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In a big jet plain

Levo uma música. Não me lembro de a ter escolhido…  Gonna take you for a ride in a big jet plane.

Angus & Julia Stone a picar-me os miolos como quando os ouvi pela primeira vez numa estrada larga, a caminho do mar na costa leste da América. Foi desde aí. Um frio de rachar, eu a fazer anos e a querer esquecer que fazia.

Bela música para fugir. Pelo menos naquele dia era. Bom som para sair da idade. Agora cola-se, nostálgica, miudinha. Lá está ela enquanto os seguranças me mandam fazer tudo o que não quero.
Penso nos pés sem sapatos. A revelação pública das meias irrita-me mais do que a mulher polícia que me manda pôr os braços para cima enquanto os dela seguem para baixo, na direcção das meias. Eu ali, exposta, e vale-me a música que ganhou direito a beatificação e me iludiu nesse tempo. Para mim, a meia é mais íntima do que o pé. Nada a fazer. Gonna take you  for a ride  in a big jet plane… Não olho para os pés, ou melhor, para as meias. Angus e Julia continuam e se o pensamento tivesse headphones emprestava um à senhora que me pede agora um teste às mãos. Vestígios de quê? Posso ir detida? E assim descalça, ou melhor, de meias?

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Escuto Nocturno

As pedras estão molhadas pela cacimba de uma noite quente. Há um candeeiro a projectar sombras, a sublinhar um efeito de água que é pouco mais do que o brilho do alcatrão da estrada. O silêncio tomou conta da cidade, mesmo quando já é dia. Sassetti morreu. Não é fácil repetir a frase até a assimilar, tomar-lhe o sentido brutal. Ouço “Nocturno” apesar do sol, do bafo quente quando abro a janela. Penso no riso dele, nos olhos dele quando fixavam o piano e o piano era tudo, ainda nas mãos dele ontem, quando ouvi dizer que morreu sem ouvir no ecrã da televisão de um restaurante. Havia demasiado barulho, mas a notícia estava escrita no telejornal. Bernardo Sassetti morreu aos 41 anos. Li aquilo enquanto lhe via as mãos, adivinhando um som.

A morte enquanto impossibilidade e logo real. O embate. E a música dele que tantas vezes me acompanhou lágrimas, sorrisos. Que levei, que guardo. E as palavras, as primeiras que lhe ouvi já lá vão anos numa entrevista de rádio. As palavras depois do nome, depois da música.

Anos depois tomámos café numa casa de chá ao Carmo. Ouvi-lhe projectos com o entusiasmo dos inquietos, os que querem sempre fazer e para os quais a vida nunca tem tamanho que chegue. Nem que vivesse cem anos Sassetti conseguiria fazer tudo. Viveu 41. E é impossível não escutar no silêncio da sua música genial toda a possibilidade do génio que não chegou a acontecer por falta de tempo. E foi tanto o que aconteceu.

Escuto Nocturno enquanto o sol entra pela casa.

Livros com música III

Um Dia

David Nicholls
Civilização

“E então é The Smiths, ‘There’s a Light That Never Goes Out’, e embora nunca tenha apreciado particularmente os Smiths, continua a bambolear-se de um lado para o outro, com a cabeça para baixo, outra vez com vinte anos, bêbado numa discoteca de estudantes. Esta a cantar bastante alto, é embaraçoso, mas ele não se importa. No pequeno quarto de dormir de um casa em banda, dançando com a filha ao som de música que sai de um comboio de brinquedo, tem de súbito uma intensa sensação de contentamento. Mais do que contentamento – júbilo” .

Livros com música I

Errata
George Steiner
Relógio d’Água

“A minha incapacidade de cantar ou tocar um instrumento é humilhante. Mas é frequente a música pôr-me ‘fora de mim’, ou mais exactamente, numa companhia muito melhor do que a minha. Materializa o oxinoro do amor, essa fusão de dois indivíduos na unicidade, sendo que cada um deles, mesmo no momento do uníssono espiritual e sexual, conserva e enriquece a sua identidade. Ouvir música com o ser amado é estar numa condição simultaneamente privada, quase autista, e todavia estranhamente envolvida com o outro (a leitura a dois em voz alta não atinge o mesmo nível de fusão).”

A reflexão daquele que é um dos mais brilhantes pensadores da actualidade, George Steiner no livro autobiográfico “Errata: revisões de uma vida), surge na sequência do relato de um facto:, terá sido a música a salvar o filósofo Wittgenstein do suicídio. E que música? “o lento movimento do terceiro quarteto de Brahms.

Uma das músicas da minha vida

Já a ouvi triste e já a ouvi alegre, nostálgica, serena, como fundo e sem mais nada. Como vai melhor é mesmo sem acompanhamento, o que não quer dizer sem companhia. Fica bem com o mar, fica bem em viagem, ouve-se como água num dia de chuva. Nunca o ouvi na praia. Nunca consegui que fosse banda sonora de uma leitura. Sempre foi pura, e aparece sempre de improviso como quando Keith Jarrett a gravou em 1975. De longe, de muito longe, alguém me pergunta porque me lembrei dela. Porque é bonita. Porque fica bem com a saudade que sinto, com o silêncio da casa, porque faz parte da minha discoteca mental. Vem, desaparece por uns tempos, mas volta sempre. É uma das músicas da minha vida. É o concerto de Colónia, que às vezes me aborreço de ver tão tocado e ouvido e repetido. Dá raiva. Como um segredo que pensamos só nosso, mas que as comadres já espalharam, No caso que ricas comadres. Um dos discos a solo de piano mais vendidos de sempre. Pois, mas não esquecer que é música gourmet…

headphones

De auscultadores nos ouvidos, fugia às pingas que caiam dos toldos.
A chuva era miúda mas persistia há horas e chegava para arrepiar as costas quando uma gota entrava por onde não devia.
Não costumava andar assim na rua, de orelhas moucas para o que lhe chegava. Surda dos sons do dia, os sentidos ficavam menos apurados. Acontecia tropeçar, não reparar na cor do sinal para peões.
Coisas não só do ouvir mas também do ver. E parecia também que até os cheiros chegavam mais fracos e àquela hora da manhã havia café e pão quente e waffles ainda sem gordura saturada. Tudo intenso. Mas o que ela gostava mesmo era das conversas que lhe iam chegando aos pedaços, sem um princípio e sem um fim, ou então só com o fim, ou apanhadas num princípio tão bom que então, aí sim, punha os auscultadores e fingia ouvir música quando a atenção se prendia ao desenrolar de uma história que não tinha vergonha de perseguir. Como o descaramento de olhar para o interior de uma casa à noite. As vidas dos outros interessavam-lhe e não era cuscuvelhice. Ou pelo menos ela assim não achava. Era uma maneira de se situar no mundo.
Com as orelhas tapadas pela música sentia-se mais indefesa, menos preparada para enfrentar surpresas, e ouvir ou não ouvir uma conversa podia fazer toda a diferença. Sobretudo naquelas manhãs de minutos contados onde cada coisa, cada acto tinha a sua função precisa. Daí as conversas dos outros terem a função da ficção, mas com o desconcerto do real. E os phones ficam na mala mais a música que era suposto ouvir… Mas não na rua. Só que naquele dia ela estava virada para dentro, ensimesmada, e por isso não ouviu o homem na esquina anunciar o bilhete que tinha a sorte grande. Ele não era um banal vendedor de lotaria. Era o adivinho de Tiziano Terzani, o jornalista italiano que não andava de “headphones” nas orelhas

Música mentirosa

Impossível não praguejar contra a música que nos rouba ao sono.
Pensava eu até ouvir aquela melodia.
Uma melodia mentirosa, sem vergonha, que me convencia viver dentro do meu sonho para me devolver, a dessimulada, à realidade.  Isto às seis da manhã.
São lá horas… e de acordar?  Quando muito uma tocata para deitar.
Mas lá estava aquele jazzy e eu perdoava-lhe o mau carácter.  Sol ou chuva, quase sempre chuva ou céu cinzento, aquela música apresentava-me o dia, sedutora, e eu não queria outra coisa a não ser ir e perdoava-lhe, mesmo sabendo que no outro dia ela voltaria a fazer tudo igual.

concerto desafinado

Quatro da tarde. Mais minuto menos minuto, o chão tremia. Ou era o tecto. As paredes eram de certeza.
Começava o concerto no andar de cima, um ensaio desafinado e pontual que salvava da solidão mais absoluta as minhas tardes em Brooklyn.
Nunca soube da cara do tocador de bateria. Sabia que era dono de um daqueles passos que aprendi a distinguir pelo ritmo e peso do pisar, pelo poder de fazer ranger as escadas. E havia os mais e os menos poderosos nesse campo. Por exemplo, a menina do andar de baixo fazia tremer os degraus sem destoar o tremor das velhas paredes e do soalho de madeira da sua cantilena que tanto poderia ser de encantar como servir de banda sonora a um filme de terror, tal a cadência, a repetição melódica e de palavras e até de horário: todos os dias a partir das cinco da tarde e sem pausas ao fim de semana. Não. Ela só se fazia notar.
Em cima não. Era físico, pesado. Bateria para botas de fazer tremer o prédio de um castanho gasto pela neve e pelo sol. Talvez o tocador fosse um daqueles rapazes que encontrava à entrada, com um cão pela trela para o passeio diário.
Mas não. Esse descobri depois que morava ao lado da menina, em baixo, o que fazia bifes para jantar. O aroma a carne frita e alho não enganava ninguém, muito menos a um estrangeiro que sabe o que é o cheiro a bife com batatas fritas ao subir as escadas no fim de um dia de trabalho. Pois, não enganava o bife, como não enganava a toada forte da bateria.
Também não era o que vinha todas as manhãs com pão fresco para o pequeno almoço. Esse nunca subia as escadas. Morava em baixo e punha todos os sapatos à porta, não sei se por excesso de higiene ou falta de espaço no interior.
Também não era a rapariga que empurrava o carrinho de bebé até ao canto mais afastado das escadas antes de as subir com a criança ao colo. Nunca soube onde morava. Uma vez, ia eu a sair com o saco da roupa para a lavandaria, e pediu-me para lhe abrir a porta, que se esquecera da chave da rua. Não me deu para desconfiar, não sei porquê, afinal nunca a vira antes e ela bem podia estar a enganar-me, como me avisara o meu namorado irritado com a minha credulidade lisboeta. Estava ou não estava em Nova Iorque, a cidade onde o crime espreita? Pois, mas havia qualquer coisa na cara dela, talvez o modo expedito como pediu, um pouco envergonhado mas sem desculpas demais ou sequer toques de uma gaguez comprometida. Nada. Directa ao assunto, mas frágil como não podiam ser os braços do tocador de bateria que todas as tardes ensaiava no numero trezentos e tal da Clinton Avenue, mesmo no cruzar com a Washington. Aparecia e desaparecia, pontual.
Passos para cima, um concerto desafinado, passos para baixo e até amanhã.

Nunca me deu para ir espreitar. Nunca quis ver o rosto daquele que produzia ruído para os meus ouvidos mas me fazia querer fazer coisas, também eu, ainda que desafinadas. Ele ensaiava em cima. Eu, em baixo, só queria criar uma qualquer harmonia.

“Estrelas de giz”


Animal Kingdom “Chalk Stars” Video Oficial