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“Às vezes o real mata a ficção”

Entrevista com Laurent Gaudé, escritor. Uma conversa em janeiro de 2008 que recordo quando me rendo ao seu mais recente livro publicado em Portugal, “Furacão” (Porto Editora) e antes que o autor chegue a Lisboa para mais uma ronda de conversas.

Como foi voltar a escrever após ter ganho o Prémio Goncourt aos 32 anos? Sentiu pressão ou alguma espécie de angústia?
No início confesso que foi um pouco difícil arrancar, mas quando comecei a escrever não voltei a pensar no assunto. O “fantasma” do Goncourt não me acompanhou no processo criativo. Depois sim, regressou quando o livro ficou impresso e chegou às livrarias. Houve o receio da comparação, uma certa angústia, mas durou pouco. Digamos que foi uma insegurança natural. Mas Eldorado acabou por ser bem recebido e não pensei mais no assunto.

Estava a falar do processo criativo. Tem uma rotina de trabalho?
Escrevo todos os dias, durante várias horas seguidas e sempre à mão. Só uso o computador no fim, para passar a limpo.

Porquê à mão?
Não sei. Acho que preciso da lentidão da caneta no papel. O computador é muito rápido. Não dá para digerir as palavras. Escreve-se, apaga-se, volta-se atrás… Não dá para maturar, para deixar repousar o pensamento. É uma questão de ritmo que se tornou um hábito. Não sei escrever de outra maneira.

Passa a computador no fim do dia de trabalho?
Não. Só quando o livro está terminado, na chamada hora da revisão. Sou eu quem executa essa tarefa. Não a dou a ninguém. Aí emendo, corrijo. O computador é muito bom para fazer copy/paste.

Depois de O Sol dos Scorta, romance com que ganhou o Gouncourt, volta a Itália para escrever um livro sobre imigração clandestina. Visitou os lugares de que fala?
Não. Pensei em fazê-lo, mas achei que depois seria “comido” por esses lugares. Eles iriam marcar-me de mais para que eu pudesse fazer uma ficção. Não teria saído um romance, mas outra coisa qualquer, mais próxima da reportagem talvez. Às vezes, a realidade mata a ficção. Eu não queria que isso acontecesse. Não queria deixar-me contagiar.

Como é que veio a ideia para este livro?
Há uns anos comecei a recolher artigos de jornais. Recortava tudo o que via sobre essa nova forma de esclavagismo que é a imigração clandestina, o tráfico de pessoas. Quando dei por mim tinha uma enorme dose de material, guardei-o durante alguns tempos sem saber o que queria fazer com ele, até que me surgiu a história de Eldorado.

Foram esses artigos que o ajudaram a reconstituir os lugares na narrativa?
Sim. Devo isso aos jornalistas, às peças que vi sobre o tema na televisão.

A experiência como dramaturgo (foi por aí que começou na escrita) ajudou na encenação desses locais?
Sim, talvez. Não pensei muito nisso, mas o cenário é importante, o lugar onde decorre a acção é determinante para narrar uma história que, como esta, tem de fazer sentido nesse ponto de vista. Aqui falo de lugares que existem e onde acontecem determinadas coisas. Não posso inventar muito nessa matéria. Aí, é preciso que a ficção case com a realidade.

Entre todos esses artigos que coleccionou houve algum que o tivesse marcado especialmente ou influenciado de forma determinante a narrativa?
Sim (pausa). Houve um em que se faziam contas e se chegava a uma conclusão arrepiante. O tráfico humano era muito mais rentável, por exemplo, que o tráfico de armas. É assustador, impressionante.

Este não é um livro-tese, mas quer passar uma mensagem…
Este é um livro sobre a viagem, no sentido mais lato do termo. Se o tivesse de resumir numa frase diria isso: é um livro sobre viagem. No caso, uma viagem para o desconhecido. O movimento entre um lugar e outro feito no meio de uma incerteza que pode ser a diferença entre a vida e a morte. O que é que leva alguém a abandonar tudo e a ir para um lugar que não conhece. No caso vai à procura do Eldorado, o que não é bem a mesma coisa que ir em busca da Terra Prometida. Essa tem uma carga religiosa, a outra uma carga onírica. É o sonho. E o sonho pode ser simplesmente a fuga à miséria, como os dois irmãos sudaneses que apostam tudo – e tudo é a vida – para chegar à Europa, o lugar do sonho.

Mas há também outra procura, a de um amor perdido por parte do comandante do navio que tem a missão de prender os clandestinos que encontrar, mas que por vezes os salva. Em quem se inspirou quando criou a personagem Salvatori Piracci, o guardião de Catânia onde chegam os chamados barcos da morte?
No homem e na sua ambivalência. Por isso também lhe poderia dizer que este é um livro sobre a condição humana. Procurei dar o retrato dos dois lados. O do desespero de quem sai de um lugar, sabendo que muitas vezes não irá encontrar absolutamente nada, mas que mesmo assim vai, como se na Europa estivesse a solução, uma qualquer solução. E levam filhos e deixam filhos e adoecem e morrem, sabendo que do outro lado do mar não há nada mais do que outro tipo de miséria. Piracci está desse lado, mas no conforto. Representa o Eldorado, mas ele mesmo tem a sua busca, a sua viagem. Ele consegue ver a dor de uma mãe que perde o filho e protege-a das autoridades e a autoridade ali é ele. O Homem é ambivalente. É a sua condição. Miseráveis ou não, todos, naqueles barcos, são homens à procura de se salvarem numa viagem, e quis dar voz a ambos: àquele que tem a obrigação de salvaguardar a fronteira mas que por vezes traem a sua função e aos que a tentam transpor. São vozes diferentes, mas só aparentemente.

29 Janeiro 2008
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falta de memória

Escrevi isto em 2003

“Há dez anos, quando pela primeira vez tive lugar numa redacção, sempre que me entregavam um trabalho, apontavam-me um jornalista capaz de me ajudar a fazer a reconstituição de um acontecimento. À distância de umas secretárias e em poucos minutos, eu tinha o background da minha história e a informação mínima para poder levantar dúvidas e questionar os interlocutores que iria enfrentar (…). Não falo de um passado longínquo. São apenas dez anos. Mas desde então as redacções foram ficando despovoadas de memória, a memória dos jornalistas com anos de profissão que, em nome da produtividade e da contenção de custos, foram sendo dispensados pelos novos conselhos de administração a quem cumpre gerir os meios de comunicação social como empresas que têm de dar lucro sob pena de fecharem. Não questiono isso. Provavelmente não haverá outro modo e os jornais têm de funcionar e existir como empresas. Mas há uma função inerente à existência de jornais e jornalistas: informar. E a informação não é feita apenas do imediato. Não existe notícia sem um passado que a justifique. Com jornalistas cada vez mais novos, com editores sucessivamente menos experientes, informar é cada vez mais dizer o que acabou de acontecer e as notícias surgem a quem as recebe como actos isolados. A investigação quase desapareceu porque tem custos que as administrações consideram incomportáveis. Há excepções. Mas a regra é a da perda da memória. Uma memória que a Internet não preenche, apesar de ser uma ferramenta essencial à actividade dos jornalistas”.

Este artigo foi publicado na revista Jornalismo e Jornalistas em Dezembro de 2003. Chamei-lhe “Falta de memória” Mais de oito anos depois pareceu-me o princípio de qualquer coisa que está a acabar

“O Brasil é um país vira-lata”

Foi há um ano que conversei pela segunda vez com Laurentino Gomes, o escritor que acaba de vencer o Prémio Jabuti para a categoria de reportagem com o livro 1822. Fica um resumo dessa conversa, publicada em Setembro de 2010 no Diário Económico.

APÓS O SUCESSO QUE FOI “1808”, LAURENTINO GOMES VOLTA À HISTÓRIA DO BRASIL COM UM LIVRO QUE É UMA PROVOCAÇÃO PARA A IDENTIDADE BRASILEIRA. CHAMA-SE ” 1822 ” E É UMA REPORTAGEM SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Laurentino Gomes não esconde a ansiedade. Depois do sucesso que foi “1808”, o livro onde o ex-jornalista da Abril narra a ida da família real portuguesa para o Brasil, espera o que poderá acontecer com este recentíssimo ” 1822 “, outra reportagem, como gosta de lhe chamar, desta vez sobre a independência da ex-colónia. “É uma ansiedade que vem da responsabilidade”, refere numa conversa com vista para o Douro, uma paisagem que compara com aquela onde se refugia para escrever. Desta vez foram seis meses de solidão no interior de S. Paulo. Uma rotina de um capítulo por semana, depois de três anos de pesquisa, de viagens, de leituras, muitas das quais vindas de uma bibliografia já usada no livro anterior. “O primeiro livro foi uma surpresa para todo o mundo. Agora, ao segundo, o autor fica mais exigente, o leitor tem expectativas altas, quer que a leitura continue prazeirosa”, continua, insistindo que este livro assenta numa pesquisa profunda. “É assim que me protejo”. Desta vez, escritor a tempo inteiro, teve todo o tempo para perceber os sítios, as motivações, chegar a revelações. Como esta, a de que “o Brasil é uma construção completa de Portugal”.

Assume que para muitos brasileiros isso pode soar a provocação. Mesmo assim insiste em dizer que ao contrário da maioria dos estados americanos, onde houve heróis nacionais da independência, no Brasil eles não existiram. “O grande responsável pela independência do Brasil foi D. Pedro, um português. Se a corte portuguesa não estivesse naquele momento instalada no Brasil, hoje o Brasil estaria desintegrado em vários estados. Ele foi o responsável, pelo seu carisma, pela unidade do Brasil enquanto nação. Impôs a integridade nacional sempre q ela esteve ameaçada.” E essa falta de heróis gerou uma identidade e uma condição com a qual o povo brasileiro não convive bem. Para Laurentino Gomes , explica também aquilo que considera ser o problema de auto-estima que existe”. Porquê? Porque ser “um país vira-lata com uma história vira-lata”.

Provocação ou não o facto é que duas semanas após estar à venda no Brasil, o livro já está em primeiro lugar nos tops de vendas e chaga a Portugal com a herança do anterior. Cerca de 600 mil unidades vendidas nos dois países, em várias edições. Um número pouco comum, mas que 1822 quer ultrapassar. Como o anterior sairá em vários suportes. Papel e e-book (este já disponível no Brasil). Falta um terceiro para completar o que pretende ser a narrativa das três datas mais emblemáticas da independência e consolidação do Estado Brasileiro. Será outro número, “1889”, a data da implementação da República no Brasil.