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A propósito de últimos pedidos

A literatura está sempre a colocar-nos em frente do nosso espelho. Ontem continuava a minha leitura dos ensaios de Orham Pamuk a propósito da arte do romance reunidos no volume “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (onde ele falava disso mesmo e hoje vejo a minha figura reflectida). Aconteceu ao abrir o blog  do Bruno Vieira Amaral.  Vinte anos para trás e lá estava eu, ao lado de uma cama de hospital diante daquela mulher bonita, tão bonita, que quase sem ar me pedia para lhe levar a bolsa da maquilhagem na próxima visita. “Claro que sim, claro.” Cerrei os dentes não fosse uma lágrima trair a minha expressão de que amanhã ainda existe para aquela mulher de 49 anos, sorriso generoso, na sua vaidade de querer apresentar-se bem a quem a visitava naquela cama asséptica. “Está por horas”, disse-me o médico à saída. Acho que ela sabia. Só queria ter o prazer de se arranjar mais uma vez. Uma última vez e orgulhei-me dela. Também queria ser assim quando chegasse a minha vez. Haveria de pedir a bolsa a alguém. E procurei a bolsa. Ficou na mesa da entrada para quando eu saísse. Só a tirei de lá quando no dia seguinte dei com ela ao abrir a porta.

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Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher refugiam-se numa praia depois de terem perdido a sua mulher e o seu homem. Um e outro não se conhecem. Um e outro têm filhos e encontram-se num areal, pontualmente, primeiro, regularmente, depois. Ela era para ir embora antes, mas o imprevisto fê-la ficar no único sítio possível. Em casa dele, por uma noite. Ele e ela atraíram-se. Ela culpou-se no fim… Um filme que ficou para a história do cinema Um Homem e uma Mulher, de Claude Lelouch, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e uma banda sonora com Vinicius de Moraes, Francis Lai e Baden Powell. Ganhou mais de 40 prémios em festivais de cinema, entre eles Cannes.  Não sou muito destas coisas, mas gostei de ter pisado o chão que eles pisaram, em Deauville. Isso e uma vontade enorme de rever o filme e ouvir esta “un homme et une femme

Acreditam?

Como é que eu podia convencer o velhote a quem passei uma rasteira sem querer, como é óbvio, de que a rasteira foi sem querer, que por uma coincidência do demo saí da porta e pus o pé no passeio ao mesmo tempo em que ele ia a passar no passeio e ele caiu redondo no chão chamando-me mulher do caralho? Isso, assim, à lisboeta e em bom som para a vizinhança ouvir no eco da manhã das ruas estreitas. Como ia eu convencê-lo, a ele que estava ali, no chão e se negava a que eu o ajudasse a levantar, continuando deitado porque as forças lhe iam todas para a voz, para gritar um nome que nunca me tinham chamado. “O senhor está bem? Como lhe explicar? E já as vizinhas tomavam partido dele, às janelas; as que se abriram porque das outras, onde as cortinas apenas se arredaram, veio a acusação.
Melhor seguir, engolir a vergonha, o segundo embaraço de um dia que começara há pouco mais de uma hora hora. Antes, no metro, foi o pé que me escorregou ao descruzar as pernas e sai disparado indo embater na canela da passageira da frente que deu um tremendo ai. Sim, fui eu quem lhe pós a perna a sangrar, mas não foi de propósito, mesmo. Acreditam?