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Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher refugiam-se numa praia depois de terem perdido a sua mulher e o seu homem. Um e outro não se conhecem. Um e outro têm filhos e encontram-se num areal, pontualmente, primeiro, regularmente, depois. Ela era para ir embora antes, mas o imprevisto fê-la ficar no único sítio possível. Em casa dele, por uma noite. Ele e ela atraíram-se. Ela culpou-se no fim… Um filme que ficou para a história do cinema Um Homem e uma Mulher, de Claude Lelouch, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e uma banda sonora com Vinicius de Moraes, Francis Lai e Baden Powell. Ganhou mais de 40 prémios em festivais de cinema, entre eles Cannes.  Não sou muito destas coisas, mas gostei de ter pisado o chão que eles pisaram, em Deauville. Isso e uma vontade enorme de rever o filme e ouvir esta “un homme et une femme

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Namoro

“Costumas contar aos teus namorados que tens herpes?”
Estavam em frente um do outro. Ele e ela fumavam cada um um cigarro tirado do mesmo maço, em cima da mesa.
Ele de óculos escuros e T-shirt amarela. Ela de óculos um pouco menos escuros e um top castanho que revelava dias e dias de sol e praia.
A pergunta foi feita assim, directa. A resposta veio do mesmo modo, sem  demonstrar o mínimo incómodo, mal-estar ou outros desconcertos.
“Claro que digo, tás parvo!” Ele pareceu esclarecido e calou-se enquanto a ouvia explicar a sintomatologia e os meios de propagação daquele “vírus”, dizia ela, que já a mãe tinha, e muitas das suas amigas e que não era assim tão mau, apenas chato e “dava bué mau aspecto”. Não era sem orgulho que afirmava nunca ter contagiado ninguém. Ele ouvia.
Um e outro, ele e ela, estavam de férias à espera que a universidade revelasse o seu grau de clausura para que um e outro, ele e ela, ficassem a saber se este seria um ano diferente. Ja era, de facto.
Falavam de uma nova fase nas suas vidas. Tinham vindo de férias. Ela, sempre a gesticular, contava da dificuldade do pai em fazer caber a prancha de surf no carro.
Ele mostrava-lhe moedas. “Quanto vale?”, perguntava ela. “5oo rupias são aí uns dez cêntimos. Guarda como recordação.” Ela virava a moeda na mão. “Ih, ih, ih, estou rica. Sabes que agora tenho a mania de rir assim, ih, ih, ih. Até escrevo nas mensagens. Estou farta do lol. Ih, ih, ih. E ele já ia noutras conversas.
Contava que estava no aeroporto a ouvir a histeria sobre o Irene. “Não me f……, aquilo foi bullshit.” Ela acendia outro cigarro e, revelando o azul claro das unhas, replicava que tinha tido alguma  gravidade, afinal morreram pessoas e sabes que lá “as casas deles são feitas de madeira ou lá o que é; não são como as nossas, de cimento e tijolo.” Ele não se deixou comover com o abalo. Nem com o dela nem com o da Irene que afinal nem foi uma tempestade mas um furacão; não foi uma ela, mas um ele mariquinhas, até que ela, a rapariga em frente, se queixou do sol que queimava naquela esplanada à beira-rio e pediu para mudarem de mesa.

À sombra, ela sentou-se ao lado dele. Pôs-lhe a mão na perna, por debaixo da mesa; com outro cigarro na mão, assegurou-lhe que o herpes só era contagioso numa determinada fase e não deixando que se fizesse algum silêncio constrangedor, começou a beijá-lo, primeiro na orelha e segundos depois já estava na boca. Ele não negou o beijo e também não deixou que houvesse silêncio.

Agora era o telemóvel dela que tinha desaparecido. Sim “aquele vermelho, o último que saiu.
Mais um beijo, mais um cigarro, mais conversa até que ela: “e se fossemos pagar e dar uma volta?” Ele não pareceu perceber à primeira aquela retórica, mas momentos depois já a acompanhava ao balcão, pagaram e ela seguiu à frente dele, a rolar a rupia na mão.