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Suspensa.

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Os pés pisavam a geometria do passeio. Tinham de caber no quadrado da lage ou perdiam, como no jogo da macaca.

O corpo que transportavam era uma ausência. Sem tempo nem lugar.
Cabeça a digerir informação e totalmente entregue aos pés. Eles que guiem porque transporto, fresca, uma personagem que anda e não me quero afastar dela. Mahler soa. O homem que o escritor inventou gostava de andar e de música e de pássaros e queria saber dos outros.
Vou com Julius e ausento-me. O truque é deixar-se levar e ser como um voo.

Sigo os pés que pisam o passeio com o olhar, como sigo os rostos. Desvio-me do rapaz de corpo imenso, mais um corpo que não cabe em si. Procuro-lhe expressão. É igual à de outros corpos, como se na sua desmesura perdessem a capacidade de revelar outra coisa além de um enorme “estou aqui”. Tudo é excesso excepto a expressão. Olhos encovados, lábios salientes e um olhar para a frente que não é em frente. Vão rua acima, atravessando a ilha, e eu sempre a desviar-me daquele compacto. Encontro outro rapaz de skate a descer a Maddison, e outros skateboards com rapazes e algumas raparigas em Union Square. Nevou, mas não chega. Uns turistas com sotaque russo perguntam-me que edifício é aquele e fico muda por segundos. Não era eu a estranha? Central Station, digo. Ahhhhs e ohhhhhs e o flash a disparar e eu a desviar-me do frio. Um desvio para nada.

Os pés andam, mas não sinto o resto e a dormência ajuda a seguir. Ainda tenho fresca a conversa com o escritor que falava de Pessoa, que dizia que queria andar na cidade de Pessoa para saber mais do escritor. A geografia nunca é alheia, penso na minha dormência. Esta ajuda ao passo, instiga ideias. Deambular é criar. Pelo menos para mim, aqui, como no mar. E agora era andar até me perder… talvez me encontre ou alguém me procure. Não é bem isso. É voltar a ter de saber onde pertenço. Que expressão levo eu, agora de café na mão, a aquecer o passo perdido mas que sabe o caminho? Olho-me nas montras, mas vejo uma imagem distorcida. Não me reconheço mas sei que sou eu e alguém me sorri lá de dentro. Sorrio. Uma rapariga de leggings e ténis de corrida, corre. Não me vê. Olha o chão. Olho-o também. O mimetismo sempre a intrometer-se.

Não sei há quantas horas ando. Deixei de olhar para o relógio e essa é outra perdição. Boa. Não me apetece encontrar-me nas horas, que alguém me alerte para elas. Estou suspensa. E por agora é onde me apetece estar. A terra está cheia de vontade de nos expulsar.

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Às vezes o sapato é o limite

Viu que tinha chegado a um limite quando pôs os sapatos pretos de salto alto na mala de mão. Parou. Já tinha calcado o conteúdo e puxado o fecho, faltavam vinte minutos para o comboio e havia que atravessar uma cidade. Cabia tudo, como quase sempre. Mas agora baixava os braços. O relógio deixou de ter ponteiros, ou a corda partira-se. O tempo sentou-se com ela no sofá, mãos no rosto a aparar lágrimas que não pediram licença para cair.

O ciúme

Ele bateu com a porta.

Disse “até logo e um beijo” e ela teve um calafrio.

Dos romances, associou o eriçar do couro cabeludo, o frio no estômago, a água a chegar aos olhos até os turvar àquilo a que chamam ciúme. Sim ela ficou enciumada só com aquele “até logo e um beijo”. Medo de perder. Raiva irracional contra o mundo. Afinal anda alguém danadinho para lhe levar o objecto amado. Objecto amado? A expressão não soou bem, mas deixou-se ir na espiral. Sim, porque a ameaça anda lá fora e foi para lá que ele foi, e ela ali, sem poder fazer nada contra o mundo que continua a girar com a mesma indiferença. Sim, anda alguém a atacar a presa para a levar para bem longe e, ainda por cima, por vontade dela, da presa, que há-de ser seduzida por um sorriso, uma mini-saia, um decote.

Agrr…  É preciso defender-se, mas de quem? De todas. Não há historial de traição. E então? Então como explicar o arrepio sempre que pensava nele sozinho, a ir sabe-se lá para que sítios que ela não conhecia e com gente de que só ouvira falar por ele?

Claro que ela nunca confessaria. O ciúme era para os fracos, os inseguros e ela e era uma mulher segura. Sempre fora, mas e agora? Estava a roer as unhas. Nunca roía as unhas e nem gostava daquele sabor a pele e verniz.

Era preciso estratégia. “Um ciumento deve ter estratégia”, e o raciocínio era tão contorcionista quanto as voltas que dava às mãos para chegar ao melhor ângulo da última unha. Não se avisa: “cuidado, que eu tenho ciúmes!” Como era de gargalhada pensar nas perguntas que poderiam dar respostas de alerta ou sossego. Um ciumento não quer propriamente sossego para o ciúme, parece mais esperar um motivo para dizer: “Vês, vês”; “gotcha”. E seguia-se o “não mereço” do costume. Porque para o ciumento ninguém é tão capaz de amar como ele e aí entra a variável mérito. Não há mais ninguém com a mesma capacidade de amar, e o rival não passa de um canalha cujo fim é “dar cabo de nós”. E são olhinhos e avanços vindos de todo o lado, flechas de falsos cupidos, disparadas sem tréguas. Santa imaginação, maldita imaginação. É dela que vem o cíume? Então o ciúme é dos criativos?! Hummm…
Agora dava jeito outra unha para roer.