apesar das rugas que vieram, dos cabelos que foram, do álcool que se acumulou e quase lhe tirou o fígado, apesar do medo que voltou porque o mato estava longe e já não havia tiros, mas a vida escoava, rotineira, sem história. O medo da sem-aventura é o pior por não ter razão de ser.

É o medo dos poucochinhos, esse lume brando em que só um cancro pode aparecer como grande papão. E apareceu e a guerra perdeu valor. Por isso lamenta-se: se ao menos pudesse ter escrito essa sede nas mesmas folhas que usava para mentir para casa sobre uma guerra que ele ficcionava e onde tudo corria bem e a boca não amargava. É que agora, depois do cancro, isso não tinha a mesma importância. Daí a repetição. Era preciso repetir para fixar. Tinha o comando na mão, mas mudou de canal e calou-se. Hão-de vir outros golos a pedir lágrimas para o ilibar da alegria e desviá-lo do facto desses dias de sede estarem a perder importância na sua biografia. Mesmo que ele não queira, mesmo que o passar do tempo se assemelhe a um rebuçado de mentol a matar maus hálitos.

Grossman depois da morte de Uri

Descobri-o com “Ver: Amor”, romance magnífico, onde um menino, Momik,  filho de judeus sobreviventes à II Guerra Mundial, tenta perceber o que viveram os seus familiares através das conversas que ouve, dos silêncios mais ou menos pesados que escuta, das coisas nunca ditas. Estamos na década de 50 e ele vai construindo a sua identidade num mundo cheio de contradições. Lembro que comecei esse livro num dia de Agosto e acho que a partir daí apanhei tudo que pude desse escritor grande chamado David Grossman. Quando escrevia o sétimo romance, este israelita que, a par de Amos Oz, por exemplo, é um dos grandes biógrafos do seu país através das ficções, recebeu a mais atroz das notícias: o seu filho, o soldado Uri, morrera em combate. A “Lire” de Setembro entrevistou o escritor na sua casa de Mevasserat Zion, Jerusalém, a propósito da edição deste romance em França. Nela, Grossman confessa que fez algumas alterações à história que aqui conta, também ela dolorosa, também ela de vida e morte.”…j’ai continué à écrire pendant un an et demi après ce qui se passé. Et à chaque foi que j’écris une nouvelle version – j’en écris une nouvelle version — e change, je change. Il ne s’agit pas de copier/coller sur le ordinateur. Je réécris entièrement. Chaque mot. J’y gagne la sensation de comprendre soudainement chaque scène ou chaque personnage sous un nouvel angle…” Quem conhece a escrita de Grossman, a sua atenção a todos os aspectos humanos, sabe que não podia ser diferente. O livro chama-se “A Mulher que Foge”, já está disponível em português desde 2009… no Brasil, pela Companhia das Letras. Quem já teve o privilégio de o ler entende bem esta conversa onde o escritor fala da escrita como salvação da própria vida. Quem ainda não leu o livro, que comece já agora pela entrevista.

“Até agora nunca escrevi nenhum livro mau…”

Começando pela ideia, que é por onde tudo começa nos seus livros…
Sim, como a história que se conta do Newton, quando lhe caiu uma maçã na cabeça nasceu a Lei da Gravitação Universal. De cada vez que acabo um livro fico simplesmente esperando que aconteça outra ideia… Podem passar-se semanas, mas também meses. Tenho tido sorte. As ideias têm aparecido quando são necessárias. Acabo um livro e não tenho qualquer ideia para outro. Espero-a.

Essa espera angustia-o?
Não. Claro que a preocupação está cá, mas não a alimento. Talvez porque me tenha habituado a que, mais tarde ou mais cedo, chegue uma nova ideia. Um dia destes tenho uma desilusão tremenda.

E qual é a história da ideia que está na origem do livro suspender a morte?
Eu estava a ler um livro de Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Lauridis Brigge, e há um momento em que ele fala da morte de uma pessoa. São páginas extraordinárias! Foi então que me ocorreu a tal ideia. Mas não foi “E se a morte deixasse de matar?” A ideia inicial era outra: “E se a morte não conseguisse matar uma certa pessoa?” Essa acabou por ser deslocada para o final. O embrião é, afinal, o fim.

Nesta história, encetou um discurso irónico, que em si é novo.
Sim. Quando se fala de um livro sobre a morte, parte-se da ideia de que vai ser um livro sério. Era uma opção, escrever um livro tenebroso. A outra é dizer não vale a pena dramatizar o que já de si é dramático, então vamos imaginar uma situação em que, falando-se da morte, no fundo do que se tratará é da vida. A morte não existe fora de nós.

Rainer Maria Rilke forneceu-lhe a ideia e Proust deu-lhe o título?
Habituei-me a escrever já com um título e chamei-lhe O Sorriso da Morte, apesar de não gostar, consciente de que se tratava de algo provisório e também pela ironia que sabia que iria usar. E, porque o que a morte me diz é intermitente, mais tarde recordei que Proust, em La Recherche…, fala das intermitências do amor. Que o amor seja intermitente parece que é uma experiência de todos nós. Agora que a morte o seja… Porque gastamos tanto tempo a perguntar o que há além da vida? Se nos interrogássemos sobre o que realmente se está a passar aqui na vida, no tempo que nos calhou.

É a grande questão?
Sim. É disso que se fala. No livro, o primeiro-ministro põe essa questão se isto continua assim como é que vamos pagar as pensões.

Essa é apenas uma das muitas questões concretas que se colocam quando a morte deixa de matar. Nesse exercício, quase ensaístico, fala dos “pantanosos terrenos da realpolitik”.
A expressão é aplicada no sentido do pragmatismo absoluto, excluindo questões de princípios e atendendo apenas ao que convém a cada momento. Portanto, subindo e descendo, oscilando, segundo a maré. Mas pode ser entendido de maneira extrema, como é o caso. Para cumprir determinado fim, o Estado não hesita em fazer um acordo com a “máphia” com ph, mas não deixa de ser máfia por isso.

É a morte a jogar o seu jogo, o que por sua vez justifica um jogo de palavras?
É. Escrever “máphia” com ph deu–me um certo gozo. É um anacronismo. Não sei como é que as traduções vão resolver a questão. Provavelmente não podem. Por exemplo, em alemão os substantivos escrevem-se com letras maiúsculas. Eu andei a pôr os nomes das pessoas com minúsculas, tudo minúsculo. Para manterem essa lógica, teriam de transgredir as suas próprias regras. Não creio que o tradutor esteja disposto a isso porque não seria compreendido, mesmo que explicasse que seguia o original. Nem sei se a questão de traduzir o título para alemão já está resolvida.

Então?
Eles usam a expressão “luz intermitente”, mas não têm uma forma para dizer As Intermitências da Morte. Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos…

Os tais jogos que lhe deram prazer jogar neste livro?
Deram. Foi um livro escrito com alegria. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria… É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe “Estou a brincar contigo.”
A ironia com que trata a morte é a mesma que usa para retratar a velhice, mas aí há mais de amargura. A velhice inquieta-o?
Bom, eu sou um velho. Mesmo com a esperança de vida de cem anos, e estamos muito longe disso, eu sou um velho.

Acha que o olham como um velho?
Não só as pessoas não me olham como um velho como eu não me sinto velho. Mas tenho a lucidez suficiente para ver que, com 83 anos, sou realmente um velho. Um velho que se mantém bem e que trabalha. Isso dá-me a impressão falsa de que nada do que escrevi sobre a velhice tem que ver comigo.

É distância da velhice do outro tal como a morte é a morte do outro…
Sim, a morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. É como se eu, por não me sentir velho, não o fosse e pensar que nada do que vem de negativo com a velhice me pudesse tocar. É uma estupidez minha, porque chegará o momento em que tudo isso me tocará. Às vezes solto uma frase um pouco pretensiosa. Quando me perguntam como me sinto, digo “Quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical.” Aplicado ao meu caso isto é certo, mas dizer quanto mais velho mais livre é absurdo, porque a velhice diminui, retira, anula e, com tudo isto, tira liberdade. A não ser que tomemos aqui a velhice, como se costuma dizer, como um sinal de sabedoria. Aí, é como se eu me fosse tornando mais sábio e consequentemente mais livre devido a essa sabedoria, e não pela velhice. E quanto mais livre mais radical. Isso sim, gosto de ser.

Na que se pode considerar a segunda parte do livro, a morte passa a avisar quando vem, escrevendo uma carta.
É uma partida diabólica. Mas a morte fez isso com boa intenção. Ela achou que era uma brutalidade fazer com que as pessoas morressem quando estavam com saúde e felizes e que o melhor seria avisar. Acaba por reconhecer que se equivocou uma vez mais. Primeiro, quando renunciou a matar. Depois, quando pretendeu remendar a situação e dizer “Vou regressar, e para que não me acusem de abusadora passarei a avisar.” É pior a emenda, porque essas pessoas passam a estar no corredor da morte.

Faz, depois, um exercício onde tenta esgotar as várias possibilidades de reagir ao comunicado mortal.
Sim. Tudo pode acontecer reconciliar-se com o irmão com quem cortou relações, fazer testamentos, pagar impostos em dívida, ou dedicar os últimos dias a uma orgia de álcool e sexo.

Como acha que reagiria ao ser o destinatário de uma tal missiva?
Não sei. Álcool não, porque nunca fui dado a isso e não veria aí satisfação. No sexo sim, enquanto me fosse possível. Acho que o sexo é a única coisa verdadeiramente possível, ou melhor, é a única coisa que verdadeiramente não é impossível. Uma relação sexual pode existir em qualquer momento ou em qualquer idade, nem que não se concretize pela penetração física de um corpo no outro. O sexo não se limita a isso. Iria tentar viver esses dias em paz, procurar aquilo a que chamamos paz interior, que não seria nunca resignação. Seria a aceitação do facto. E tendo por companhia a minha mulher. Oito dias para se despedir são oito vezes em que o Sol nasce e em que o Sol se põe, oito dias para viver com as pessoas, olhar as árvores, respirar o ar. É uma eternidade, um tempo acrescentado à vida.

Um pouco como acontece com o violoncelista?
Sim, que já devia estar morto e não sabia. Estava vivo num tempo que, em princípio, não lhe pertencia. Mas quando a morte diz “Você morre daqui a oito dias, no fundo já o está a matar nesse momento.” Aí, é o princípio da morte.

Acha que o fim da morte é o fim da ideia de Deus?
Creio que sim. Seria horrível se fôssemos imortais nesta vida. O tempo não pára e estaríamos condenados a uma velhice eterna que é a pior coisa que poderia suceder. Com a morte, prometem-nos a vida eterna numa outra vida e a Igreja, nesse caso, diz-nos que ficaremos a contemplar a face do Senhor. Parece-me que ficar a contemplar a face do Senhor para toda a eternidade é um bocado forte.

Até porque não acredita no Senhor…
No Senhor, como Deus, realmente não acredito. Em mim, tudo rejeita sequer a possibilidade dialéctica ou retórica da existência de um Deus porque eu não saberia onde colocá-lo. Há uma pergunta que parece que não é costume fazer-se mas que deve ser feita e para que é que Deus haveria de querer criar um universo? Qual era o objectivo de Deus criando o universo tal como ele é? É uma questão inicial.

No livro, porque escolheu a Suite n.º 6 de Bach para despedida?
Porque gosto e porque são suites para violoncelo solo. Quando era muito mais novo, comecei a estudar música na Academia dos Amadores de Música com a ideia de vir a tocar violoncelo. Nunca lhe pus as mãos em cima, mas sempre me ficou essa vontade por se tratar de um instrumento cujo som mais se aproxima da voz humana. (Pausa). No princípio do último andamento da Nona Sinfonia, de Beethoven, há um momento com os violoncelos e com os contrabaixos… (trauteia) É lindo! Isto é falar. Aqueles instrumentos falam. Suponho que foi a primeira vez na história da música que um instrumento falou. Como se fosse uma voz humana a articular as palavras do Schiller.

Em Julho de 1997 escrevia num dos Cadernos de Lanzarote “Zeferino Coelho [editor] gostou de Todos os Nomes. Ainda não foi desta vez que o editor torceu o nariz… Mas não tenho ilusões, o dia chegará. Chega sempre.” Já chegou? Essa possibilidade angustia-o?
Sou muito consciente de que até agora não escrevi nenhum livro de que se possa dizer é mau. Mas isso pode suceder um dia e, o pior de tudo, sem que eu tenha a consciência de ter escrito um livro mau. Seria o pior que me podia suceder. Como tenho uma leitora em casa, que também é minha tradutora e, além disso, é minha mulher, espero que, se tal acontecer, ela me diga: “Este não é para publicar.” Se ela ceder, por amor, espero que seja o editor a dizer não.

Por Isabel Lucas 09 Novembro 2005
in Diário de Noticias

De pantufas, na rua Basílio Teles

Vinha de casaco de tricô beige. Um casaco sem tempo, de lã grossa com borbotos. Não lhe chegava aos joelhos. Abotoava à frente, com botões de madeira, e tinha dois bolsos, um de cada lado, naquela malha que imita ondas como as do mar que gostava que o levassem a ver. Era nesses bolsos que às vezes punha as mãos enquanto andava com passos miúdos. Sem pressa e silencioso. “Tenho um pé que já deu a volta ao mundo”, escreveu ele em “Autografia”, poema que haveria de ser nome de filme biográfico. E deu a volta ao mundo porque o mundo era ele, diria também. E ninguém diria ao vê-lo assim, num tempo em que já não escrevia, com as pantufas que não chegava a descalçar para ir almoçar ali, naquele restaurante onde agora entrava, como entrou em tantos outros dias antes. Gestos repetidos de um quotidiano em que sair de casa de roupão era o pouco que lhe restava para provocar, ele, a quem Luís Pacheco – outro surrealista — chamou um dos “surreal lisboeto”, “malta de cafés e outros estabelecimentos, com vidas mais ou menos precárias, histórias psiquiátricas e uma predilecção por álcoois”, como recordava Pedro Mexia, num suplemento “DNA”, de Abril de 2004. Para ele, agora, era só descer as escadas, virar à esquerda no passeio estreito de uma rua sem história de Lisboa e entrar na porta ao lado.

Já não escrevia versos em 2002, mas pintava e “a pintura foi outra maneira de andar”, disse ele um dia, nesse mesmo ano, quando lhe atribuíram o Grande Prémio EDP, distinção para a sua obra plástica. 
Andava e às vezes não ia com o casaco beige. Levava antes um roupão cinzento, de quadrados. Era quando estava mais frio. Mas mantinha as mãos nos bolsos que só tirava para ajeitar a boquilha onde o cigarro queimava. Entrava e havia cabeças que se viravam para o ver entrar, sem a companhia “de gente altamente suspeita”, como acontecia quando o viam na noite, quando frequentava a noite. Isso anotou ele noutro poema. Agora entrava, esperava que lhe indicassem uma mesa e sentava-se. Levava a irmã, Henriette, com quem vivia, a mesma que em “Autografia” — o documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreado em 2004 — se definiu como uma “antiartista” e irmã “de um santo irmão”.

Era Henriette, a mais velha das três irmãs, ou então um amigo, quase sempre o mesmo, alguém com um rosto em que ninguém se fixava porque os olhares só perseguiam aquela cabeça branca com queixo adunco, riso escarninho desenhado na boca e contagiando os olhos; riso sarcástico de um sarcasmo que se recusava a envelhecer, apesar do corpo cada vez mais curvado, frágil. A maior parte das vezes calado outras soltando um cumprimento efusivo, dizendo palavras que sublinhava com gestos exagerados. Cesariny no seu teatro, “performer nato” segundo quem o conheceu de perto a dizer palavras. “Palavras que nos sobem ilegíveis à boca / palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever / por não termos connosco cordas de violinos / nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar…” (in “You are Welcome to Elsinore”).

E as palavras, o “dever de falar”, dependiam da assistência. Porque vê-lo entrar era uma espécie de happening, um acontecimento, uma liturgia. Mário Cesariny de Vasconcelos, o poeta, o pintor, numa rua sem história, num restaurante fora de roteiros, a comer, de pantufas e roupão, mesmo por baixo da casa que lhe deram para viver, em Lisboa, mas longe da Lisboa que sempre transportou para a sua poesia. A dos bares do Cais do Sodré, das tertúlias, dos cafés Gelo e do Royal num tempo salazarista que o perseguiu pela sua homossexualidade. Ele estava ali, na Rua Basílio Teles, rua sem história, mas onde ele encontrou estórias para um poema. A rua da casa, a rua do restaurante para onde ia de pantufas e roupão. E para que menu? A ver pelo cardápio, dos que se guardam em vidro com fechadura, do lado de fora da porta, decerto diferente daquele que Cesariny descreveu em “Homenagem a Cesário Verde” e publicou no livro Pena Capital (Assírio & Alvim): “Depois do bolo-rei comeram-se sardinhas / com as sardinhas um pouco de goiabada / e depois do pudim, para um último cigarro / um feijão branco em sangue e rolas cozidas.” Ali, nada disso. No máximo uma lampreia vinda do rio Minho e feita por encomenda, uns joaquinzinhos com arroz de tomate e sardinhas, mas sem goiabada…

O incomodo Ryan

Ryan estava só no meio da feira mediática.

Eram mais as antenas satélite do que os manifestantes, os turistas, os curiosos, os passantes. Tarde do dia 2 de Maio de 2011 em Nova Iorque. Horas depois de Obama ter anunciado a morte de Osama, era preciso tornar universal aquela catarse de dez anos, o trauma após o acontecimento que mudou o mundo quando o mundo ainda não sabe o quanto mudou.

Ryan, o solitário, empunhava um cartaz onde a mensagem valia mais do que o meio, contradizendo a teoria comunicacional de McLuhan. Ryan, estava do outro lado dos manifestantes, rapazes e raparigas, universitários como ele que ao contrário dele festejaram o cadáver, metáfora do terror.  Ele viu e não gostou do que viu, daquelas festas da morte que lhe soaram como tribais. Era suposto que a civilização fosse outra coisas e foi isso que quis dizer naquele lugar de romaria de emoções em que se transformara o ground zero.

Apenas uma caneta azul e uma vermelha em fundo de cartão branco para dizer também ao mundo, através das câmaras, dos flashes, que não era bonita aquela celebração, nem aquela em a de nenhuma morte de qualquer ser humano. Duas frases que muitos leram como uma provocação. Duas frases que, quem quisesse mais explicações. Ryan estava lá para isso e sabia dos riscos. Franzino, imberbe, rosto ossudo, olhos que se recusavam a baixar, ele, o estudante de jazz de 20 anos, estava ali para que a sua voz temperasse os ânimos.

E eles iam altos. “Sai daqui. Hoje não é o momento para isso”, dizia-lhe em surdina um homem que o via de cima e tinha medo que o mundo visse o que não devia e segundo ele não devia ver Ryan. E Ryan não se moveu a não ser no olhar. Atrás dele, primeiras páginas de jornais. “Got him!”, lia-se. E havia quem fingisse que não via o que achava que o mundo não devia ver, mas que Ryan queria que visse. E se no princípio era apenas Ryan e o seu cartaz, agora era uma bolha que ia engrossando. Quem passava parava. Os indignados e os intrigados. Curiosos à volta de Ryan, o miúdo magro, de olheiras e dor de cabeça confessa, articulava agora com um homem de pasta, executivo da city, que lhe perguntava se ele não tinha vergonha.

– Claro que não.
– Então devias.
– Então porquê?
– Porque não sabes do que falas, seu fedelho. Quem eras tu no dia 11 de Setembro de 2001? Quantas pessoas perdeste aqui? Que memória tens dessa data? Não viveste isso; devias ir para casa.

E o “go home” ecoava e Ryan defendia-se como podia da retórica, até perder a cabeça e levantar o tom. Foi quando homem da pasta da city lhe disse que ele não tinha o direito de estar ali porque não tinha estado ali no dia 11 de Setembro de 2011, o tal dia que mudou a América e o mundo.

Sir, onde estava no holocausto?

E o homem da pasta que vinha da city passou-se e veio um polícia e o polícia disse a Ryan que ele não podia estar ali. Que impedia a passagem. E entre todos os que se manifestavam, mesmo no silêncio, Ryan foi o único que teve de mudar de sítio.

Ele, o rapaz que acreditava na liberdade e que a desafiava quando os outros lhe diziam que não era o lugar nem o dia. E ele perguntava-se se a liberdade tinha dia e hora no país que lhe ensinaram ser o da liberdade. O seu. E agora as câmaras já o seguiam. Ele era o provocador de ânimos num dia de comunhão de ânimos. E irritava-se contra Obama, o homem que quis ver na Casa Branca, por ser um caçador de homens que exibe o troféu que Bush sempre quis oferecer.  “Não se trata de festa. Trata-se de morte, seja de quem for. “Devemos, nós, os civilizados celebrar a morte e mostrá-la ao mundo?”

Ryan queria respostas. Saiu dali com muitas mais perguntas.

Reacções possíveis à morte de Bin Laden

“A presente operação é resultado dos esforços persistentes dos Estados Unidos da América, do povo norte-americano e, em particular, da Administração de Vossa Excelência, na perseguição aos responsáveis por aqueles atentados e constituem um sinal da determinação de todos quantos acreditam na construção de um mundo assente nos valores do diálogo e da tolerância entre povos e culturas.”

Depois de ler, com algum atraso, a reacção do Presidente da República à morte de Bin Laden, aqui ficam outras sugestões de possíveis reacções não menos originais.

– Não somos nada.

– O Bin Laden morreu?!

– Todos temos um fim.

– Next!

– Parece que foi ontem que apareceu…

– E como ficou o Benfica ?

– Estava a pedi-las.

– Quem vai à guerra…

– Deus o tenha.

– Pelo menos não sofreu.

– É o que nos espera.

– Nãaaaa

– Rapaz tão novo! O pior é a mulher e os filhos…

– De quê?

– Morreu nada!

– Não faz cá falta nenhuma.

– O pior é para quem cá fica.

– E agora ?

– Vou para casa.

A vida e a morte de um livro

O fim de um livro não é o momento que sucede a última palavra. Quando será, então?
Na Biblioteca Nacional, quando um livro deixa de ir à leitura é acondicionado numa caixa de cartão, espécie de urna sagrada,
e colocado no lugar que sempre ocupou na estante. Continua a partilhar a existência ao lado dos livros vivos e a ser o guardião de todas as vozes que o habitaram.

“Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-los nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os livros em si nada significam. Essa opinião, como veremos, não é totalmente falaciosa.”

Jorge Luís Borges, in «Biblioteca de Babel»

Joaquina olha a sua mão aberta através da transparência da água.
Faz pressão sobre a folha de papel e, vistos entre os dedos, os caracteres perdem o sentido que lhes conferiu a combinação atribuída pelo escritor. São sinais a ser pressionados para que o papel que os suporta fique limpo das marcas nocivas deixadas pelo tempo e pelo manuseio. Um tempo que sai numa nuvem amarela que tinge a água do recipiente branco à medida que a mão passa pelo papel num movimento preciso, firme. É um livro a ser lavado.

Não há lombada, capa, cor que o identifique, como quando ocupava o seu lugar entre os 30 quilómetros de prateleiras já preenchidas do Depósito da Biblioteca Nacional.
Cinco quilómetros mais do que há 20 anos, quando Luísa Cabral, directora do Depósito Legal e dos serviços de preservação, começou ali a trabalhar. Nessas prateleiras sim, os livros revelam-se pelos títulos, autores, tamanhos.
É a primeira revelação, a forma a lançar pistas sobre um conteúdo que Teresa tenta descobrir, abrindo uma página, ao calhas, no caminho que vai entre o pedido de um leitor até à sua satisfação.
São 24 anos a percorrer cerca de cinco quilómetros por dia à cata de livros. O ritmo, mais ou menos acelerado, é imposto pela maior ou menor afluência de pessoas à sala de leitura. Nunca conheceu o que é estar do outro lado, deixar os olhos demorarem-se nas frases, passar as páginas uma a uma sem a pressa de quem está a cometer uma espécie de pecado, intrometendo-se numa leitura que outro escolheu. Dizia alguém que não é crime roubar um livro. Muito menor será, então, a culpa voyeurista de Teresa. «Quando tenho tempo folheio. Deixa cá ver o que é que este leitor vai ler… Gosto de perceber porque é que escolhe um livro e não outro.» Sim, porque a escolha é feita de exclusões, por mais que doa a Teresa que, entre todas aquelas prateleiras que compõem o 3º piso da torre, dedicado à Literatura, também tem as suas estimações.
Joaquina, Luísa e Teresa são apenas três personagens nos bastidores de milhões de livros. Rostos que não chegaram aos cerca de 334 mil leitores que, em 2004, requisitaram 177 mil volumes nas salas de leitura da Biblioteca Nacional (BN).

A grande invasão

O conceito de obra inútil não faz parte da gramática de quem trabalha neste edifício do Campo Grande, projecto arquitectónico de Pardal Monteiro, inaugurado em 1969. Ali chegam todos os documentos impressos no país, cumprindo as normas impostas pela Lei do Depósito Legal que muitos acusam de excesso de zelo por obrigar a essa recolha total e em duplicado. Excepções? «Cartões de visita, cartas e sobrescritos timbrados; facturas comerciais, títulos de valores financeiros, etiquetas, rótulos e calendários; álbuns para colorir, cupões e outros equivalentes, modelos de impressos comerciais e outros similares.» Esses ficam de fora. «Recebemos 11 exemplares de cada documento. Dois ficam na BN – um para leitura e outro para preservação. Os restantes nove seguem para as bibliotecas beneficiárias: a Municipal e a Universitária de Coimbra; a Municipal do Porto; a Pública de Braga; a Municipal de Lisboa; Évora, Açores, Madeira e Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro», diz Gina Guedes Rafael, responsável daquele serviço, e em jeito de justificação das pilhas de caixotes que já invadiram todos os cantos do espaço reservado ao Depósito Legal e ameaçam transformar em armazém os corredores contíguos, sítios de passagem onde os passos se iluminam em estranhos jogos de luz e sombra, sublinhados por janelas de vidros baços que não deixam ver, mas permitem adivinhar o que está por detrás, naqueles gabinetes, vultos, de pessoas, de plantas, de estantes apinhadas.

O trabalho, ali, é físico. Carregar caixotes num empilhador, transportá-los até à sala onde é feita a separação, e aí proceder à triagem… Há um rosto por detrás de uma montanha de livros, entre uma janela e outra. Três funcionários fazem pilhas de onze títulos iguais que vão distribuindo por nove caixas de cartão e pelas prateleiras de uma estante, destino dos que ficam na BN, como atesta o carimbo de posse na página de abertura, nº do Depósito Legal e data de entrada. Um de cada para cada uma das bibliotecas e de olhos postos numa lista que ajuda a conferir que nenhuma irá ficar em falta ou receberá um exemplar a mais.
Os livros repetem-se, os gestos também. Todo o dia, todos os meses, mecânicos, em série, sem tempo para espreitar as páginas e lendo o título como um separador de espécie. É essa, afinal, a função. E não se ouve uma voz. O homem por detrás dos livros não ouve e por isso não fala. Não é preciso. Basta entender a linguagem das letras e dos números. Sabe ler lombadas e lábios e isso basta-lhe para ajudar a nascer os livros para esta biblioteca. Regista esse momento no papel com o dia, o mês e o ano, mas sem ligar aos ponteiros do relógio de parede parados numa eterna verticalidade e já sem exercer pressão sobre quem trabalha contra o tempo. Há muitos anos que marcam seis horas, ninguém sabe se de uma tarde ou de uma qualquer madrugada deserta destes movimentos que têm continuidade na catalogação e que há-de registar a existência de livros neste lugar bem como a sua disponibilidade para quem os quiser ler. Isso apesar dos meses que ainda vão passar até encontrarem lugar definitivo na estante e piso que lhes foi destinado no depósito.

Da entrada à arrumação no respectivo piso há um hiato de cerca de um ano, como atestam os caixotes com registo mais recente no Depósito Legal, assinalados com um certo dia de Março. A separação está abrir os pacotes com entrada relativa a Outubro de 2004 e a catalogação trata o mês de Maio, também de 2004. A escassez de funcionários explica o atraso, que já chegou a ser maior mas que, com a ajuda da informática e alguma reorganização de serviços, se tenta minimizar. Livros infantis, manuais escolares, teses de doutoramento e mestrado, romances de escritores mediáticos amontoam-se em cima das estantes à espera da atenção de alguém que lhes irá atribuir uma cota e duas cores – uma relativa ao género e que corresponde a um piso, e outra referente ao tamanho e que remeterá para uma prateleira. É uma espécie de bilhete de identidade entre uma população variada e arrumada também por classes, com a raridade a dar direito a estatuto especial e lugar no depósito de reservados, cofre-forte de acesso muito restrito.
Essa fidalguia entra, normalmente, por outra porta. A das doações ou compras. «A BN gere um orçamento anual que ronda os 60 mil euros para a aquisição de obras», informa Luísa Cabral. Pouco. Mas foi isso que lhe permitiu, por exemplo, adquirir aquele que é considerado um dos maiores tesouros do acervo: a «Bíblia de Cervera», um iluminado hebraico do séc. XIII, a «jóia dos alvores da invenção de Gutenberg», a Bíblia de 42 linhas (1454-55). Ou ainda, gastar 40 mil euros, em 2004, na compra dos manuscritos de Eça de Queiroz, um investimento que emagreceu a hipótese de muitas mais aquisições, mas considerado prioritário por quem tem a seu cargo a decisão de comprar. Seja a partir de sugestões dos leitores, como em resultado de uma pesquisa de autores portugueses editados no estrangeiro ou de autores estrangeiros que falem sobre Portugal, privilegiando as humanísticas e a literatura portuguesa, além dos chamados utilitários – dicionários, enciclopédias. Peritos da BN vão a leilões, percorrem sites, esmiuçam catálogos das editoras, assinalam o que interessa e decidem o que comprar em função do orçamento. O critério é sempre o do enriquecimento de uma colecção tornada pública em 1796, na então Real Biblioteca Pública da Corte, e que tinha como função «facilitar o acesso aos seus acervos, em grande parte já existentes, a todos os interessados».

A cápsula ou a essência dos livros

No piso 3, Teresa nunca teve de dar resposta a um pedido «absurdo» de um leitor, como aquele que o general Stumm von Borwehr fez a um bibliotecário no livro de Robert Musil, «O Homem sem Qualidades». Mais ou menos assim, numa tradução um pouco imprecisa: «Pois é, já agora importava-se de me dar uma perspectiva geral do mundo dos livros? Gostaria que me explicasse o que eu quero e o que me interessa. E depois podia dar-me o livro que contivesse o pensamento que para mim fosse o mais precioso.” Estranho ou não, e para surpresa do próprio general, o certo é que o bibliotecário em causa, funcionário da biblioteca nacional, pega no escadote e retira da prateleira de uma estante o livro que, no seu entender, continha a essência da biblioteca: uma bibliografia de bibliografias, ou seja, um índice de índices de livros. Mas Teresa não tem a mesma função desse bibliotecário ficcionado por Musil. As requisições chegam-lha na forma impessoal de uma cápsula de plástico transparente enviada da sala de leitura geral através de um sistema de vácuo. Cada cápsula contém a solicitação de um leitor. Na gíria interna recebe a designação de ‘bala’. Sempre que uma bala chega, faz-se anunciar através de um sinal luminoso. Teresa abre, lê a cota, e já pouco se demora no nome do autor ou no título. Conhece de cor os cem metros de comprido de corredor cheio de estantes de um lado e de outro, os comboios. Em cada um, a sinalética indica o número de cota e a cor, preto ou vermelho, conforme o formato do livro. Preto para pequeno, vermelho para grande, uma distinção que, além de facilitar a arrumação, acelera a resposta ao pedido. Há ainda o azul, para obras de grande formato.

Quando se lhe pergunta se conhece o lugar de cada livro, não diz que não. Ri e põe mãos à obra. «Cota 956, preto. Este, por exemplo, é aqui pertinho». Continua: «Cota 599. É o Alexandre Dumas.» A numeração é sequencial. Quanto mais baixa é a cota, mais antigo é o livro. E percorre, ligeira, os corredores à procura dos livros correspondentes às cotas que tem na mão. Passa indiferente por «A Vida e as Aventuras», de Robinson Crosoe, os «Problemas da Linguagem», de Cândido de Figueiredo, «Fables Choisis», de Esopo, «O Medo», de Stefan Sweig, «Eurico, o Presbítero», de Alexandre Herculano. Segue a sua própria lista e quando tem todos, mando-os para baixo, num elevador, ou monta-cargas, que chega à sala de leitura e aí é distribuído pelas respectivas mesas. Entre o pedido e a entrega do livro passam, mais ou menos 20 minutos, tempo que pode ser encurtado quando, em vez de preencher um papelinho, for possível fazer a requisição por via informática. Teresa tem dúvidas. Desconfia da fiabilidade dos computadores, mas não contesta. Muda de assunto. Prossegue nas suas considerações e satisfazendo curiosidades muito pessoais. «Gosta do Lobo Antunes? Eu não conhecia até que um dia disse para mim: Deixa cá ver porque é que este escritor ganha tanto dinheiro. E li o “Auto dos Danados”. Percebi que só vindo de um psiquiatra.» Conversa sobre «A Balada da Praia dos Cães», de José Cardoso Pires, mas tudo leva a Miguel Torga. «Ah, o meu Torga! Deve ser por ser lá de cima. Sou transmontana, como ele.» Nisto, dirige-se a uma das estantes da entrada. Retira um livro. Diz que o mostra sempre que tem visitas e sabe exactamente onde está, graças a uma memória visual que facilita o seu trabalho. «É uma preciosidade», assegura. Está todo picado dos bichos, amarelo escuro, com as folhas a partirem-se, a lombada quase desfeita, páginas soltas, envolto numa fita branca atada por um laço. «Já não pode ir à leitura, mas também tem direito à vida», sentencia, continuando a operação de manuseamento, numa ladainha que reproduz os longos diálogos que mantém com os livros, companhia de tantos anos naquele espaço onde só entra uma nesga de luz do dia em nome da preservação dos livros. «E o restauro, sôtora? Também não acredito.» Uma pergunta que já inclui resposta e não espera pelas palavras da directora do sector, Aurora Machado. Atira: «Este é vedeta de televisão.» Mesmo assim, Aurora Machado explica o estado vegetativo do volume: «Aqui está o exemplo de um livro em que já não há muito a fazer. Não é possível restaurar porque já está com a mancha de texto roída. É de mil setecentos e tal, nem sequer é muito velho, mas as condições em que esteve antes de vir para aqui não foram as melhores. Podia ser microfilmado, mas os buracos feitos pelos bichinhos não iriam permitir a leitura…»

Evitar fantasmas

Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, houve a apreensão das obras das bibliotecas dos conventos e dos mosteiros. Muitos dos livros em pior estado vieram daí. É o caso do livro de que se fala. Está limitado à prateleira e aos mimos esporádicos da guardiã do piso. Moribundo e sem estatuto especial, não integra a lista dos livros a recuperar na campanha «Salvem o Livro II», uma iniciativa da BN que pretende atrair mecenas para ajudar a recuperar obras. As «Rimas», de Lope de Vega, numa edição de 1605, aguardam vez e a vontade de um investidor para seguirem até à sala de restauro. O diagnóstico está feito: «Encadernação em pergaminho em mau estado de conservação. Apresenta sujidade superficial, deformação do suporte, ataque de insectos e intervenções anteriores de má qualidade.» Quanto ao corpo do livro, está com sujidade superficial, acidez do suporte, manchas de diversas origens e ataques de insectos. A proposta de intervenção aponta para uma nova encadernação, tratamento integral do corpo do livro, acondicionamento em caixa de cartão isento de acidez e microfilme. Preço: 480 euros.

Mais do que a passagem do tempo, o mau manuseamento é uma das principais causas da degradação de uma obra e deixam marcas visíveis, sobretudo no canto superior direito do livro. Mais tarde ou mais cedo, essa parte acabará por partir e perde-se parte do texto. «É muito este nosso gesto de molhar a ponta do dedo para folhear», exemplifica” Aurora Machado. O restauro, a digitalização ou a microfilmagem são soluções que, em conjugação ou isoladamente, permitem prolongar a vida de um livro que, de outra forma, não teria outra solução senão a de ficar na prateleira, sem poder ser consultado ou, pior ainda, sem que o seu conteúdo estivesse acessível à leitura, como num cemitério de livros.

Esta ideia foi explorada há pouco tempo pelo escritor catalão Carlos Ruiz Zafón no romance «A Sombra do Vento» (D. Quixote), editado em Portugal no ano passado e que se desenrola à volta do «feitiço dos livros». A trama arranca com uma visita inesperada, proposta por um pai ao seu filho. O de o levar, no dia do aniversário, nada mais que ao Cemitério dos Livros Esquecidos. «Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. (…) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.» Não é esta a função da BN. Apesar de todas as vozes que encerra, a última coisa que se pretende é que um livro adquira o estatuto de fantasma. Nessa polifonia – cada vez maior à medida que o uso aumenta – o livro deve ser aberto, manuseado e, quando, por imperativos de preservação, tal não for mais possível, que seja então lido noutros suportes: digital ou microfilme. Mas lido, interpolando os leitores e outros livros. A morte de um livro está na impossibilidade da sua leitura.

A decisão sobre o que mandar para digitalizar, microfilmar e restaurar é estudada caso a caso. Se a microfilmagem de uma obra pode partir do pedido de um leitor, já a digitalização e, sobretudo, o restauro estão dependentes de um parecer técnico.

Desde o verão de 2004 foram feitas cerca de um milhão de imagens graças a uma campanha de digitalização. Cada uma das secções elaborou listas das obras mais consultadas, das que se revestiam de maior importância para a colecção e das que, por motivos de preservação, tivesse leituras restritas. Neste momento, a campanha vai a meio e prevê-se que até ao fim, se consiga ultrapassar os dois milhões de imagens. De iconografias ou de palavras. No caso do texto, cada imagem corresponde, grosso modo, a uma página. «Fazemos, em média, 1500 imagens por dia. O objectivo é, sobretudo, o de preservar obras. Ao contrário da fotocópia – tida como o pior inimigo de um livro –, a digitalização é considerada o método de reprodução menos invasivo para a segurança da obra. Existem máquinas especiais para obras encadernadas e o tempo de iluminação da imagem a digitalizar não chega a um segundo.

O trabalho começou pelos reservados, daí todos os cuidados para minimizar os efeitos da intervenção. Um técnico munido de luva brancas vai manuseando as estampas que estão a ser digitalizadas. «Por vezes há obras em muito mau estado… Já temos digitalizado algumas que parece que se vão desfazer nas nossas mãos», diz, sem tirar os olhos do que está a fazer. A máquina em causa é híbrida, tanto funciona para a digitalização como permite filmar. Dá para grandes formatos, como para livros considerados normais. Actualmente, está apenas a digitalizar para dar um pouco de vazão às solicitações para aumentar a colecção da Biblioteca Nacional Digital (BND). «Muitos leitores, ao consultar a BND (www.bnd.pt) ficam impressionados com o acto de mostrarmos obras em tão mau estado. Houve uma altura em que se tentou esconder isso do público. Mas é a realidade e acho que ganhamos mais em mostrar e sensibilizar as pessoas para a necessidade de haver cuidados acrescidos no manuseio das obras», refere Isabel Roque, do Gabinete de Edições Electrónicas da BN.

Por aqui já passou, por exemplo, toda a camoniana, as obras de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, a correspondência entre António Feliciano de Castilho e Camilo Castelo Branco, a «História Trágico-Marítima», de Bernardo Gomes de Brito, ou «Confissão de Lúcio», de Mário de Sá-Carneiro. «Estas obras estão disponíveis na BND e podem ficar agora preservadas. Devido à qualidade da digitalização é possível usá-las mesmo para um estudo sobre a textura do papel usado nos originais», esclarece Isabel Roque.

O tempo e o espaço

Uma solução perto do óptimo, não fosse a incógnita que persiste quanto à validade de um suporte digital. É uma interrogação para a qual continua a não existir resposta. Talvez por isso a microfilmagem seja encarada como um dos formatos mais fiáveis para preservar uma obra que esteja em risco, ainda que a leitura de um microfilme seja a mais desconfortável. «O microfilme dura centenas de anos, sofrendo apenas algum desgaste com a visualização. O digital além de nos pôr o problema do arquivamento – que implica servidores muito potentes – tem uma durabilidade que ainda não se conhece. Nós mantemos as duas linhas de consulta», sintetiza Aurora Machado
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Na microfilmagem, cada bobina corresponde a um livro. São resultado de duas solicitações distintas: obras que a BN considerou de interesse em transferir para outro suporte, por estarem em mau estado, em risco de se perderem, ou então ainda documentos que os leitores pediram para microfilmar.

Numa sala escura, um homem executa em silêncio o trabalho solitário da passagem de uma obra a microfilme. É surdo-mudo e um dos muitos deficientes que a BN emprega ao abrigo de um protocolo com a Segurança Social. Pacientemente, abre o livro, acerta as margens, verifica se a intensidade da luz é adequada à cor do papel e só depois a deixa actuar para que a cópia se faça. São escassos segundos. De duas em duas páginas a obra vai-se replicando em filmes de polyester de 35 mm que, quando saírem dali, seguem para a revelação. Sempre três de cada documento.

Todas as obras anteriores a 1900 são microfilmadas antes de serem sujeitas a qualquer outro tipo de reprodução. Depois, a obra é arrumada e, em princípio, não será mais mexida, excepto se for decidido sujeitá-la a digitalização. Mas não são raros os casos de documentos em tal estado que nem a microfilmagem é possível.

Se no microfilme o livro é lido em planos de duas páginas, na digitalização o livro recupera a fórmula original do rolo de papiro. O texto vai-se desenrolando à frente do leitor à medida que a leitura avança. O computador adopta, assim, a técnica ancestral de um suporte feito de hastes secas fendidas de uma espécie de junco arranjado em rolos e que, na altura, veio substituir as placas de argila originárias da Mesopotâmia. Conta Plínio, o Velho, que o rei Ptolomeu do Egipto, receoso de que lhe fugisse o controlo sobre o segredo da produção nacional de papiro, e para proteger a Biblioteca de Alexandria, proibiu a sua exportação. Isso levou a que Eumenes, o soberano rival de Pérgamo, descobrisse um novo material para os livros da sua biblioteca: o pergaminho. Foi no século II a.C., embora se conhecessem brochuras de pergaminho do século anterior. Havia rolos de pergaminho e códices de papiro. No século IV, e até ao aparecimento do papel em Itália, oito séculos depois, o pergaminho era o material preferido na Europa para o fabrico de livros. Não só por ser mais resistente e macio do que o papiro, como barato. Este facto é recuperado por Alberto Manguel, em «Uma História da Literatura», (Presença, 1998). «Mais transportável, os dois lados da folha podiam conter texto, as quatro margens de um códice possibilitavam a introdução de glosas e comentários permite a participação do leitor na história.» Hábito eterno que persiste, vício maldito para os que têm a seu cargo a manutenção de um espólio nacional e a que nem obras guardados nos reservados escapam. Como uma edição d’«Os Lusíadas» da casa de António Gonçalves datada de 1572, cuja digitalização, além de notas referenciadas, revela ou ou outro sinal de um leitor que deixou ali a sua marca.

Limpar o tempo

Da história e das qualidades do papel, como dos arranjos ou desarranjos que vai sofrendo, sabem, mais do que ninguém, os técnicos que trabalham na área de restauro e preservação. Aplicam-nas diariamente nas decisões sobre o modo de actuar nos vários tipos de papel sobre os quais têm de intervir. É uma espécie de unidade que se divide entre os socorros primários e os cuidados intensivos, consoante o estado de saúde da obra. «A área de manutenção de colecções e de acondicionamento, tal como o nome indica, acondiciona e faz pequenas intervenções de conservação e restauro a que chamamos a “remendagem”, como a colagem de um rasgão, no caso de uma folha que se solta… É uma bancada SOS e tem a seu cargo todos os programas de conservação preventiva: controlo de pestes, higienização de pisos, controlo ambiental, o plano de emergência», esclarece Teresa Lança, responsável por aquele serviço onde se inclui ainda a área de conservação e restauro que intervém sobre os fundos mais antigos da biblioteca, aqueles que requerem um maior “cuidado”, obras de valor documental único, normalmente anteriores ao século XVIII.

É ali que Joaquina continua a lavar o seu livro. Chama-o seu porque é com ele que vai passar os próximos dias, semanas, talvez, e nesse percurso o sentimento de posse instala-se. «É o meu incunábulo, o meu reservado, o meu manuscrito… Reflecte uma atitude carinhosa e afectiva para com as obras. Nunca é só mais um livro, ou mais um documento», assegura Teresa Lança.

Sem nunca tocar directamente no papel, que se encontra protegido por uma espécie de mata-borrão muito fino, Joaquina adiciona à água um bocadinho de hidróxido de cálcio que permite remover parte dos produtos de deterioração. Este trabalho de limpeza húmida só é possível porque a obra em causa – um livro de medicina legal – não tem tintas solúveis. Mas antes deste ‘mergulho’, o livro é sujeito a um teste de PH para medir o grau de acidez do papel – com o tempo o papel vai-se tornando ácido – e alvo de uma limpeza mecânica que tem a função de remover a sujidade superficial. A água destes banhos sucessivos a que cada fólio (conjunto de folhas de papel dobradas) é sujeito começa por ser fria, mas vai aquecendo gradualmente até um máximo de 37 graus. Ao mesmo tempo Joaquina fará a alcalinização. Consiste é dotar a obra de uma reserva alcalina, ou seja, dar-lhe armas para se defender da possível deterioração que se segue ao longo dos anos. E, por fim, repõe parte da substância colante perdida durante o processo de lavagem e que serve para manter juntas as fibras e as cargas que compõem o papel. Feita a limpeza, a técnica coloca o fólio a secar numa espécie de grelha que mantém as folhas direitas e permite a passagem do ar. Normalmente basta um dia para que o papel perca a humidade deixada por um banho que tem a função de lhe restituir saúde e que só pode ser feito por mãos experientes. Mesmo assim, os sustos acontecem: «Era uma gravura que parecia óptima. Quando foi para dentro de água e desfez-se de repente. Foi um horror. Passei 15 dias quase sem dormir e quando fechava os olhos e via o papel, o puzzle, sabia perfeitamente onde é que cada parte encaixava na outra. Um pesadelo», lembra Teresa Lança, e acrescenta uma moral a esta história: «Por muito que pensemos que estamos seguros, existe sempre um factor de risco muito grande, mesmo sem estarmos à espera.»

Joaquina acompanha todo o processo de restauro da obra. Quer mecanicamente, quer manualmente. Pega num documento e segue-o até à encadernação. Já fez com esta obra o mesmo que Cátia está a fazer agora com uma outra na área de acondicionamento e manutenção de colecções. Alguns livros com margens partidas e capas a desfazerem-se, aguardam intervenção. Vêm da sala de leitura com lombadas partida, folhas descoladas… «para cada um, fazemos uma proposta de intervenção. Quando estão mesmo muito mal e muito ácidos recorremos à passagem para suporte alternativo, no caso a microfilmagem. A partir daí, fisicamente a obra morre. É acondicionada e vive o tempo que puder viver, mas não será mais acessível ao leitor», sentencia Teresa Lança, apontando para uma caixa com tampa de plástico cheia de livros em «tão mau estado em termos químicos que já não há nada a fazer. É a caixa dos que vão ser microfilmados. São os que vivem no limbo.»

Sem levantar a cabeça, Cátia prossegue o seu trabalho de desmontagem do livro, marcando numa folha o esquema de ordenamento dos cadernos – grupo de fólios – para que, mais tarde, o seu colega da encadernação siga o esquema original. A obra em causa está a ser recuperada ao abrigo da campanha «Salvem um Livro». Parte dos preços são suportados pela BN e outra parte pelos mecenas. O custo é calculado em função das horas necessárias para tratar o livro e do preço das matérias-primas… Este livro levará mais ou menos três semanas a um mês de trabalho. Vai ser limpo mecanicamente com a trincha, bisturi e borracha e, como as tintas são insolúveis, será sujeito a uma limpeza húmida, passando depois para o restauro manual. Como não está muito danificado, precisará da colagem de um rasgão e, sobretudo, de um intervenção ao nível do festo (zona imediatamente a seguir à costura ou à colagem do bifólio, onde se exerce mais pressão na altura da costura). Tem de estar reforçado para aguentar o processo de costura. O resto será mantido. Originalmente a obra não foi aparada e vai continuar como tal, com folhas amarelas e as margens incertas.

Não exibe, no entanto, buracos feitos por bichos como a que Cecília – uma outra técnica de restauro – está a tratar. Sempre que tal acontece é preciso escolher uma metodologia. Ir pelo restauro tradicional — desenho da lacuna sobre um papel de características semelhantes ao do original em termos de cor, textura, espessura; ou pelo restauro manual em que há um depósito de fibras de polpa de papel em meio aquoso, feito com um gota a gota e sonda de dentista para chegar aos orifícios. Foi esta a escolha. Em cima da mesa, há um frasco cheio de polpa de papel. Um conta-gotas suga a pasta que é depositada no buraco e depois trabalhado com a sonda de dentista em suporte de nylon até que o papel fique refeito. Teresa Lança mostra uma outra folha alvo de procedimento semelhante e que exibe agora uma série de efeitos que se assemelham a minhocas brancas. São as partes de papel reconstituídas.

O culto

Sentado num estirador, Vasco devolve a forma original aos livros que os colegas trataram. É a etapa final deste processo. Especializou-se em encadernação de restauro e restauro de encadernação. Tem agora em mãos uma capa nova para a qual aproveitou a original. Está praticamente concluída após duas semanas de um trabalho que envolveu ainda a costura dos cadernos num pequeno tear. «O restauro tem de bater certo com a costura de modo a que esta lombada volte a ficar com as mesmas dimensões. Como a encadernação original é de pele, escolheu-se uma pele mais ou menos semelhante. Aqui, colocou-se só a lombada e a charneira em papel para tapar uma zona que já estava partida», explica sem pressa nas palavras e desembrulhando um outro livro envolto em ligaduras e exibindo uma capa irrepreensível. E há ainda outra, a réplica de uma encadernação islâmica para um manuscrito que está a ser restaurado. Faz silêncio como quem espera uma reacção. E percebe-se mais do que nunca o culto a estes objectos.
Estão quase prontos a voltar a ocupar o seu lugar nas estantes. A voltar à vida. E nesse momento recuperamos as palavras que um dia Franz Kafka terá dito ao filho de um amigo que ficou extasiado diante da montra de uma livraria de Praga: «Um livro não pode tomar o lugar do mundo. Tal é impossível. Na vida, tudo tem o seu próprio sentido e a sua própria finalidade, para os quais não pode haver nenhum substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar a sua própria experiência por meio de outra personalidade. Assim é o mundo em relação aos livros. Tenta-se aprisionar a vida num livro, como um pássaro canoro numa gaiola, mas não vale a pena.» Ou ainda, como escreveu um dia Borges, o mesmo bibliófilo com quem começámos: “… a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.»

Publicado no suplemento dna em 2005