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Assis Pacheco

O tempo desfaz-se em pó por cima do livro esquecido. Quantos anos? Antes de passar o dedo tento adivinhar a capa. Parece rosa, mas está velho. Luz e pó deformam uma cor. As telhas são vãs neste sótão de aldeia. Passo o dedo e confirmo ser o livro que há muito achava perdido. “Retratos Falados”, uma edição da Asa, uma relíquia que não sei como foi parar à pilha do esquecimento. Pego num trapo ainda mais velho do que o rosa da capa e limpo o tempo a um dos livros que me fez querer ser qualquer coisa.

Saber perguntar assim, ter aquela língua de perguntador, certeira, irónica, curiosa, capaz de criar no outro um grau de cumplicidade que o leva, ao perguntado, a deixar cair as armas, ao desconcerto. E saber a deixa, sempre, ser interlocutor numa conversa mais do que ser entrevistador.

Foi naquele livro que li pela primeira vez Fernando Assis Pacheco. Li-o nas perguntas e nas respostas a que elas levavam e eu quis saber fazer aquilo.

Aprende-se? Alguma vez se aprende a ser assim, a fazer assim? Mas tarde soube que se pode tentar, mas só ele sabia ser assim. Li-lhe depois os poemas, todos os livros. Fui ver como uma das suas filhas lhe ilustrou capas de obras póstumas. Amigos que privaram com ele contaram-me que ia em reportagem, e não tomava uma nota e era capaz de contar a história como ninguém. Cada vez o admirava mais.
Quando comecei  também a perguntar quis um dia poder perguntar-lhe, mas a vergonha ia-me impedindo até que ele um dia, cedo de mais, não voltou a perguntar nem a contar, nem a fazer poemas com a vida. Sem nunca o ter conhecido pessoalmente, chorei. Confesso agora sem vergonha das lágrimas, mas envergonhada pelo meu orgulho, a pena de nunca ter tido coragem de lhe perguntar o que quer que fosse mesmo que tivesse feito triste figura.

Volto ao pó. Peguei no livro e limpei-lhe o tempo depois de ter lido a biografia que a Tinta da China acaba de editar sobre Assis Pacheco. Quis voltar a ler-lhe as perguntas e sabia que esse livro tinha de existir. “Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco”, de Nuno Costa Santos, título inspirado em “Benito Prada” e na Galiza que corria no sangue do coimbrão.

Voltei às entrevistas de papel amarelo, feitas a gente que já morreu ou já perdemos ao vasto horizonte do tempo. Só ele, Assis, escapou ao pó.

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Vá, escolhe…

Vá, escolhe. Milhares de lombadas perfilam-se de todas as cores numa ordem que acabou por se desordenar. Escondem gente. Nomes, terras, ambientes, lágrimas e gargalhadas. Há sublinhados, folhas dobradas e pó que se acumula e não se vê em papel mais amarelecido. Mais branco, com mais ou menos tempo, mais ou menos luz. Há grãos de areia de uma praia que vive na memória. Há uma mancha de café, um cheiro, uma factura esquecida que já não entra noutra contabilidade que não a da história de um dia onde houveram outras facturas.

Vá, escolhe. Escolhe entre essas milhares de lombadas a que faz a diferença. A que fez a diferença. Tantos livros e nada para ler. Como quando se abre um roupeiro. Tanta roupa e nada que vestir. Há que ir às compras. Encher mais prateleiras, comparar uma estante nova para os livros que andam pelo chão e invadem o espaço como insectos com cio. Crescem e multiplicam-se como se tivessem vida própria. E não têm.

Vai, escolhe. Entre os lidos e os não lidos, os que se sabem que nunca se irão ler e aqueles que estão prometidos para um dia, umas férias onde haverá tempo, um tempo em que não irá haver interrupções. O telefone não toca, a criança não chora, nem haverá a culpa do que não se faz por estar a ler. A visita que ficou por fazer aos pais, a tarde na praia, o filme que vai sair de cartaz. Esses são os livros que um dia… Um dia, certamente. E depois os outros, os que se pegam displicentemente, como quem não quer e que se colam às mãos, aos olhos. Uma frase, uma vida que se pega e não os deixa voltar tão depressa à prateleira.

Vá, escolhe entre esses milhares os que levas e os que deixas para um dia, quando tiveres tempo. Os que ainda não foram parar ao quarto entre os vários a mendigar uma abébia de sono e entre os que o roubam descaradamente, sem complacência pelo que vem a seguir. No silêncio há menos culpa pelo que se lê.

Vá, escolhe. Lembras a frase que copiaste para o caderno como quem a quer eternizar fora do contexto em que alguém a colocou como se valesse só por si? Solitária e completa. Uma frase. Um ambiente que aparece em flashes numa memoria que não obedece a calendários  nem conhece cronologia. Vem ao acaso.

Vá, escolhe. São milhares e o ‘P’ já não vem antes do ‘Q’, que é como quem diz que também não há alfabeto que resista à cadência das entradas nem à arrumação da mulher a dias que numa mudança de casa decidiu arrumá-los por cores. Um arco-íris de lombadas e a memoria a ditar que o rosa velho está perto do castanho claro, ente alguns salmões.

Vá, escolhe. Os clássicos, os contemporâneos, os que arriscam e não têm género, os de policias e ladrões, os de fazer chorar as pedras da calçada e aqueles que fizeram cair uma lágrima que demorou nos a desfazer-se, que ainda não se desfez sempre que a lombada se impõe.

Vá, escolhe. O espaço não se compadece e as malas têm limite de peso. E então “O Amor nos Tempos de Cólera” não pode ficar para trás e “Em Busca do Tempo Perdido” não é coisa que se deixe.  Ah! “Crime e Castigo” para quem se esquecer de “O Som e a Fúria”. Vá, escolhe. O novo romancista que está a dar cartas e ameaça fazer escola. E o calhamaço que saiu no Verão e tem de ser lido antes que acabem as conversas onde ele pode entrar.

Vá, escolhe. Não há muito tempo e as malas estão quase cheias e o peso custa dinheiro. Não vale olhar para trás. Como estes muitos vão chegar. Mas que raio, é preciso não esquecer aquele que vai fazer falta quando tudo desabar. E esse qual é?

Vá, escolhe. Nada de dramas. Afinal hás-de voltar. Qualquer bilhete pode ter regresso e aquelas lombadas não passam de guardiãs de palavras que alguém ordenou numa certa ordem. Também tu podes dar ordem às tuas e não tem necessariamente de ser em papel. És ou não do teu tempo?

Vá, escolhe. Entre o que vai e o que fica já sabes que sais derrotada. Leva um, só um. Fecha os olhos. Tira ao calhas. Já sabes que dói por isso para quê o drama? Um, só um. Nada de batota. Roda o corpo, despista as coordenadas. Nada de jogo viciado. Vais embora e só tens direito a uma lombada. Os braços baixam-se. Os olhos abrem-se. Olham o conjunto, têm pena de o desfazer.

Vá, escolhe. Os ponteiros do relógio não sabem o que é isso da hesitação. Vá, vá, vá,… a cadência aumenta e quer-se um livro que comporte em si a falta dos outros. O tempo está a acabar. Agora ou nunca.

Vá, vá… tudo teria sido tão mais fácil se a mulher a dias não tivesse escolhido aquela arrumação em arco íris. Como desfazê-lo? E lá vêm as palavras da tua avô: “Pede um desejo sempre que vires o princípio e o fim desse arco de cores”. Ela que não sabia ler as palavras mas que as ordenava sem livro.

Vá, escolhe… Pois que fique o arco-íris. Nem que seja reflectido na lágrima de quem deixa para trás a paleta de cores que há-de ficar ali, com o seu princípio e fim, pronta a satisfazer desejos. Basta que no regresso se sopre o pó.

(crónica publicada no Diário Económico)