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Joaquim

O toque repetiu-se dez, quinze vezes até desligar.

Ainda não era hoje.

Mais um almoço, lanche ou jantar adiados.

Pousei o telemóvel. Restava-me reinventar o meu sábado.

Parecia estar sol. Talvez praia, uma caminhada pela cidade, um livro numa esplanada, talvez mais tarde alguém atendesse do outro lado da linha. E o sábado foi correndo nesta forma de talvez até que o telefone tocou. Do outro lado, a explicação para o silêncio: a minha amiga não atendeu porque estava a nascer o Joaquim.

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Namoro

“Costumas contar aos teus namorados que tens herpes?”
Estavam em frente um do outro. Ele e ela fumavam cada um um cigarro tirado do mesmo maço, em cima da mesa.
Ele de óculos escuros e T-shirt amarela. Ela de óculos um pouco menos escuros e um top castanho que revelava dias e dias de sol e praia.
A pergunta foi feita assim, directa. A resposta veio do mesmo modo, sem  demonstrar o mínimo incómodo, mal-estar ou outros desconcertos.
“Claro que digo, tás parvo!” Ele pareceu esclarecido e calou-se enquanto a ouvia explicar a sintomatologia e os meios de propagação daquele “vírus”, dizia ela, que já a mãe tinha, e muitas das suas amigas e que não era assim tão mau, apenas chato e “dava bué mau aspecto”. Não era sem orgulho que afirmava nunca ter contagiado ninguém. Ele ouvia.
Um e outro, ele e ela, estavam de férias à espera que a universidade revelasse o seu grau de clausura para que um e outro, ele e ela, ficassem a saber se este seria um ano diferente. Ja era, de facto.
Falavam de uma nova fase nas suas vidas. Tinham vindo de férias. Ela, sempre a gesticular, contava da dificuldade do pai em fazer caber a prancha de surf no carro.
Ele mostrava-lhe moedas. “Quanto vale?”, perguntava ela. “5oo rupias são aí uns dez cêntimos. Guarda como recordação.” Ela virava a moeda na mão. “Ih, ih, ih, estou rica. Sabes que agora tenho a mania de rir assim, ih, ih, ih. Até escrevo nas mensagens. Estou farta do lol. Ih, ih, ih. E ele já ia noutras conversas.
Contava que estava no aeroporto a ouvir a histeria sobre o Irene. “Não me f……, aquilo foi bullshit.” Ela acendia outro cigarro e, revelando o azul claro das unhas, replicava que tinha tido alguma  gravidade, afinal morreram pessoas e sabes que lá “as casas deles são feitas de madeira ou lá o que é; não são como as nossas, de cimento e tijolo.” Ele não se deixou comover com o abalo. Nem com o dela nem com o da Irene que afinal nem foi uma tempestade mas um furacão; não foi uma ela, mas um ele mariquinhas, até que ela, a rapariga em frente, se queixou do sol que queimava naquela esplanada à beira-rio e pediu para mudarem de mesa.

À sombra, ela sentou-se ao lado dele. Pôs-lhe a mão na perna, por debaixo da mesa; com outro cigarro na mão, assegurou-lhe que o herpes só era contagioso numa determinada fase e não deixando que se fizesse algum silêncio constrangedor, começou a beijá-lo, primeiro na orelha e segundos depois já estava na boca. Ele não negou o beijo e também não deixou que houvesse silêncio.

Agora era o telemóvel dela que tinha desaparecido. Sim “aquele vermelho, o último que saiu.
Mais um beijo, mais um cigarro, mais conversa até que ela: “e se fossemos pagar e dar uma volta?” Ele não pareceu perceber à primeira aquela retórica, mas momentos depois já a acompanhava ao balcão, pagaram e ela seguiu à frente dele, a rolar a rupia na mão.

O rapaz do semáforo

Nunca soube o nome dele.
Estava todas as manhãs sentado num semáforo deLisboa junto a umas bombas de gasolina. Ao lado tinha um saco de plástico com qualquer coisa comprada em última hora na loja de conveniência do lado.
O rosto exibia as marcas de uma destruição rápida, mas nos olhos transparecia um orgulho envergonhado de quem, assim que o vermelho acendia, estendia a mão direita a cada um dos condutores parados naquela demora também ela vermelha. Vestia roupas que, via-se, tinham sido caras, mas estavam tão gastas quanto ele. Era um observador. Pedia com os olhos nos olhos dos que esperava que lhe dessem uma moeda para o ‘vício’, para se manter.
Quando chegou à minha vez, estendeu-me a mão como aos outros mas ao olhar para o banco de trás do carro, viu que havia jornais. Perguntou-me se já os tinha lido. Eram do dia anterior. Dos dias anteriores e estavam ali esquecidos na sua actualidade efémera. Disse-lhe que sim e ele limitou-se a olhar. Dei-lhe os jornais e a partir de então, sempre que parava naquele vermelho diário, lá estava ele: “Dra tem o jornal de ontem?” E eu passara a tê-lo sempre no banco do lado, à mão da mão dele.
A leitura do dia anterior era a sua rotina além daquele sentar e levantar a estender a mão. Dia a dia assisti à sua decadência física.

E um dia ele não estava lá, e o jornal do dia anterior seguiu comigo e eu temi o pior.
Ele, aquele rapaz sem nome, fazia parte da minha vida, das minhas manhãs, e não consegui abrir o sorriso quando noutra manhã, passados muitos dias, ele voltou, mais gordo, mais limpo, cabelo cortado, mas com o mesmo saco ao lado, a estender-me a mão para o jornal do dia anterior. Nunca me pediu mais nada. Só a leitura.
Foi assim durante longos meses, num aparece e desaparece em que ele chegou às muletas, às chagas no rosto, a uma debilidade física que no entanto não lhe tirava a curiosidade de saber como ia o mundo. Nunca lhe perguntei nada sobre a sua vida. A dignidade que apresentava ao pedir impedia-me de o fazer. Ele pedia, mas só dava quem queria e ele não praguejava à maioria que não dava nada. Voltava a sentar-se e abria o jornal que tinha sido meu, à espera que o sinal voltasse ao vermelho. Ele, o rapaz a quem nunca perguntei o nome e que um dia tinha sido muito bonito, talvez de uma família bem de uma cidade que ele rejeitou ou por ela foi rejeitado, deixou de aparecer. E então foi para sempre.

Ainda continuei com o jornal do dia anterior, que passou a um monte de jornais de dias anteriores, no banco do lado. Até que desisti.
Mas aquele semáforo, onde continuo a parar muitas vezes, passou a ser o semáforo do rapaz que pedia jornais e pelo qual aprendi a ter um sentimento que não sei descrever.
Acho que não há palavras para tudo, que faltam inventar algumas. Como aquela que não encontro para descrever o que senti quando, anos depois, num café de Lisboa, alguém me tocou no ombro e disse: “Olá Dra, tenho o jornal de hoje”