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Os remorsos de Urbano

26 de Agosto de 2007, Urbano Tavares Rodrigues surge-me sentado numa cadeira, a uma janela de Lisboa, a brincar com o seu filho António. Estava a recuperar de um susto cardíaco. Não sabia se iria continuar a escrever. A vida provou que sim e António já deve saber ler a escrita do pai. Fica a entrevista que então publiquei, resultado de uma conversa sobre memórias.

Sempre fui um predador

Vai sair em Outubro um romance seu sobre D. António, prior do Crato, um homem que foi rei dois dias e lutou para manter a coroa portuguesa independente de Castela. O livro sai pouco depois de outro escritor, seu camarada de partido, o PCP, ter declarado que Portugal e Espanha vão ser, mais cedo ou mais tarde, um único país. Partilha esta ideia com José Saramago? 
Não. Não concordo de maneira nenhuma. Há muito que o meu herói era o prior do Crato e também tenho simpatia por Aljubarrota. Tenho um grande apreço pela cultura espanhola, mas não aceito a invasão espanhola. Não aceito ver Portugal transformado numa região de Espanha.

Em Ao Contrário das Ondas (Dom Quixote, 2006)traça um retrato negro do País. O que pensa do momento que Portugal atravessa actualmente?
Olho para Portugal com tristeza. O capitalismo neoliberal está a ser aplicado com características autoritárias pelo Governo que se diz socialista e que não tem nada uma política socialista. Tudo isso me entristece profundamente.

Este ano comemoram-se os 80 anos da Revolução Russa. Que sentido faz ser comunista hoje?
Ser comunista é, antes de mais, apreciar e admirar a atitude do Partido Comunista, a que pertenço em Portugal: defender os direitos dos trabalhadores até ao limite do possível. Essa é a missão de um partido comunista neste momento.

Continua a definir-se como um comunista?
Sim, continuo a definir-me como um homem comunista, mas não sei o que o futuro me reserva, que tipo de democracias haverá. O capitalismo neoliberal irá explodir, porque cada vez há mais bolsas de miséria, formas diversas de escravatura e há pessoas de direita que começam a sentir, com um desejo reformista, que isto possa transformar-se…

No seu entender, em quê?
Pois, não é a minha ideia. Mas não é possível fazer voltar a social-democracia.

E é possível fazer regressar o comunismo?
O comunismo da União Soviética nunca mais regressará.

Que comunismo então?
Terá de ser qualquer coisa nova. Não sou futurólogo, mas penso que haverá caminhos diversos, consoante os continentes, as condições e a vontade dos próprios povos; consoante as suas experiências. Quando falo em democracias, não falo em falsas democracias, como acho que neste momento é a nossa, mas numa democracia, por exemplo, como a que foi praticada em Porto Alegre quando houve a união do PT e do Partido Comunista dos Trabalhadores. Era uma experiência nova de democracia socialista.

É um modelo, para si?
Foi uma hipótese. Há muitas hipóteses. Não sei como vão surgir. Mas penso absolutamente que vão surgir. Há muito descontentamento.

A sua obra literária foi prejudicada pelo facto de sempre ter manifestado abertamente a sua ideologia, de ser um comunista?
Sim. Durante muito tempo o meu nome foi afastado dos meios de comunicação, até que a idade, o prestígio, o facto de nós deixarmos de ser perigosos… Tudo isso fez com que me dessem atenção.

Já não é um homem perigoso?
Os comunistas não são considerados, neste momento, homens perigosos.
Apesar da luta política, sempre disse que o amor foi o seu grande tema…
De facto. Os meus grandes temas foram o amor, a morte e o tempo.

Como é que o homem Urbano Tavares Rodrigues lida com cada um desses temas?
O tempo é o grande inimigo. Corrompe os sentimentos, degrada-os, especialmente o amor. O tempo faz apodrecer o amor. Mas o tempo também traz sabedoria, um conhecimento cada vez mais aprofundado dos seres humanos e das té-cnicas literárias, das formas de contar, o virtuosismo da narração.

E a relação com a morte, ou com o tempo que dura a vida?
Estamos sempre morrendo, mas, a certa altura, há uma revolta contra essa sombra… Normalmente na adolescência, quando a existência parece prometer-nos tudo. O Albert Camus dá muito bem isso na obra dele; esse sentimento de que a vida nos promete tudo e o que nos dá realmente é a condenação à morte.

Depois, há uma aceitação progressiva e que leva a olhar a morte com serenidade.
Tem medo de não ter tempo para fazer tudo o que lhe apetece, ou isso não o angustia?

Não me angustia, embora gostasse de deixar cá fora mais coisas. O que me angustia mais é deixar a minha mulher e os meus filhos, que precisam de mim. Tanto o António Urbano como a Isabel precisam do apoio material que lhes dou.

Para já, vai sair com um novo romance sobre o seu herói, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato. O que tem este homem de tão especial para lhe chamar herói?
Um patriota que num país vendido a Castela levanta um exército popular, pega no que resta da cavalaria de Alcácer Quibir, um exército vestido e armado à pressa que, mesmo assim, obriga os castelhanos a recuar. Mais tarde, a força numérica impõe-se e é uma derrota. Ele é um homem de múltiplas dimensões. É uma figura apaixonante. E este é o meu romance de que mais gosto. O prior do Crato é um homem erótico que teve muitas mulheres, dez filhos. É um homem religioso, que mantém sempre um diálogo com Deus, embora aos 16 anos ele tenha recusado as ordens de castidade. É também um intelectual. Fui escrevendo, escrevendo e vi surgir ali a História de Portugal, até a história da Europa, e vendo aparecer esta figura fantástica em todas as dimensões. Ele é o patriota puro, que se opõe à traição e que é ferido por um português traidor. É um homem também religioso no sentido da paixão quase panteística pela terra. Quanto terminei e reli as provas achei que tinha conseguido escrever um grande romance e um romance em que, neste momento em que há novamente uma invasão de Castela, sobretudo económica .

Acha que há paralelismo entre os dois momentos da História?
É evidente. Portugal está numa decadência extrema. Perdemos o orgulho, o sentimento patriótico. O prior do Crato levanta tudo isso.

Revê-se nesse homem?
O meu irmão Miguel [Urbano Rodrigues], quando leu o livro, disse-me: “Este é um grande livro, mas este prior do Crato tem muito de Urbano Tavares Rodrigues.”

Porquê?
Tive sempre qualquer coisa de cavaleiro andante, desde a adolescência. Antes de tomar o rumo, de querer transformar o mundo e transformar a vida e pôr a minha acção ao serviço disso, tive quase o amor do risco pelo risco. Era um homem de aventura em todos os sentidos, do acto gratuito, quase quixotesco. Há muita coisa que conduz ao grande perdedor.

Considera-se um grande perdedor?
Eu fui um grande perdedor. Em muitas coisas. Fui preso, fui torturado…

É como perdedor que se vê hoje?
(Silêncio) Sou alguém com uma obra que fica depois de mim.

Falava dos remorsos que o prior do Crato teve em relação a certas mulheres. Esse remorso também existe em si?
Sim. Sim. A minha relação com o sexo feminino limita-se hoje à milha mulher (risos). Mas eu olho e olhei sempre com encantamento para a mulher. A mulher como amiga, como namorada, como amante. A mulher foi sempre, para mim, uma forma de compreender melhor o mundo, de ir às raízes da vida. A experiência da mulher é, para mim, uma experiência erótica ou foi muito uma experiência erótica, mas algumas vezes pensei que estava a usar mulheres um pouco como instrumentos.

Instrumentos de quê?
A sugar tudo o que elas me podiam trazer de compreensão mais ampla do mundo.

Foi egoísta?
Sim, fui e acusei-me disso a mim próprio. Mas, por outro lado, desculpava-me. Era a altura do make love not war. Havia uma grande liberdade e nem sempre era eu que me aproximava das mulheres. Eram elas que se aproximavam de mim também.

E era difícil resistir?
Era. (risos)

Lembra-se de todas as mulheres que passaram pela sua vida?
Não, não me lembro. (Silêncio) Às vezes penso nisso. É a memória. Não me lembro de coisas muito fugazes. Às mais importantes, com quem tive um envolvimento afectivo e erótico, não se pode fugir. Nem com a memória. |

Os últimos dois anos foram especialmente ricos para si. Traduziu Decameron, escreveu um romance, lançou as suas obras completas, teve um filho e vem aí outro romance…
Exacto, mas em relação ao filho passamos ao de cima que não gosto de sensacionalismo. Isso é uma coisa que atrai muito as revistas de moda… Mas adoro o menino. É um encantamento.

É verdade que já quase não sai de casa?
Por causa destes andares. São dois, quase três.

Nem para férias?
Pensei nisso por causa deles. Tinha pensado ir para o pé do mar…

Nadava todos os dias…
Sim, gostava imenso de nadar, mas agora não posso por causa da insuficiência cardíaca que me detectaram. Nadei toda a vida.

O que planeia ainda escrever?
Tenho um livro de contos pronto. Não sei quando será publicado. Chama-se A Última Colina e uma coisa que se chama O Cornetim Encarnado, onde tenho reflexões, bocados de diário, poemas, pequenos contos, memórias até. Está para aí.

Não vai publicar?
Não sei.

O que ocupa mais espaço nessas memórias?
O lembrar-me… Por exemplo, uma evocação dos meus encontros com Vinícius de Moraes. Eu era professor na Sorbonne, muito jovem, e encarregado de curso, e o Vinícius era secretário da embaixada. Comecei a falar com ele numa festa de Carnaval em que ele esteve a tocar violão. Lembro-me de amigos que tive e evoluíram diferentemente na vida e foram figuras marcantes na minha obra. Estão no princípio e, quem souber ler, vê que continuam lá. Albert Camus, Jean-Paul Sartre, André Malraux. Fui amigo do Camus, conheci um pouco Sartre, dei-me com ele, estivemos juntos num congresso para a liberdade da cultura em Florença. Com o Malraux dei-me pouco mas é como se me tivesse dado sempre. Livros como A Esperança ou A Condição Humana marcaram para sempre a minha personalidade e a minha obra

O que lê, agora?
Continuo a ler muito. Li recentemente um livro muito interessante que recomendo, do Santiago Gamboa, A Síndrome de Ulisses

A sua escrita tem um sítio…
O Alentejo, Lisboa, Paris…

Mantém uma rotina diária de escrita?
Não consigo. Escrevo de vez em quando num caderno.

Escreve nesta secretária?
Muitas vezes. Mas não tenho sítio fixo. Quando a luz é boa venho para aqui, outras vezes escrevo lá dentro… Temos um living e tenho lá o meu cantinho com o candeeiro.

É um homem de hábitos?
Nunca fui um homem de hábitos. Agora tenho alguns. Deve ser por estar em casa.

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saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

Tabucchi, o homem que escrevia de pé


Vê-mo-lo ao longe. Uma figura debaixo de um imenso pinheiro manso a
 fazer gestos com os braços para indicar o lugar certo. É ali, naquele refúgio alentejano perto do mar, que António Tabucchi aceita ser o anfitrião de uma conversa que nem ele sabe onde o irá levar. É uma conversa solta, com a informalidade dos calções que traz vestidos e insiste trocar por umas calças para as fotografias. “Assim pareço mais sério”, diz, irónico. O italiano mais português da literatura sente-se alentejano no Alentejo e gosta de se perder a olhar o céu ou a mergulhar na água fria do Atlântico. Sente-se em casa e espera um amigo para cozinhar um jantar para outros amigos. Há convidados e uma casa cheia como gosta neste país que chama de seu.

António Tabucchi, italiano com várias pátrias, escolheu Portugal como refúgio. Sabe o país quase de cor. Conhece-o quase a palmo. Sabe os cantos onde melhor se come, os livros que guardam a melhor escrita. Atento, risonho, afável, escolhe cada palavra que usa na fala como se a estivesse a escrever. É isso um escritor. Saber pôr no lugar cada palavra, a única, aquela que encaixa perfeita na sintaxe.

Quanto tempo passa neste refúgio?
Aqui, pouco. Gosto de vir cá sobretudo no Inverno para escrever. É uma maravilha, uma calma… Só cá estão as pessoas da aldeia.

Toda a gente o conhece por aqui?
Sim, sim. Somos familiares. São uma simpatia de pessoas. O clima pode ser um bocadinho rígido, mas é um refúgio.

Precisa de silêncio para escrever?
Eu? Não necessariamente. Posso escrever nos cafés. Gosto de escrever nos cafés quando estou em Paris. Sentir as pessoas. Escrever é uma profissão solitária que pode dar muita solidão, de maneira que intuir, sentir pessoas à nossa volta não é nada mau.

Sempre de cigarro na mão?
Eu fumo com moderação.

É um homem solitário?
Não. Não. Gosto de companhia. Mas há várias fases da escrita. Quando se está a pensar numa primeira fase, quando uma história está a nascer, até se pode escrever em companhia, com sons, ruídos, vozes, mas depois há uma fase mais artesanal. Isto é para desmistificar um pouco a ideia da escrita. Há um cliché e não se pensa muito no trabalho, no labor que a escrita requer.

É um trabalho de oficina?
Exactamente. E naquele momento, depois de ter lançado uma história no papel, é preciso trabalhar como faz um carpinteiro, porque as peças têm de encaixar e as palavras também. Às vezes uma palavra não chega e é preciso outra e outra. Creio que isso se passa com todos os escritores. Trabalhamos com palavras. O texto é feito de palavras, substancialmente, e portanto as palavras merecem respeito. É como um pintor que trabalha com as cores. Ele quer um azul,mas há vários tipos de azul, de maneira que nesta grande área semântica que uma palavra fornece é preciso escolher com cuidado aquela que é justa, justa para aquela frase. “Animais doentes as palavras, também elas”, dizia o Alexandre O’Neill. Às vezes as palavras adoecem.

Adoecem em que sentido?
Não sei. Por vezes vejo palavras serem muito mal tratadas, com pouco cuidado. E adoece-me a linguagem adoece.

É por isso que está sempre a experimentar fórmulas novas para a sua escrita?
É. Escrever é uma maneira de pesquisa de perceber, ou tentar perceber a alma humana, as nossas complicações. E qual é o instrumento que o escritor tem? As palavras.

O que é para si um romance? Tem que ter uma história, uma narrativa?
Acho que na modernidade, e o Kundera tem um ensaio lindo sobre isso, o romance é uma forma muito aberta e tem já muito pouco a ver com o romance tradicional do século XIX. Como Eça de Queiroz ou o Stendhal ou o Victor Hugo ou o Balzac. É uma forma muito aberta e muito hospitaleira. É uma forma elástica onde se podem deixar vários tipos de textos, diálogos, cartas, enfim, na modernidade… “O Processo” ou “O Castelo” de Kafka serão romances de horror, romances de mistério, romances de ódio… A obra completa do Pessoa, pensando bem, o que é senão uma grande, gigantesca e curiosa forma romanesca. É um grande romance. Parece a “Comédia Humana” só que é escrita em poesia.

E que história acha que conta?
Conta várias, como pode contar uma obra-prima.

Conta um país?
Claro. Conta um país, conta o amor, conta os vários amores. Conta os amores de Álvaro de Campos, mas conta a pobre corcunda que escreve a carta ao homem que passa pela rua, como conta a filosofia de um doido que está numa clínica em Cascais, como conta as metafísicas de um guarda-livros que se chama Bernardo Soares que vive numa mansarda na Baixa de Lisboa… Tem um respiro gigantesco. Só os génios têm esta capacidade de respiração. Devia ter uns pulmões deste tamanho… É “Goethiano” é Goethe, é Homero, é homérico. É titânico. É gigante.

Traduziu a poesia de Pessoa. Não se acha um poeta?
Não! [Fala sobre a Bea, a “neta linda” e poliglota de cinco anos]

O António é um homem de muitos humores?
Todos nós somos, todos nós. Há pessoas mais estáveis que outras. Sim, os escritores são mais humorais, acho. Se calhar estou enganado…

“Tristão Morre”, o seu último romance, é um livro muito forte devido à temática da dor e da morte. São coisas que o atormentam?
A morte é agonia e sofrimento, também. Ele tem uma gangrena que está a roer-lhe uma perna, um homem no fim da sua vida, é atormentado pela dor. Isto implicava falar e escrever não só sobre a morte mas também sobre o sofrimento.

Foi difícil escrever esse livro?
Bastante. Porque precisa de um esforço, de um salto bastante alto. Para uma pessoa de uma certa idade e com uma certa experiência é difícil pôr-se no papel de um homem de 80 anos… Todo o século dele, as histórias que eu não vivi, e está a ser atormentado pela dor. É difícil descrever a dor alheia embora eu possa ter experiência de ver sofrer pessoas,mas o sofrimento é uma coisa muito difícil. Pôr no papel aquilo que é a essência de quando o corpo adoece ou é atormentado, ainda pior. O que mais me horroriza não é só a dor, mas a dor que os outros possam infligir ao nosso corpo. A tortura… uma coisa desumana. E curiosamente ainda não a conseguiram eliminar. Há muitos países debaixo da tortura. Qual deve ser o papel do intelectual? Suspeitar. Ter suspeitas, ter dúvidas. A dúvida é importante. Pensar que há verdades que podem ser mentirosas. Estar com muita atenção e informar-se. Percebemos que há verdades que são mentiras. É uma forma de vigilância, digamos assim. Não pertence só ao escritor mas a qualquer intelectual que tenha possibilidade e capacidade de comunicar com os outros de forma pública. E nós sabemos que a mentira continua a circular. Circula nos países mais democráticos do mundo, como a América, como a Inglaterra, como Itália, porque a mentira é intrínseca a qualquer forma política e até à democracia. Portanto acho que o papel de um escritor é vigiar. Depois, se esta atenção não chega, ter dúvidas, ter dúvidas.

Foi Pessoa que o trouxe a Lisboa?
No fundo, foi. Mas não foi ele que me fez ficar.

O que o fez ficar?
Outras pessoas. A literatura pode ser…

A primeira vez que vem a Lisboa é em 1965?
Sim, com uma bolsa. Estava inscrito no primeiro ano da Universidade, em Itália. Mas descobri o Pessoa em Paris… na altura nem fazia bem ideia de onde ficava Portugal. Naquela altura, a Europa não sabia muito bem onde ficava Portugal. Portugal tinha virado as costas à Europa e a Europa tinha-lhe virado as costas. O que interessava a Portugal era a Guerra colonial. As colónias, sobretudo, e a guerra colonial. Sabia mais alguma coisa de Espanha porque Espanha tinha tido uma guerra civil violentíssima que tinha, digamos assim, colado na Europa inteira no mapa mundial. Portugal era um país pequenino, fechado, com grandes colónias e a Europa não sabia nada dele. De maneira que li um poema… “A Tabacaria”.

Era estudante nessa altura.
Estudante é dizer muito. Fingia que era estudante. Estudava filosofia. É uma estória simples, um acaso, um imprevisto, está a ver? Como dizia um filósofo “o inevitável nunca acontece, o imprevisto acontece sempre”, o que é bonito. Bom, depois quando cheguei a Itália inscrevi-me na faculdade de Letras, em filosofia, vi que havia um departamento de Filologia – eu sou filólogo, como profissão – e também havia um ensino de Língua e Literatura portuguesa e aí ouvi também aquele magnífico poema que eu tinha lido no comboio. Inscrevi-me no curso. Também acidentalmente, e como era um dos melhores estudantes, ofereceram-me uma bolsa para passar aqui o Verão e fazer o curso de estudantes estrangeiros. É assim que venho a Portugal. Encontrei pessoas, fiquei muito tocado por um Portugal que era um Portugal de 65.

Que Portugal era esse?
Era um Portugal muito pobre. Muito melancólico, muito solitário, muito deixado sozinho, com muitos escritores – conheci vários escritores – sobretudo de uma geração que não era a minha.

Mais velhos?
Sim. Os meus primeiros amigos foram o Alexandre O’Neill, Cardoso Pires, pessoas daquela geração. Porque também havia…

…uma partilha de ideais…
Não, não propriamente. Seria demais dizer isso. Havia uma comparticipação sentimental e humana muito forte. Um pano de fundo muito claro: todos eles eram anti-salazaristas e esse era o pano de fundo fundamental. Mas, pelo que me diz respeito, conheci alguns deles porque havia amigos ou familiares deles que viviam em Roma, exilados, alguns trabalhavam, e havia um professor que conheci na Universidade e que me encarregou de levar umas cartas… Enfim, tive possibilidade de conhecer pessoas, escritores e artistas que tinham assumido uma posição democrática e anti-totalitária, anti-salazarista,muito evidente e levavam uma vida muito difícil, modesta. A Pide andava sempre de olho neles. Era o Portugal de 65.

Foi esse Portugal triste que o seduziu?
Se eu tivesse andado assim, comestes sapatos que tenho agora (de pano) pela rua fora, as pessoas olhariam para mim com ar escandalizadíssimo. Era um Portugal que a Isabel não pode imaginar. Era realmente arcaico, mais arcaico do que sou eu agora. Muito mais. E respirava-se uma atmosfera muito pesada. Ao mesmo tempo havia umas pessoas com uma inteligência absolutamente brilhante; com uma generosidade enorme e um companheirismo muito grande. Aquilo foi, obviamente, um‘coup de foudre’. E nasceu uma solidariedade muito forte. Falta dizer que conheci a Maria José. Ela era uma estudante mais ou menos da minha idade. Mais nova. Conheci a mulher da minha vida… Foram todas estas circunstâncias que me fizeram ficar e também o facto de Portugal ser aquele Portugal, com aquela situação. Eu era um estudante que vinha de Paris onde tinha passado um ano. Se calhar, se tivesse ido para Estocolmo, não teria acontecido o mesmo encaixe. Teria encontrado uma cidade muito bonita, muito democrática, teria conhecido uma senhora, loura, pela qual se calhar não me teria apaixonado – estou a fazer a história ao contrário–mas é a vida que se encarrega de fazer as coisas. Há um filósofo que diz que nós pensamos, mas que sobretudo somos pensados porque é o pensamento que está a pensarnos como se o pensamento fosse autónomo. E a vida tem uma tal autonomia…!

E o António deixa-se embalar por ela.
É preciso tambémtentar dar o mínimo de rumo às coisas. Se não seria um rio sem margens.

E o que é isso de ser um vagabundo?
Ser um vagabundo significa ser uma pessoa que se aborrece e que gosta de
mudar de sítio.

E é por isso que hoje está aqui, depois está em Itália, em Paris?
Também porque gosto de viajar.

Falou-me há pouco de quando chegou a Portugal, do Portugal que viu em 65.
Passaram muitos anos.

Neste momento que Portugal é que vê?
Muito melhor. Felizmente. Portugal é um país inserido perfeitamente na Europa. Conservou muitas características mas acolheu, até com bastante desenvoltura, a modernidade. É um país onde as pessoas podem ter uma vida digna. Onde as pessoas não são presas sem razão, onde não se cometem abusos, onde há uma democracia a funcionar. Onde há eleitores. E quando os eleitores não gostam do tipo de administração, têm a possibilidade de dizer “agora os senhores vão para casa que vamos eleger outro”.

Não vota em Portugal. Poderia votar. Decidiu não o fazer.
É que às vezes quando há eleições não me encontro em Portugal.

Encontra uma família política com a qual se identifique aqui em Portugal?
Famílias políticas, exactamente não. Eu nunca tive etiquetas. Famílias políticas,hoje em dia, para mim, são aquelas que mais representam um comportamento ético mais do que ideológico. Aliás, fala-se muito do fim das ideologias. Acho que as ideologias, sobretudo, as que tornaram trágico o século passado, o XX, é bom que já não tenham razão de existir. Mas as razões éticas são fundamentais. O que interessa é ‘surveiller, pas punir’ mas, vigiar uma classe política ou o poder, seja qual for.

Esquerda ou direita?
Se for um tipo de direita que se inspira em doutrinas fascizantes como o século passado, é óbvio que é um tipo de direita que não tem nada a ver comigo, que eu rejeito. Estão a verificar-se várias manifestações em Itália, como na Hungria, e em vários países do bloco comunista; estão a voltar neo-nazis, um anti-semitismo muito rigoroso… Portanto esta Europa… neste momento a democracia europeia…

Está em risco?
Não, não está em risco, tem algumas febres passageiras. Parece-me que o Conselho da Europa não presta suficiente atenção a fenómenos que podem ser perigosos e que podem vir a dar problemas muito grandes. Há um continente, que é a Europa, que inventou o fascismo. Os outros não inventaram, fomos nós. É um ‘made in Europe’. Eu sou um europeísta convencido e sempre o fui. Mas queria chamar o CE a maiores responsabilidades.

Posso dizer que é de esquerda.
De direita não sou de certeza. Esquerda, depende. A esquerda, em geral… democrático liberal, talvez. Mas é evidente que um democrático liberal, votando.

Está a escrever actualmente?
Neste momento, nada. Neste momento, leio porque também é outra forma de escrever, é outra face da medalha.

E lê o quê?
Eu leio tudo.

Lê os escritores portugueses da actualidade?
Olhe, comecei a ler um romance de um escritor que conheci recentemente e que se chama Rui Cardoso Martins mas simultaneamente leio muitas outras coisas.

Gostou desse livro?
Muito bonito, muito interessante, muito curioso. Com uma grande força. Eu gosto de tudo, quer dizer, não sou sistemático nas minhas leituras.

Foi um conselho de alguém?
Não, foi uma descoberta minha porque eu tinha lido um livro anterior de contos do qual tinha gostado. E portanto saiu este e comprei e o Rui mandou-mo mas não é obrigatório ler todos os livros que me mandam. Simultaneamente estou a reler um outro livro magnífico que é “Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaño. Sabe, depende da hora do dia.

A escrita também tem horas, rotinas?
Quando escrevo, sim, tenho. Quando escrevo a primeira versão das minhas coisas gosto de escrever entre as seis da tarde e as dez da noite. Mas quando entro na segunda fase, a fase da oficina, sou um operário muito sério. Trabalho desde manhã até à noite.

Já se pode dizer de si que é escritor profissional?
Há anos, dizia que não. Isto não é profissionalidade. É gostar de fazer as coisas, é aderência ao texto, é respeito por nós próprios, é muita coisa… Estou a insistir com a metáfora do carpinteiro. Passar a noite na loja, no ‘atelier’ do carpinteiro, à noite, quando está quase a fechar, e olhar para o chão e ver quantas coisinhas de madeira estão lá é um bocadinho a mesma coisa que escrever um livro. É preciso também preencher com páginas, não diria falhadas, mas em tentativas diria não satisfatórias. O cesto dos papéis que está ao nosso lado espelha isso mesmo.

No seu caso é mesmo assim. Não escreve em computador.
Eu escrevo à mão.

Por isso diz que é um homem arcaico…
Sou do ‘cromagnon’. Sim, escrevo à mão mas depois há uma passagem no computador.

Feita por si?
Há quem me ajude. Sou muito lento.

A escrita que sai da sua cabeça, sai à mão.
À mão. Depois há uma fase de transcrição, tem que haver. Antigamente fazia eu próprio na minha Olivetti 22. Agora não, tambémpor razões físicas porque passar muitas horas sentado… Eu escrevo de pé…

A sério?
Sim, é melhor. É uma postura mais confortável. Claro que quando vou para um café tenho de estar sentado. Mas depois de passar muitas horas sentado para transcrever um texto é fisicamente negativo e em termos de tempo, também, porque sou lento. Se há alguém que me ajude, melhor. Mas a primeira transcrição, normalmente não resulta, preciso de trabalhar sobre ela. Trabalho à mão, como quem pintou um quadro e depois quer dar uma pincelada, outra pincelada, e outra, porque normalmente um quadro não sai à primeira a não ser a alguns génios. Mas eu não sou um génio. Não sou o Picasso. O Picasso fazia “tic” e já está.

Escreveu um livro em português. O “Requiem”. Foi diferente esse trabalho de oficina?
Tive essa ousadia.

Consegue pensar em português?
Sim, claro. Traduzir-se a si próprio, do cérebro até à mão, seria demasiado complicado.

Esse livro foi pensado e escrito em português.
Sim, senhor. Depois a primeira questão que se pôs era limpar o texto dos meus eventuais erros no português, pequenos ou grandes, inevitavelmente ficam na página. Mas tinha depois fazer o mesmo trabalho que faço sempre quando escrevo em italiano, ou seja, procurar uma palavra que sirva melhor, modificar uma frase, sei lá, mudar de um relativo para um gerúndio. É mais fácil, resulta mais bonito, estas coisas.

Fernando Pessoa, que tão bem conhece, dizia “a minha Pátria é a minha língua”. Qual é a sua pátria?
Substancialmente é o italiano. Espontaneamente a minha pátria é o italiano, mas há pátrias adoptivas, também. O Pessoa, embora a sua pátria fosse a língua portuguesa, nunca deixou de escrever em inglês, o que significa que era um homem que tinha mais do que uma pátria. Acho que termais do que uma pátria é melhor do que não ter nenhuma. Como acontece hoje em dia, aliás, e fora da metáfora, há muita gente que não tem pátria. Coitados, não pertencem a nada.Pertencem a uma pátria ideal mas essa pátria não é conhecida. São vagabundos pelo mundo, são párias. E esta pátria adoptou-me e eu também a adoptei.

Sente-se adoptado por Portugal? Sente-se um escritor português?
Sinto-me adoptado por Portugal mas acho um bocadinho evasivo definir-me como escritor português. Sou um escritor português mas de passagem- no fundo somos todos de passagem, com pausas mais ou menos largas neste tempo reduzido que alguém nos deu a viver.

E que relação tem com essa entidade, com esse alguém que agora referiu?
Não sei. Gosto de olhar para o Céu, no Alentejo, e pensar que o Universo é vasto. Prefiro não me pôr a pergunta, se este Universo foi criado por si próprio ou se foi criado por alguém.

Porquê?
Porque acho que não há respostas.

Mas procura outras. Procura respostas para o amor, por exemplo.
Claro! Para a nossa vida terrena não há dúvidas… Mas para a eventual ultraterrena tenho pouquíssima relação, se não do ponto de vista individual, psicológico, etc., não, digamos assim, de uma forma metafísica mas com as recordações, os defuntos, algo ou alguém que pertenceu também à nossa vida humana e terrestre.

É isso que chama memória?
É memória, claro. Eu poderia até dizer que a literatura é a memória.

Insisto. Uma das suas grandes questões é o amor. Há um livro onde essa interrogação é feita através de várias relações, várias cartas…
Sim, sim. “Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde”.

Exactamente, onde aborda o amor e o fim do amor.
A literatura, como forma de conhecimento, dentro da experiência humana, é fundamental. Por exemplo, o amor. A Isabel falou do amor que é um dos sentimentos muito complexos e muito vasto. E depois uma pessoa tem um amor, encontrou uma pessoa e não sei quê, mas depois? Há vários tipos de amor com várias facetas. O que é que poderíamos saber sobre o amor se não conhecêssemos “Tristão e Isolda”, “Julieta e Romeu”, “Madame Bovary”, enfim… A literatura é a possibilidade de conhecer através de experiências alheias, de estórias alheias, um sentimento tão vasto e complexo para o qual a nossa pobre vida humana não seria suficiente em alguns sentimentos humanos, uma fonte de informação fundamental.

O amor é a grande fonte da literatura?
O ódio, também. As paixões humanas, até os vícios capitais, pode dizer-se. Aquilo a que a Igreja Católica chama de vícios capitais. É tudo o que pertence à criatura humana e é universal. E pode ser no Alentejo, pode ser em Paris, no século XIX, pode ser na China actual, pode ser em qualquer lado porque o comportamento e os sentimentos humanos são absolutamente idênticos. Uma lágrima de um italiano, de um chinês ou de um português, coincidem, têm a mesma quantidade de sal. É por esta razão que, no fundo, a arte, a literatura, a pintura, a música, são formas universais de conhecimento e de comparticipação

O António é um viajante. Gosta de se definir como tal. O que encontra na viagem que o seduz tanto?
A viagem é o imprevisto. É óbvio que o imprevisto também pertence ao nosso dia-a-dia. A nossa vida é feita de imprevistos, mas a viajem fornece um quociente maior de imprevisto e, portanto, pode ver uma coisa que não estava à espera de ver, ter um encontro que não… conhecer uma pessoa que não… É abrir mais sobre o imprevisto. E também a simples curiosidade, a legítima curiosidade, de conhecer o que ainda não conheceu.

A diferença?
Sim, a diferença, para chegar, se calhar à conclusão de que tudo é igual. Mas por que não? ‘Vive la diference’. É por esta razão que o mundo é bonito. É diferente. Se fosse tudo igual seria extremamente monótono.

Sendo Itália um país com a tradição humanista e cultural que tem, como explica a deriva governativa, com executivos pouco duráveis e agora esta permanência que é Sílvio Berlusconi?
A Itália está tão à direita que caiu naquele estado deplorável. Os historiadores desde 45, quando acabou a guerra, que fazem a mesma pergunta: como é que um país que tinha Bach, Kant, Thomas Mann, etc., gostou daquela gente? Mistérios. O pior, normalmente, tem mais adesão do que o melhor.

Berlusconi é uma figura romanesca?
Para romances de péssima categoria. Nem para o satírico. Nemum romance de quiosque. Era preciso atribuir-lhe muita coisa que acho que ele não tem.

Mas os italianos continuam a escolhê-lo.
Como estava a dizer, o pior,muitas vezes… é como o “pimba”. O “pimba” pega. É mais fácil pegar o “pimba” do que o Schubert. Já pensou nisto? É porque é simples. O “pimba” é fácil e o Schubert é difícil. O melhor precisa de educação, respeito pelos outros, compreender o que é um contrato social, precisa de esforço, de estudo… Para nos tornarmos pessoas sérias e civilizadas temos de fazer um esforço. Para sermos selvagens não é preciso esforço nenhum. E é por esta razão que este tipo de acções políticas são reversíveis do ponto de vista da humanidade. É fácil abrir uma janela, se há uma plateia que está a ouvir, e dizer palavrões. Então eu também posso dizer palavrões, diz a plateia. O “pimba” pega. Se uma pessoa abre a janela e começa a recitar um poema de Shakespeare ou um poema do Pessoa, se calhar…

Então qual é a responsabilidade de políticos que têm este poder?
É a de lançar ‘el peor del dia’ como diria o Almodóvar. O pior do dia.

Gosta do Almodóvar?
Gosto muito de Almodóvar.

Muitos dos seus livros deram filmes. É um cinéfalo?
Gosto muito de cinema. Considero o cinema uma linguagem perfeitamente à parte. Seria pretensioso ou, de qualquer modo, uma leitura errada, ir ver um filme inspirado num filme meu à espera que seja o meu livro. Porque o meu livro é o meu livro e o meu filme é o meu filme.

Qual acha que foi a melhor adaptação que fizeram dos seus livros?
Gostei muito de “O Fio do Horizonte”, do Fernando Lopes. É um filme magnífico.

É seu amigo.
Sim, é um grande amigo mas não digo isto por ele ser meu amigo. Digo porque é um realizador de primeira categoria. Foi um dos inventores deste Cinema Novo português. Mas continua a ter uma linguagem cinematográfica magnífica. Mas também gosto do “Requiem” do Alan Tanner, é muito interessante.

Quais são os seus grandes prazeres?
Gosto muito de conversar.

A comida é outro prazer?
É. Sim, sim.

Gosta de cozinhar?
Gosto mais quando cozinha a Maria José.

Mas gosta da cozinha portuguesa?
Adoro. A cozinha portuguesa, a popular que, daquelas coisas que sobraram, consegue fazer um prato. Aí é que é preciso génio, sabe? O senhor Gervásio, ali do café, estava agora a comer caracóis.

Gosta?
Sim, sim. Na Toscânia, caracóis é um prato da minha infância. Gosto muito. Estes são mais para petiscar. Um bom prato de caracóis não é nada mau. Com alho e salsa. Estava a pensar nas coisas culinárias e, no fundo, os nossos países do sul têm a inteligência, o génio de saber transformar o que ficou, as sobras, num prato.

Pode dizer-se que é um homem totalmente virado a Sul?
Sim. Sempre procurei o Sul. Sinto-me melhor. Corresponde mais à minha maneira de ser. Se calhar, fisicamente, não sou muito do sul. Mas, internamente, humanamente ou até gastronomicamente, sou um homem do Sul.

Entrevista publicada no Outlook, do Diário Económico de 8.8.2009

Um livro vive sete semanas. E as livrarias quantas mais?

Na cidade onde eu nasci e cresci, compravam-se livros no mesmo sítio onde se compravam cadernos, canetas, sapatilhas e bolas de futebol, fatos de ginástica e de treino. Era fácil encontrar fundos de catálogo; nunca procurei um clássico que não encontrasse enquanto fui, ali, aluna do liceu. Não entro há anos nessa papelaria,livraria, discoteca e muito mais. Um supermercado de cultura e desporto antes de se sonhar com Fnacs. Repito: não sei como estará. Presumo que sobreviva, mas não à conta dos livros. Lembro, já em Lisboa, de ir lá ao fim de semana na certeza de que, entre o pó de tantos livros, haveria o tal que estava esgotado nas livrarias de Lisboa. E não me enganava, e era mais barato e tudo. Estava amarelo nas pontas. Que importava? Dava-lhe um toque raro entre lombadas brancas que me aborreciam de tão novas nas minhas prateleiras então quase despidas.
Não voltei lá. Há muitos anos que não me vendem um livro. Nem voltei à Portugal, nem à Sá da Costa, nem a Ferin… Entristeço-me sempre que fecha uma livraria, mas eu, que compro livros, não me desvio da rota do costume, a que me leva à Fnac, às Bertrand… Sinto que também por aqui os livros demoram muito menos. Sete semanas de vida em livraria é a média para um livro novo. Vida curta, vidra tão breve. Não admira que as livrarias vão fechando. Eu fico triste, mas faço mea culpa e prometo que quando for a Torres hei-de ir à União.

O tempo e um rebuçado de mentol

“Sabes, uma vez passei três dias em cima de uma árvore e a boca sabia-me a sangue.”

Ele não tinha ideia de quantas vezes já me contara aquela história. Nem eu. Os anos passavam e escutava-a como se fosse nova. Falava e não desviava os olhos da televisão, mas duvido que soubesse quem marcara o golo pelo Sporting. Festejou, claro, mas essa alegria merecia castigo. Ele não podia ter a futilidade dos que vibram com a bola. Não ele que sabia o que era ter a boca a saber a sangue. Não pela fome, mas pela sede. Estar num equilíbrio difícil, silencioso, agarrado a uma arma como à vida, se se poder deixar vencer pelo sono, estômago dormente com falta de comida, força nos limites mínimos, concentração a raiar a loucura … “mas se tu soubesses o que é não ter água para beber… Morre-se mais depressa de sede do que de fome.”

Lá estava ele e uma das primeiras verdades que me ensinou quando eu ainda não tinha idade para perceber o que era morrer, quanto mais morrer de sede. Nem ele, quando estava em cima da árvore, uns vinte anos e a levarem-no de casa para o mato, quase uma criança na sua ingenuidade rural. Era assim que falava: do mato.

E era Natal por esses dias, mas nem a lembrança das filhoses da mãe, do perú que ele aprendera a embebedar antes de ser caçado para o forno. Se ao menos pudesse ele, ali em cima daquela árvore, embebedar-se com o whisky de quinta categoria que lhe ia chegando sempre, contrabandeado, para esquecer a sede e o amargo de boca. Quantas vezes despejara garrafas só para esquecer onde estava, o que fazia? Mas era com água que sonhava. Podia vir em latrinas sujas, podia vir dos rios infectados com doenças de que ele mesmo antes de saber o nome já perdera o medo. Medo de quê quando pode vir um tiro de qualquer lado e acabar com tudo? Ele não tinha medo mas precisava de whisky. Afinal não ter medo pode ser assustador e agora o que precisava era de água porque um soldado não pode simplesmente acabar caído de uma árvore que nem um tordo. Também nunca quis tanto uma caneta e aquele bloco de folhas de carta. Não há melhor maneira de escrever sobre uma alucinação a não ser no momento em que ela está ali a alucinar. Sabia que não iria esquecer aquela sede enquanto fosse vivo, mas tudo o que contasse ou lembrasse depois seria pouco diante daquela presença.

E talvez por isso contasse tanto, logo que desceu da árvore, não fosse aquela memória diluir-se. Há coisas que matam que não queremos matar.

Contraditório? Seja, mas é assim. E lá estava ele, tantos anos depois, comando da televisão na mão, pés cruzados no conforto do sofá, a não deixar apagar. E sempre a mesma interlocutora. Ela havia de reter essa guerra onde ele ainda vivia, apesar das rugas que vieram, dos cabelos que foram, do álcool que se acumulou e quase lhe tirou o fígado, apesar do medo que voltou porque o mato estava longe e já não havia tiros, mas a vida escoava, rotineira, sem história. O medo da sem-aventura é o pior por não ter razão de ser.

É o medo dos poucochinhos, esse lume brando em que só um cancro pode aparecer como grande papão. E apareceu e a guerra perdeu valor. Por isso lamenta-se: se ao menos pudesse ter escrito essa sede nas mesmas folhas que usava para mentir para casa sobre uma guerra que ele ficcionava e onde tudo corria bem e a boca não amargava. É que agora, depois do cancro, isso não tinha a mesma importância. Daí a repetição. Era preciso repetir para fixar. Tinha o comando na mão, mas mudou de canal e calou-se. Hão-de vir outros golos a pedir lágrimas para o ilibar da alegria e desviá-lo do facto desses dias de sede estarem a perder importância na sua biografia. Mesmo que ele não queira, mesmo que o passar do tempo se assemelhe a um rebuçado de mentol a matar maus hálitos.