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O verão acaba aqui


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.

Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
alma e brancura.

Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.

Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro (1961)

Agosto está aí

Em agosto comecei a andar, em agosto vi pela primeira vez o mar e a nao houve grão de areia que não trincasse; em agosto soube o que era o som do amolador e as rodas das carroças de hortaliças a chegar à praca; em agosto comprei o meu primeiro livro com o meu primeiro dinheiro e não dei o meu primeiro beijo porque em agosto eu não tinha namorado; em agosto fiquei na rua, no degrau à noite, porque o meu pai confundiu a campainha com o despertador; em agosto comi caracois e carangueijos e tremoços com pevides; foi em agosto que andei numa bicicleta com duas rodinhas a ajudar as outras e nao houve agosto que me fizesse andar de bicicleta de outra maneira; em agosto a minha mãe usava óculos de sol do tamanho da cara dela e o meu pai ria do ridículo que achava aquilo que eu um dia queria imitar; em agosto eu andei com uns óculos do tamanho da minha cara e o meu pai nao se riu porque acho que estava distraído; ainda em agosto vi que a melhor vista do mundo pertencia a uma vaca num prado em s. Miguel, a vaca! Em agosto aprendi a fazer malas e nunca soube como as desfazer; em agosto vesti me de noiva e parti o salto do sapato tornado me uma noiva coxa que foi brincar ao carnaval de verão; em agosto fiz piqueniques com formigas a picar a língua, em agosto vi o que nunca pude ver antes, falei com quem nunca imaginei falar, chorei e ri, andei pelo país feita repórter num carro azul que perdeu a cor e soube quer podia ser marinheiro porque não enjooei num barco onde chegaram percebes e a notícia de um nascimento. Foi no mar. Em agosto amei, em agosto tive raiva e esqueci tudo. Em Agosto a minha avó caiu para nunca mais se levantar; em agosto cantei cantigas de embalar onde havia uma herói e uma menina que sabia falar inglês. Em agosto corri para ver o que nunca ninha visto; em agosto uma amiga muito amiga ia ter um bebé e teve, e eu, graças a ela, aprendi um dos  incondicionais do verbo amar; em agosto surgiu a Maria e agosto ha-de ser sempre dela. É quase quase agosto, Maria

Uma casa

Queria aquela casa onde cheirava a mar misturado com o barro das telhas e onde sol entrava filtrado pelo vidro do telhado e que dourava tudo.
O leite fervia num fogão de dois bicos. Vinha fresco, em pacotes moles, de plástico, que eu gostava de apertar até sentir que quase rebentavam.
Eu agora queria aquela casa numas águas furtadas num terceiro andar sem elevador e com um terraço onde me inclinava para ver quem passava em baixo. E às vezes dava para dizer adeus.
Bom era aos domingos, quando as camionetas de carreira chegavam cheias de gente com cabazes de comida e eu contava-as a ver se naquele domingo se batiam recordes.
Depois apressava-me para dentro não fosse o leite entornar.
Não me lembro onde poderia estar a minha mãe.
Acho que eu ficava de guardiã ao leite por gostar de ficar a olhar para a sua fervura, meio hipnotizada com aquele crescer, a nata a formar-se e de repente uma espuma que tentava sempre apanhar-me distraída. Como eu gostava de ganhar à avalancha branca. Lembro o cheiro, meio a natas queimadas que se misturava ao resto dos cheiros que tornavam a casa casa. Que é feito dela? Às vezes vejo-a, por fora.
Era o lugar do Verão, onde todos cabiam. E eu gostava daquela gente que entrava e saia, como em festa. Queria aquela casa agora, como ela era então.

O ensaio

Não estava ali.
O mar não se ouvia.
O dia era um daqueles em que a chuva e as nuvens abafam qualquer som, apenas o piar das gaivotas à cata de caraguejo na maré quase vazia.
Mais nada. Nem os cães nem as crianças, nem a música que sabia sair de um carro parado a pouca distância.
A paisagem parecia dentro de um capacete naquele Atlântico ao contrário, do outro lado daquele onde me habituei a ir buscar o cheiro e assistir ao fim dourado dos dias de verão e início de outono, o mar da minha praia virada a oeste.
Aqui, eu, como a gaivota a ensaiar o voo de aproximação.
Pensei em Joseph Conrad, o lobo do mar que não perde o Norte no mar.
Eu estava a Leste.
Virada para a praia que não via, inspirando o ar a querer resíduos de iodo longínquo. Achei. Vestígios de um cheiro familiar que me devolveu a tranquilidade só possível em casa. Parece que estava a começar a ganhar outra, um lugar também meu. Por amor, por adopção, porque sim, porque me adapto e sou ali aquele bocadinho feliz que os inconformados às vezes conseguem ser. “Lucky me”, pensei e olhei para os céus, cinza escuros, a fazer figas não vá algum mau olhado tirar aquele pedacinho de alegria, passar-lhe uma rasteira e atirá-lo à areia.
“Não sabes ser feliz”, dizem alguns que me conhecem ou pensam conhecer. E não é que às vezes dou por mim: “Será?”
E lá está a gaivota a ensaiar o voo como eu a ensaiar a vida. Nova. Por aqui. Por amor, por um sonho, pela realidade.
O mar tem disto, mesmo que ao contrário: os pensamentos andam vagos, parecem contagiados pelo ritmo das ondas, as tais vagas que ali não têm tamanho. Curtas, rasteiras.
Não o mar imenso e a espuma. Boris Vian andou por outro mar. A espuma dos dias não vem daquelas vagas.
E lá estou eu na espuma de outros dias. Outros meus dias por outros mares, enquanto ali não há espuma. Pouca espuma para poucos dias.
Nem som. Só um leve rufar que embala. Embala mesmo. Era só deixar ir… Mas falta essa disponibilidade. Mental. Física. Algo sempre a resistir.
Pena não ser como a gaivota que não se assusta com o meu aproximar tão seduzida que anda com aquela água que lhe dá tudo. Ela embala-se. Não resiste. Vai.
E eu presa a ela, a querer não resistir. Como é? E ela olha e eu disparo o flash e ela não desvia o olhar.
Penso não existir. Eu. Não há som, não há sinais da minha presença, nem sombra de mim na areia tão apagado está o sol, filtrado.
Quase não há som, quase não há cheiro, nem sombra.
Duvido de mim e olho e vejo um vulto ao longe que me devolve a identidade.
Ufa! E de novo o mar.
A gaivota avança para ele. Abre as asas. ganha altitude e mergulha, certeira.
Eu disparo.
Apanhei-a numa objectiva que tenho a ilusão de a tornar eterna.