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Uma balada de nova iorque

Joe Gould, bohemian artist
Philippe Halsman, USA. NYC. 1943.

Procurei por Joe Gould. Sabia-o morto, mas mesmo assim.

Não era bem eu, era eu feita personagem de um tempo que não foi um meu, de uma história que não foi minha, mas da qual me apossei.

E aquele seria um lugar provável. Mesas de madeira compridas gastas pelas mãos, pelos cotovelos, pela escrita. Procuro-lhe os sinais sem na altura perceber que pensava em alguém baixinho e enfezado, escondido debaixo de uma barba tão desfiada quanto ruiva. Talvez fossem os rostos gastos pela boémia… outros mais pela destruição pura, a que resultou da ausência de qualquer alusão ao prazer. Escrevem ou fingem que escrevem, ou fingem que lêem. Eu também finjo, afinal.
Só volto a mim quando nos olhos perdidos dos outros, aqueles cujo horizonte não vai além das imagens que lhes vão dentro. Só volto quando olho os olhos deles e eles nem pestanejam. Mas continuo sem ver Joe Gould. Vejo gente a aquecer-se numa biblioteca pública, nada mais. Lá fora gela-se. E outros que teclam e estão ali porque não podem pagar um café que lhes daria direito a uma mesa e algum tempo num lugar com vista para uma rua de gente cheirosa. Aqui, onde não está Joe Gould, cheira a pobreza e são os pobres que ali vão. Joe Gould não era de todo pobre. É chocante? O cheiro a suor e roupa suja e descuido? Pode ser, mas só para os que não sabem nada desses sítios, onde os pobres existem entre as lombadas dos livros que como eles, já poucos ou ninguém consulta. Cheiro a abandono. Joe Gould não era assim.

Mas Joe Gould não está. Claro que não, morreu.
Nunca li o obituário. Talvez vá à procura, mas distraio-me.
Sempre os outros, os que estão à volta. Escuto-lhes as conversas como Gould as escutava, seguindo o que li na vida que dele contou Joseph Mitchell, esse homem com tanto saber de jornalismo para contar de gente, e que, como Sorayan, Freeman ou Cummings, estava destinado a encontrar e deixar-se infectar por Joe Gould, o boémio assumido e tímido relutante a quem o álcool limpava a vergonha. O historiador da nossa redundância que vivia com o que tinha num saco de papel e que tantas vezes jantava ketchup antes de adormecer onde a cabeça o tombava.

Li acerca de Joe Gould antes de conhecer Nova Iorque e isso é a mesma coisa. Não é o mesmo saber dele sem saber do Village, do Bowery, do Harlem e das margens do Battery. Adivinhar-lhe os bares, ver outros, esperar encontrá-lo com o seu livro infinito debaixo do braço, pagar-lhe um café escuro sem açúcar, à cowboy, como ele gostava. Como eu gosto, lembrou-me alguém que me conhece melhor do que o Joseph Mitchell conhecia o Joe Gould. Pagar-lhe um café e ficar a ouvi-lo… Fantasia.

Vou outra vez de Nova Iorque sem ver o Joe. Lamento. Claro que continuo a olhar em volta. E no Village, justamente ali numa das ruas por onde andava, lá está ele, mas sem eu saber que ele estaria lá, dentro de um livro numa pequena livraria. “Up in the old Hotel“, uma compilação de textos escritos por Joseph Mitchell para a New Yorker, a preço de saldo. A pechincha vai comigo para casa, pelo preço de um café enfeitado por um barista de segunda. Mas só dias depois descubro, nela, Gould. O “Professor Sea Gull” constantemente a escrever a “sua” “História Oral”, e Mitchell, o maravilhoso contador de histórias verdadeiras que não lhe resiste. Porque é irresistível um homem que desdenha o dinheiro e tudo o que ele pode comprar, que vive nas ruas entre o que pede e o que lhe dão para continuar a coleccionar o que se diz, o que ouve por onde anda naquela Nova Iorque dos anos vinte, de um século que já passou inteiro. Mitchell descobriu-o em 1942 e fez-lhe o perfil, o primeiro de dois, que publicou na The New Yorker. Anos depois tornou a história mais completa e “O Segredo de Joe Gould“, assim lhe chamou, tornou-se um hino ao jornalismo e à literatura. Li-o assim, em Lisboa, há uns anos, uma edição de capa cor de rosa editada pela D. Quixote e tornou-se um dos meus livros e Joe Gould uma das minhas personagens, daquelas com quem de vez em quando dou por mim a trocar ideias. Tantos anos e ele ainda possível fora da literatura, com o seu sotaque de Harvard, onde se formou, e agora escritor de oralidades. E pode lá haver escrita melhor? 20 mil conversas tão desconexas como universais fervorosamente passadas a papel, contou Mitchell. Gould nem sempre dizia, calava mais e foi calando cada vez mais. Às vezes fingia que falava para dizer só o que queria.

No Village. Há uma toada que guia os passos. Frio, muito frio. Abro a boca para apanhar um floco de neve. Não vejo Joe Gould, alguns parecidos, mas não me lembram Joe; para falar a verdade, ninguem se compara a esse imitador de gaivotas que, como eu, gostava do rio e do grandes corpos de água, abraçadores de alma.

E estou quase a ir embora. Longe de Gould, longe do nosso Village — apropriei-me –, para longe de uma cidade que partilhamos por razões tão opostas, em tempos tão distantes em circunstancias tão diferentes.

Uma voz embala-me. Conta-me a história que Mitchell escreveu, e eu oiço, sem saber que seria um dia um embalo, uma história para eu adormecer. Mas enquanto langueio no meu embalo, vou despertando. Porque reconheço a figura de Gould, estão lá os traços, a rebeldia, mas parece que não era bem bem assim, mas também não deixava de ser assim. Era possível que fosse. Embalo, pois. A voz tem o timbre do Village, podia ser Gould. Quem sabe se não seria. Contava e contou, e no fim o título “Professor Sea Gull”… Emoção da grande.

Encontrei Gould, de facto, fora do Village, não na biblioteca. O Gould antes de eu o conhecer, graças a uma voz, e Gould tornou-se ainda mais uma das minhas baladas de Nova Iorque.

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O pastor

Camille Pissarro, Shepherd and Sheep, 1888

Camille Pissarro, pastor e ovelhas, 1888

Ele estava por tudo, até ser pastor. Há uns dias chamaram-no do centro de emprego. Era para ser pastor, pastar ovelhas numa serra do distrito de Faro. Ele, que vive em Lisboa, passou por Nova Iorque, parou uns tempos em Berlim e nasceu na Roménia. Foi à entrevista. Mas 250 euros por mês era pouco para enlouquecer no pasto e a senhora da repartição disse-lhe que era como quisesse, mas achava que ele tinha qualificações a mais para a tarefa. Ficou de voltar, para o emprego, ou desemprego.

“Will do Pig, will do…”

Foi com a ponta do nariz gelada e o estômago colado que engolimos em seco. À porta, atrás do balcão, o rapaz de tatuagens coloridas nos braços apontou para hora e meia de espera por uma mesa. Por mim desmaiava já aqui. Depois de atravessar a pesada cortina de veludo encarnado reparei em duas coisas: todas as mesas eram à janela (nada melhor que sol a entrar pelas vidraças em almoços de inverno) e o guloso cheiro de ervas aromáticas e molhos quentes.

Com reservas feitas à porta, quem arrisca habilita-se. No caso, a um passeio mais demorado pelo West Village. “Oh, que chatice!”, quase ouço dizer.
Uma e meia da tarde e muitos quilómetros nas pernas fazem a diferença, e a distância entre o prazer e a penitência aumenta quando se avistam umas batatas fritas cortadas tão finas que parecem atacadores dourados por cima do um naco de Haché suculento com Roquefort. Logo eu que nem sou amiga de hamburgueres… A água já estava na boca quando vi passar saladas leves e altas e fígados de galinha em pão torrado… Desalmados, mas com sorrisos de antecipação de festa, saímos já fieis à casa e ainda sem provar nada.

Toca a andar que o vento do norte não dá tréguas, não convida a paragens e entrar numa loja pode ser o princípio de uma grande depressão para quem chega do país da austeridade, mas o Village é o Village e de roupa usada percebe o Ralph Lauren que mais americano que ele só um hamburguer. Com Roquefort? Seja, e a salivação ia secreta. Chapeux! Um segundo e ele entrou por um porta com sineta, recuou no tempo. Era Al Capone, foi Humphrey Bogart, Miles Davis. Eu, Josephine Baker enquanto pensava em pão quente e manteiga com alho e salsa. Peguei na mão dele. Fome? Confirmou, distraído com um Porcupine, as melhores ironias aparecem refinadas por momentos de atenção selectiva. Nada de esperar pela resposta. Estava mais que decidida, estava fixada num hambúrguer. Sem chapéu na mão nem na cabeça, regelados, regressámos à esquina com o porco malhado pendurado à entrada.

O lugarejo pertence ao Restaurateur Ken Friedman e à Chef inglesa April Bloomfield. Ele desenhou e decorou o estabelecimento. Ela, depois de enaltecer o River Café, o Kensington Place, o Bibendum, O chez Panisse, etc … veio refinar a sua cozinha sazonal anglo-italiana para o The Spotted Pig, o gastro-bar que para espanto dos desatentos, ganhou uma estrela do famoso Guia Michelin. Ambos são tambem sócios do John Dory , mas isso é uma outra história completamente diferente.

Uma cerveja ao balcão e o quente a pedir manga curta até chegar a nossa vez. Mais olhos que barriga, queria experimentar todos os pratos que vi desfilarem numa dança de equilíbrios e tropeções até à frustração de perceber que já passava das três e do menu já sobrava pouco. Estranho, para um lugar em que a cozinha só fecha as duas da manhã. É preciso saber que o período de almoço passa para o período de jantar de forma tão leve e imperceptível como um tanque de guerra. Acabam os ingredientes? Não, acabam os preços diurnos. E com hospitalidade germânica, uma miúda que parecia saída de um concerto dos Joy Division orientou-nos para os melhores pratos que sobraram dos melhores pratos que esgotaram. Venha outra cerveja – Old Speckled Hen Pub Ale (Suffolk, England) – e um torcer de nariz.

Vieram uns fígados de galinha numa tosta de pão provençal. Conjugação perfeita entre o ligeiro amargo da carne e o doce da cebola caramelizada. Tudo desfeito numa mousse onde se pode distinguir os pedaços. Depois deste “soube a pouco”, um arenque fresco servido frio, a enrolar os componentes daquilo que o tornaria num ceviche: cebola, salsa e vinagrete. Durante um gole na cerveja – Six Point Crisp Lager (Brooklyn, NY) – apareceu uma salada de agriões, nozes e queijo de cabra. Partilhámos uma sopa de vegetais de inverno com cogumelos silvestres que chegou rústica e perfumada como as cozinhas sicilianas. Finalmente, e já sem o desespero dos famintos, o fabuloso, maravilhoso e fantástico (perdoem a adjectivação) Chargrilled Burger with Roquefort & Shoestrings fries.

Com uma carta vinhos minimalista mas sofisticada – apenas três opções por cada uma das categorias de tintos, brancos e espumantes – a atenção prendeu-se nas cervejas artesanais e nas cidras locais e francesas. Território fascinante e desconhecido. Desde cerveja de casco a garrafas de litro, passado pelas de pressão, em copo ou caneca, este lugar, a que só abusivamente se pode chamar restaurante, tem o aconchego dos pubs da “velha” York. Há quadros de porquitos, tapeçarias de porquices, fotografias de porqueiros, posters e  porcarias emolduradas. A clientela vem do cinema, da música, da TV e espalha-se sem dress code por mesas que sentam no máximo seis pessoas. O restaurante tem agora a capacidade aumentada para 100 comensais desde que o segundo andar foi passado para o domínio público. Antes, falava-se da sala privada no andar de cima onde April Bloomfield preparava pratos tradicionais para amigos e amigos de amigos.

E a tarde passa para a noite o interior em paredes forradas a madeira, com as conversas a atingirem decibéis que abafam qualquer música. Mas as cadeiras estão longe de ser as mais confortáveis do mundo. Não são para ficar, é para comer e andar, sabendo que The Spotted Pig raramente fecha. Todos os dias há hamburgueres. Todos os dias são de rock-n-roll. Havemos de voltar ainda que de Lisboa a Nova Iorque continuem a ser sete horas de avião, mais 90 minutos de espera no Village. No Verão não custa nada. Mas há que ler o letreiro cá fora:

“Please respect our neighbours and keep noise to a minimum”

314 W. 11th Street
@ Greenwich St.
New York, NY 10014

Tel: (212) 620-0393
info@thespottedpig.com

A vertigem

Equilíbrio imperfeito, uma escorregadela e mãos ao chão.

Subia a montanha de olhos no céu como não recomendam as regras de um bom caminhante. A cada passo uma viagem, as que fiz e não contei. Momentos como postais, flashes de fotografias na memória e a esperança e um dia saber passar a mesma emoção a alguém. Sempre a adiar. Talvez um dia consigas a conjugação certa para dizer que o abismo é a única coisa que me segura. Ou então como explicar aquele grito que grito sai mudo? A hora era do êxtase das cores. O amarelo nunca foi tão bem definido, nem o verde tão incandescente e lá estavam todos os seres nunca vistos a passavam por baixo sem que eu lhes fizesse sombra. Eu deitada no maior aquário do mundo. O oxigénio a entrar nos pulmões, mas a respiração a atrofiar diante daquele sem fim, sem fundo, sobre o que segurava o meu corpo indiferente às gotas de uma chuvada tropical. Calor e um arrepio.

É o paraíso, convencia-me. México e um dos maiores recifes do mundo e eu nele. Qual quê? Maior que tudo era vertigem e as cores que se misturavam num turbilhão fluorescente, espiral com uma só saída.

Barco à vista, mãos no ar. Que me salvem senão eu vou-me… Onde? Ao fundo? Claro. Pra quê falar dessa humilhação de ficar três horas num barco à espera que os outros se divertissem naquele sem fundo, que o experimentassem descendo mais? Nada para contar a não ser o medo e a conversa presa com o aventureiro que levava turistas ao mar sem saber do medo do abismo. Um suíço que conhecia os Açores ao lado de um mexicano que queria lá saber. Que o acordassem quando tudo acabasse. Claro ombre! Era igual aos que vi passearem-se com metralhadoras em Guanajuato, cidade na rota da prata, onde universitários e descendentes de mineiros partilhavam a mesma música em ruas garridas, como no mar, mais a sul.

Porque é que me veio agora o México? Logo quando escorreguei a subir uma montanha na humidade do Outono na Madeira, talvez meses, talvez anos depois.

Foi outra vertigem, eu no fundo, a olhar o céu e a tontura de tanto azul. Talvez seja assim com as viagens, umas nas outras, coladas por sensações como selos com cuspo em postais ilustrados. Andam pelas gavetas.

Será por isso que parece que conheço o Chile onde nunca estive? Uma vez deram-me uma igreja em barro, branca e azul, e parece que vejo as mãos que a esculpiram. A ilusão. Fui ao Chile naquela igreja que me trouxeram de lá. Fui a Buenos Aires com Borges. E depois? Entrei numa ermida nos Açores de olhos molhados e nunca mais de lá saí. Nem nos Capelinhos. Aí fui à lua, mas foi trágico o arrepio. Não sei bem por onde andei.

Vou andado, olhando arranha-céus de Tóquio e Nova Iorque, parando na tasca para comida gordurosa. Gosto de apanhar aviões, mas uma carroça também serve.

Tomo notas de emoções em contas de restaurantes, bilhetes de eléctrico. Depois perco-as. Talvez um dia aprenda como se faz isto de contar lugares.

Mistérios de Lisboa

“Lisboa é grande?” Ela brincava com as peças do lego e não desviava os olhos da construção que já sabia de cor. Cotovelos apoiados na mesa, pés a balançar no ar. “Muito grande”, e a mãe sem tirar os olhos da revista. “Do tamanho de quê?”, a cabeça de lado, a mirar o já construído. “É grande, é uma cidade, a maior de Portugal, com muita gente a viver lá, e muitos carros, e prédios altos.” A mãe estava determinada a não deixar uma pergunta da filha sem resposta. “Mas grande como, maior que Torres?” E os olhos já não estavam o lego. Olhavam a mulher de quem esperava todas as respostas sobre o mundo. “Sim, muito maior que Torres.” Hmmm… o silêncio não era sinal de desistência, a mãe sabia. Ela sabia que a filha não estava esclarecida. Os pés a balançar, a distracção ensaiada, era sinal disso. “Maior que de Torres até lá?” Há um limite para paciência de mãe ou pelo menos um ponto em que a mãe sabe que não vai mais ter reposta para a filha de três anos que era eu. Ela queria saber da grandeza de uma cidade que aprendera como um sonho das histórias dos adultos, dos filmes, a cidade onde ia muitas vezes para ver um médico de bata branca. Gostava dele mas não gostava do cheiro. Disseram-lhe que era éter e ela passou a odiar éter. E só por chorar por causa do éter, levaram-na ao Jardim Zoológico e para que não pensasse que Lisboa era só feita de éter. Ela já desconfiava. Não devia ser por causa desse cheiro que a mãe queria ir viver lá apesar dos protestos do pai, que a avó dizia ter saudades da terra onde não havia só sirenes que haviam de levar alguém até ao éter. Por isso mostraram-lhe o rio, e as ruas e as pessoas e os cafés onde havia máquinas de davam ovos que davam brinquedos e ele aprendeu a dizer que um dia queria ir para lá. quando fosse grande queria ser de Lisboa. Quando fosse grande como Lisboa. A mãe haveria de gostar, Talvez fosse com ela. O pior era o pai que não queria ir. Um dia ela foi. Já era quase grande e ainda não fazia ideia do tamanho de Lisboa. Sabia só que era a terra da avó e por isso não acreditava quando lhe diziam que quem era de Lisboa não tinha terra. E fez bem. Hoje quando sai tem saudades de Lisboa como quem tem saudades da terra. Dos cheiros, das pessoas, do anonimato, da língua afiada da porteira. Dos becos com histórias expostas, dos bairros que são como aldeias ou dos vizinhos que não se querem falar porque não querem que seja como lá na aldeias de onde muitos vieram. Ela é das que gosta do anonimato, Do “Bom dia e um galão”, isso que poucos confessam mas que não quer dizer mais a não ser “Preservo-me”. Deve ser uma protecção, defesa, qualquer sinónimo associado ao pudor da não exibição da vida. A tal associação ao “cuidado” que lhe recomendaram quando saiu de casa. E depois de Lisboa vieram outras cidades ainda maiores, sempre com Lisboa a servir de escala de grandeza. Havia as mais pequenas, as mais cosmopolitas, as mais feias, as mais caóticas, as mais frias, as mais quentes. Lisboa o termo de comparação. Talvez o dobro do Porto, sem o charme de Paris, um encanto como o de Roma, mínima em relação a Tóquio, muito menos cosmopolita que Nova Iorque, mas nunca a digam menos bonita que… Diferente, é isso. “De que tamanho e Lisboa?” foi a primeira formulação de uma tentativa de entendimento de algo complexo. Seguiram-se outras. Mistérios desfeitos, mas o de Lisboa manteve-se. Apesar do mal que lhe vão fazendo, Lisboa sobrevive revelando uma enorme capacidade de regeneração. Já viram quantas feridas? É coisa viva. E tantos anos depois, adoptando a cidade como terra, posso andar por muitas, viver em tantas, mas continua sem resposta a pergunta feita à mãe, um dia, faz muito tempo. “Lisboa é do tamanho de quê?” Se isto fosse um filme agora entrava o silêncio e talvez o genérico.

O casaco

Na gola, no atilho para pendurar no bengaleiro, lia-se um 9 e um 5. Os outros dois algarismos, primeiro e último, estavam sumidos mas não era difícil presumir o primeiro. Seria uma data.

No meio daquela feira a céu aberto onde toda a quinquilharia era superinflacionada aquele casaco chamou-me a atenção quando já dava a minha ronda por encerrada sem lamentar não ter trazido os óculos de ouro só com uma haste, nem o baú a que faltava quase tudo, ou os vinis rombos. A dona da barraca arrumava-o e no justo momento em que pegou no cabide que o segurava pedi-lhe para ver. “Sure.” Estava um daqueles dias de sol e chuva, ora calor ou um vento que gelava. Fim de tarde em fim de primavera a pedir sobretudo e cachecol. “Experimenta”, incentivou-me o João, esquecido da frustração de não encontrar por ali as tais das botas, aquelas, “que raio”… Olhei para os números, no papel pardo e imaginei quem se teria dado ao trabalho de escrever ali uma data. Qual a razão? Comecei a inventar uma história para aquele casaco de pêlo curto preto forrado a seda. “Assenta que nem uma luva”, disse a vendedora, mulher com ar de inglesa, robusta, e sotaque a remeter para o outro lado do Atlântico, um “it fits you very well” que soou a música para os meus ouvidos. E o casaco ia ganhando mais história. Agora pertencia a Inglaterra e sabe-se lá como teria ido parar a Brooklyn, a um feira de bric-a-brac. Cintado, pelo joelho, gola levantada, botões  a tapar as molas que o apertavam. Olhei à procura de um olhar cúmplice e encontrei-o. O sorriso estava lá. Eu, que tudo o que não precisava era de mais um casaco. Mas aquele não era só mais um casaco. Tinha pertencido a uma lady que se viu obrigada a seguir o marido para Nova Iorque no pós-guerra. Não era inglesa, era alemã, apesar do ar Notting Hill do casaco. Chamavam-lhe lady porque ela queria fugir ao estigma. Não uma frau e por isso adoçava os rrr quando falava. Trouxe o que pode e foi vendendo aos poucos o que tinha numa fuga que terminara ali. O casaco foi um dos último objectos. A história era agora contada pela vendedora, demasiado cinematográfica para ser verdadeira. Mas dei um rosto à tal da lady, dramatizei-a, encarnei a personagem e já não vesti o casaco que trazia. Fixei o vintage Borella estilizado por Fairmoor nos anos 50, e saí da feira vestida de lady numa tarde a pedir chá com bolos. E tudo por 50 dólares.

Perdição


Era Abril em Nova Iorque.
Abri o livro na página em que ela, a Patty, foi violada e sentei-me num bendito lugar na carruagem do E, a linha que faz ligação para a Lexington Avenue. Tudo vai fresco na cabeça.
O biergarten onde no sábado comi umas salsichas alemãs dera lugar a um kindergarten e era ver as criancinhas a correr e a gatinhar por entres as mesas e as cadeiras. Elas e as educadoras olharam para mim, não com tanta curiosidade e surpresa quanto eu olhei para elas. Como era possível? Era.
A prova estava naquela menina de uns dois anos que ria e dizia adeus pela janela enquanto eu colava o nariz no vidro não fosse andar a ver coisas.
Entrei na livraria umas portas abaixo e perdi-me. Nos títulos, nas capas e quando olhei tinha uma braçada de livros, mais olhos que barriga, mas um pouco de bom-senso lá moderou a conta para números menos proibitivos. Gula.

Uma hora depois voltava à chuva miudinha e o kindergarten voltava a ser biergarten. Já passava das seis e o cheiro a talco ainda persistia quando pedi o lanche.
O caminho não era aquele. Foi um atalho que saiu longo e levou uns trocos da carteira. São as coisas de andar perdida numa cidade por querer perder-me numa cidade. Como eu, tantos.

Aquela mulher que parece saída de New Orleans veio contra mim e deixou cair as compras quando não tirava os olhos da página do jornal que noticiava mais um crime do serial killer de Nova Iorque que andava por ali. “I’m sorry.” Ia eu a caminho de me perder no metro por achar pouco razoáveis as indicações do mapa. “Não duvides, menina. Põe questões”, lembrava-me eu do tal padre David.
E talvez por tudo isto quando me sentei no ‘E’ e li as passagens que contavam a violação tudo me pareceu real. A ficção de Jonathan Franzen, o menino bonito das letras norte-americanas que a Europa não se cansa de mimar, era demasiado real e não descolei os olhos.
A cidade agora estava no livro. Naquele “Freedom” que pressupõe que todos são o que são porque escolheram ser assim, mas que não é bem assim porque todos são as suas circunstâncias e as suas hipocrisias e os seus medos. A inocência não se ganha, perde-se. E lembro o sorriso da menina e o cheiro a pó-de-talco, longe da preocupação da mulher que foge do serial killer e se esquece das compras e do resto. Porque é ali. Tudo é ali.
São flashes de realidade numa ficção que parece bem mais contida e não conta a conversa dos rapazes que por sua vez contam ao cameraman italiano a dança na rua e o dinheiro que levam para casa numa linguagem mais de rua do que a dança.

E o italiano filma o inusitado. Eles sentados ou meio deitados no chão. Ele, como eu, vinha no metro. Queria realidade a cheirar a ficção e ela andava ali à mão de semear. Invejei-o na sua missão. Também eu quis ter a minha. Uma desculpa para questionar, um pretexto, qualquer coisa que me fizesse sair do silêncio da banalidade e me desse uma função, uma identidade, me tirasse daquele limbo em que para tentar entender a realidade vou à ficção e não sei onde pertenço.
Nem que fosse só a perguntadora.. Mas aqui é fácil ser simplesmente a que passa, banal para ser questionada, interpelada, nem por alguém que quer saber para onde vai aquele metro, que afinal não era o ‘E’. Como eu não quis saber julgando que sabia. Eu e o silêncio que saía de mim. Por isso tudo o resto ecoava, como no vazio. E foi o eco que me trouxe uma voz: “What’re you reading?”, e alguém me olhava e ao livro e esperava um resposta, de mim. A realidade chamava-me à ficção. Olhei num sentido e noutro e apontei a ficção à realidade quando dobrei o livro para revelar a capa sem sair do meu silêncio.

Eu era para lá estar

 

Hoje eu era para estar lá.
E se olhasse para o céu não seria para ver aviões. Vi-os aqui, onde estou agora, passar rasteiros perto de um polícia que vigiava um edifício supostamente de risco. Ele estava parado, ao vento do fim de tarde e a minha pergunta foi: o que poderia ele perante aquela bizarma voadora? Mas eu não era para ter visto isto.
Era para estar lá. Não pela data, não pela necessidade de recordar, de rever, de ouvir o que já tantas vezes se disse sem que o terror tivesse mudado o seu significado no dicionário: “pavor”; “grande receio”; “pânico”; qualidade de terrível. Depois vou ver “pavor”, umas páginas atrás e o que encontro é: “grande susto”; “medo”; “terror”.
Andamos às voltas com as páginas dez anos depois as palavras continuam a ser as mesmas, com significado circular.
Saímos do terror para lá voltar e para cada palavra uma imagem.

Terá sido isso que mudou? Eu hoje era para estar lá e já disse que não pela data, nem com um dicionário para me ajudar na minha ignorância.

concerto desafinado

Quatro da tarde. Mais minuto menos minuto, o chão tremia. Ou era o tecto. As paredes eram de certeza.
Começava o concerto no andar de cima, um ensaio desafinado e pontual que salvava da solidão mais absoluta as minhas tardes em Brooklyn.
Nunca soube da cara do tocador de bateria. Sabia que era dono de um daqueles passos que aprendi a distinguir pelo ritmo e peso do pisar, pelo poder de fazer ranger as escadas. E havia os mais e os menos poderosos nesse campo. Por exemplo, a menina do andar de baixo fazia tremer os degraus sem destoar o tremor das velhas paredes e do soalho de madeira da sua cantilena que tanto poderia ser de encantar como servir de banda sonora a um filme de terror, tal a cadência, a repetição melódica e de palavras e até de horário: todos os dias a partir das cinco da tarde e sem pausas ao fim de semana. Não. Ela só se fazia notar.
Em cima não. Era físico, pesado. Bateria para botas de fazer tremer o prédio de um castanho gasto pela neve e pelo sol. Talvez o tocador fosse um daqueles rapazes que encontrava à entrada, com um cão pela trela para o passeio diário.
Mas não. Esse descobri depois que morava ao lado da menina, em baixo, o que fazia bifes para jantar. O aroma a carne frita e alho não enganava ninguém, muito menos a um estrangeiro que sabe o que é o cheiro a bife com batatas fritas ao subir as escadas no fim de um dia de trabalho. Pois, não enganava o bife, como não enganava a toada forte da bateria.
Também não era o que vinha todas as manhãs com pão fresco para o pequeno almoço. Esse nunca subia as escadas. Morava em baixo e punha todos os sapatos à porta, não sei se por excesso de higiene ou falta de espaço no interior.
Também não era a rapariga que empurrava o carrinho de bebé até ao canto mais afastado das escadas antes de as subir com a criança ao colo. Nunca soube onde morava. Uma vez, ia eu a sair com o saco da roupa para a lavandaria, e pediu-me para lhe abrir a porta, que se esquecera da chave da rua. Não me deu para desconfiar, não sei porquê, afinal nunca a vira antes e ela bem podia estar a enganar-me, como me avisara o meu namorado irritado com a minha credulidade lisboeta. Estava ou não estava em Nova Iorque, a cidade onde o crime espreita? Pois, mas havia qualquer coisa na cara dela, talvez o modo expedito como pediu, um pouco envergonhado mas sem desculpas demais ou sequer toques de uma gaguez comprometida. Nada. Directa ao assunto, mas frágil como não podiam ser os braços do tocador de bateria que todas as tardes ensaiava no numero trezentos e tal da Clinton Avenue, mesmo no cruzar com a Washington. Aparecia e desaparecia, pontual.
Passos para cima, um concerto desafinado, passos para baixo e até amanhã.

Nunca me deu para ir espreitar. Nunca quis ver o rosto daquele que produzia ruído para os meus ouvidos mas me fazia querer fazer coisas, também eu, ainda que desafinadas. Ele ensaiava em cima. Eu, em baixo, só queria criar uma qualquer harmonia.

“Eu sou o escritor que não sofre”


A feira fechou, mas Ignacio del Valle ficou a dar autógrafos depois das luzes se apagarem e a conversar com quem descobriu na escrita dele a mesma compulsão detectada e elogiada por Urbano Tavares Rodrigues.
Depois de ler “Os Demónios de Berlim”, o mais recente romance de del Valle, o escritor português não descansou enquanto não conheceu o responsável por tê-lo feito passar uma noite em claro. Não foram insónias. Foi o prazer da leitura, esse tal jogo ou brincadeira que o espanhol Ignacio del Valle gosta de jogar, seja em campo, enquanto criativo, seja numa poltrona a recrear-se com o talento de gente como Cormac McCarthy, o americano desapiedado que conta histórias como quem dá murros certeiros, ou Eça de Queirós, o autor português que melhor conhece e que gosta de citar para provar que a boa literatura não tem idade.

Se a literatura tem uma função, e tem, é a de entreter e que não haja medo da palavra. “Não se retira prazer apenas do facilitismo. Uma peça de teatro é um prazer, um bom prato é um prazer, como é um prazer uma ópera ou um grande romance.” E que prazer aprender com as boas coisas da vida! É a melhor forma de adquirir conhecimento”, vai dizendo Ignacio del Valle.

Aos 40 anos, e depois do sucesso literário da trilogia que dedicou à II Guerra Mundial, del Valle prepara-se para mudar de território. E não é sem dor que se separa de Arturo Andrade, personagem com quem conviveu dez anos e da qual se despede agora como de uma relação amorosa. Arturo foi o protagonista de “Os Demónios de Berlim”, o thriller que começa com a invasão soviética naquela cidade dominada pelo caos, em 1945. Foi o derradeiro título de uma trilogia que começou com “A Arte de Matar Dragões”, ao qual se seguiu “O Tempo dos Imperadores”, a ser adaptado ao cinema por Gerardo Herrero. Um adeus sem data de regresso. Isto se houver regresso. Não por o tema se ter esgotado, mas porque “neste momento não tenho mais nenhuma questão a colocar”, justifica-se Ignacio del Valle, mais interessado por outro tempo, outra geografia. Para trás ficou a Europa, e o próximo romance, já concluído mas ainda sem data de edição, centra-se em Nova Iorque, a grande obsessão literária deste espanhol natural de Oviedo, onde nasceu em 1971, e actualmente a residir em Madrid.

É de Nova Iorque que parte uma história de amor passada na actualidade; é ali, naquela cidade onde Ignacio quer viver mas não morrer, que decorre também a maior parte deste a que concede chamar um romance político, embora “todos os romances sejam políticos”, defende. E todos são também histórias de amor. É disso que é feita a vida. De uma emoção que se cria e que nos move. E é disso também que se faz a literatura tal como a entende este escritor que gosta de ser contaminado pelo “american way” de contar uma história. Não ao jeito de Don DeLillo, autor de “Cosmopollis” ou o “Homem em Queda”: “Ele não escreve romances, mas ensaios. A diferença é que arranja personagens para dizerem aquilo que ele pensa.” Daí a preferência por Cormac McCarthy, “o fantástico narrador, seco, sem uma palavra a mais, que escreve sobre a condição humana através de histórias intemporais. ”Quem lhe dera ser contaminado, confessa sem esconder a admiração e a tal capacidade de escrever por imagens. Se a sua escrita é visual – e até tem um livro adaptado ao cinema –, então a culpa é de McCarthy, quem mais?

Com seis romances publicados até agora, traduzido em várias línguas, Ignacio espera a publicação do próximo romance com a expectativa de quem já conheceu o sucesso e sabe que ele lhe pode fugir. Sentiu, aliás, o amargo do fracasso. Um ano e meio passado a escrever um romance que ficou na gaveta por ser “mau de mais”. Lamenta, mas sabe exactamente onde estão os erros. Passou muito tempo a olhar para eles, a perceber as razões, a fragilidade e só depois avançou para o outro. O que já está escrito e há-de vir para as livrarias. “Foi difícil lidar com isso, mas não foi tempo perdido. Aprendi e só por isso estou aqui, continuo a escrever”. E não há amargura. Há um sorriso para dizer que a escrita não é uma angústia. Um prazer que dá muito trabalho. 95 por cento de suor e o resto é o tal incontrolável, que não sei de onde vem.” Se há o retrato do escritor sofredor não é o de Ignacio. Como, se me pagam para viajar, para estar nestes hotéis, para ir a bons restaurantes. Quantas pessoas não sonham com esta vida?” Ele sonhou um dia e por isso dedica 14 horas diárias à escrutina nos tempos em que está para nascer um livro. E não há tiques de vedeta. “Posso escrever em qualquer lado.” Poderia agora estar a escrever o romance de que não quer falar. Embrionário, top secret, com um cadáver para resolver, mas isso é o menos. O mais é emoção. É para a criar que existe a sua luta de escritor.