Tag Archives: oculos

o canto do mundo

Na jarra, flores de plástico amareleciam e a televisão estava coberta com um daqueles filtros que azulava qualquer imagem. Diziam que era para proteger os olhos de quem passava muito tempo a olhar o ecrã. Ela acreditava nisso e deixava-se recostar no sofá de napa que fazia barulho cada vez que ajeitava nele o corpo pesado.

A máquina de costura, ao lado, há muito que não tinha pés nos pedais. Só os das netas num equilibrismo pouco costureiro.
E a luz entrava pela janela de cortinas brancas, arredadas para melhor deixar entrar a luz do jardim que dava para o poço.
Levantava-se para aquecer a sopa, fazer o café ou quando uma vizinha chamava, da porta sempre aberta. Tirando isso, só desviava a atenção do aparelho colocado num dos cantos da sala para enxotar uma mosca ou quando o sono a vencia. Dizia que aquilo lhe trouxera o mundo a casa. Pena que só depois de velha, lamentava-se enquanto limpava as lentes dos óculos à bata que trazia sempre vestida por cima de uma saia e de uma blusa sem história.

Ela não sabia ler e por isso não havia nem um livro lá em casa. Era o seu maior desgosto. Nas prateleiras, cristais velhos cristalizava-se. Nas mesas, molduras de quando era nova ou dos novos que eram cada vez mais. O pai não a deixara aprender porque não a queria na “macholice”, dizia sempre como que para justificar uma ignorância de que se envergonhava mas da qual não se sentia culpada. Eram outros tempos, adiantava. Mas garantia que entendia tudo de um filme “estrangeiro”. Não precisava das legendas para nada. Não acreditam? Então que lhe peçam para contar a história do último que viu! Nunca lhe pediram, mas mesmo assim ela contava a quem se sentava ao lado para dois dedos de conversa. Este era sobre um rapaz que perdeu os pais e foi correr mundo à procura de fortuna. Encontrou uma rapariga rica, mas a família dela não o aceitou. Ela fugiu com ele, a pobre, e agora está a saber o que custa a vida.” Para ela as histórias não acabavam quando as letras “The End” surgiam no ecrã. Ela sabia o que queriam dizer tantas vezes as vira, mas depois continuava a pensar nas personagens que conhecera. “Que seria delas agora?” Calhava a ser uma neta a ouvir isto e encolhia os ombros não se atrevendo a questionar a avó. Elas sabiam que era assim, que não valia a pena cortar a fantasia àquela mulher. Era a ela que recorriam sempre que se queriam refugiar do mundo real.

A avó sabia dar a ficção necessária para que a realidade fizesse sentido, e tudo sem nunca ter lido um livro. Às vezes pedia que lhe lessem e punha um ar solene, uma mão a segurar o queixo enquanto o polegar massajava o rosto e o olhar se perdia lá para longe, para o mesmo sítio onde estava a televisão. Era daquele canto que lhe vinha o mundo.

Advertisements

Agosto está aí

Em agosto comecei a andar, em agosto vi pela primeira vez o mar e a nao houve grão de areia que não trincasse; em agosto soube o que era o som do amolador e as rodas das carroças de hortaliças a chegar à praca; em agosto comprei o meu primeiro livro com o meu primeiro dinheiro e não dei o meu primeiro beijo porque em agosto eu não tinha namorado; em agosto fiquei na rua, no degrau à noite, porque o meu pai confundiu a campainha com o despertador; em agosto comi caracois e carangueijos e tremoços com pevides; foi em agosto que andei numa bicicleta com duas rodinhas a ajudar as outras e nao houve agosto que me fizesse andar de bicicleta de outra maneira; em agosto a minha mãe usava óculos de sol do tamanho da cara dela e o meu pai ria do ridículo que achava aquilo que eu um dia queria imitar; em agosto eu andei com uns óculos do tamanho da minha cara e o meu pai nao se riu porque acho que estava distraído; ainda em agosto vi que a melhor vista do mundo pertencia a uma vaca num prado em s. Miguel, a vaca! Em agosto aprendi a fazer malas e nunca soube como as desfazer; em agosto vesti me de noiva e parti o salto do sapato tornado me uma noiva coxa que foi brincar ao carnaval de verão; em agosto fiz piqueniques com formigas a picar a língua, em agosto vi o que nunca pude ver antes, falei com quem nunca imaginei falar, chorei e ri, andei pelo país feita repórter num carro azul que perdeu a cor e soube quer podia ser marinheiro porque não enjooei num barco onde chegaram percebes e a notícia de um nascimento. Foi no mar. Em agosto amei, em agosto tive raiva e esqueci tudo. Em Agosto a minha avó caiu para nunca mais se levantar; em agosto cantei cantigas de embalar onde havia uma herói e uma menina que sabia falar inglês. Em agosto corri para ver o que nunca ninha visto; em agosto uma amiga muito amiga ia ter um bebé e teve, e eu, graças a ela, aprendi um dos  incondicionais do verbo amar; em agosto surgiu a Maria e agosto ha-de ser sempre dela. É quase quase agosto, Maria