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Livros com música II

Deixa o Grande Mundo Girar
Colum McCann
Civilização

“Joshua gostava dos Beatles, costumava ouvi-los no seu quarto, conseguia ouvir-se o ruído mesmo através dos grandes auscultadores de que ele gostava tanto. Let it Be. Uma canção idiota, de facto. Se deixares andar as coisas, elas voltam. Essa é a verdade. Se deixares andar as coisas és arrastado para o chão. Se deixares arrastaras coisas, elas trepam pelas tuas paredes.”

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Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

Passageiro do fim do dia

Pedro apanha o autocarro ao fim do dia e vai do centro da cidade para a periferia, um bairro chamado Tirol, visitar a namorada, Rosane. É hora de ponta e a viagem demora. Há tempo para ler um dos livros de Charles Darwin sobre as suas viagens ao Brasil e também tempo para deixar correr os pensamentos, entrar em reflexões . Resumindo, esta é a trama que valeu ao brasileiro Rubens Figueiredo o Prémio Portugal Telecom de Literatura com o livro “Passageiro do Fim do Dia”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, e já vencedor do Prémio São Paulo de Literatura que elege o melhor livro do ano publicado no Brasil. O português Gonçalo M. Tavares ficou em segundo lugar com o romance “Uma Viagem à Índia”, que lhe valeu cerca de 14 mil euros.
Rubens Figueiredo, professor de português e de tradução na PUC do Rio de Janeiro, sucede ao mediático Chico Buarque que em 2010 ganhou os cem mil reais do prémio (41,7mil euros) não sem alguma polémica. Então, não faltou em considerasse que a decisão tinha sido puramente mediática e não teve em com a qualidade literária dos outros concorrentes. Desta vez, quando foi anunciada a lista dos dez finalistas de um total de 380 concorrentes, os mais ortodoxos não se manifestaram quanto à qualidade das obras a concurso onde estavam dois livros de dois autores portugueses: “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M.Tavares; “As Três Vidas”, de João Tordo.
“Fico muito feliz e só consigo dizer isso. Me desculpem o mau jeito”, disse o autor na cerimónia de entrega do prémio, no passado dia 8, em São Paulo, na Casa Fassano. Mais tarde, ao jornal ‘Público’, o escritor foi mais longe e falou do processo criativo que o levou ao que muitos críticos consideram ser o romance que o afirma como uma das vozes mais sólidas da altura literatura brasileira: “como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.

A negação da banalidade
A atenção ao pormenor, aos pequenos detalhes que ocorrem em situações rotineiras são o ponto alto de um narrativa que vive disso mesmo: da negação da banalização do quotidiano, mesmo que ele seja opressivo, como é qualquer viagem de autocarro de uma centralidade onde tudo acontece para uma periferia onde acontece o que “não deve” ou o que é varrido desse centro. São histórias de violência, de exclusão nas quais Rubens pega com conhecimento de causa. Ou seja, enquanto passageiro frequente de autocarros entre o centro e a periferia. Mas como ele sublinha, esta não é a sua história, nem de um lugar concreto. É a história de Pedro, um rapaz ficcionado, e das suas cogitações e recordações e preocupações. Do ambiente que o envolve enquanto viaja num autocarro. “No quotidiano se concentram os processos mais importantes da dominação social. É onde as relações sociais se produzem, se reproduzem, se justificam e são esquecidas. E também é onde eles mais se empenham em se manter ocultos”, declarou numa entrevista recente, ainda antes de saber que viria a ganha o prémio PT.

O Booker português?
Bastante popular no Brasil, onde tem um prestígio que ainda não atingiu em Portugal, o Prémio PTde Literatura, distingues livros em português publicados no Brasil. E vale quase tudo: poesia, ficção, biografia, dramaturgia ou crónica.
Criado em 2003 com o objectivo de contribuir para a promoção da língua portuguesa, “ainda não é o Man Booker ou o Pulitzer ou o Goncourt português. Mas um dia será. Não desistimos dessa ambição”, disse Henrique Granadeiro, o presidente da PT, durante a cerimónia de entrega de um galardão que tem a ambição de estimular e encorajar “os melhores talentos”. Ao fim de nove edições já premiou nomes como Bernado de Carvalho, Milton Hatoum ou português Gonçalo M. Tavares (em 2007, com “Jerusalém”). Desta vez foi para um romance que pretende ser uma crítica às desiguladades sociais na cidade do Rio de Janeiro onde Rubens Figueiredo nasceu em 1956 e onde vive. Foi lá também que se formou em letras e é lá que ensina.

Duplo Jabuti
Escritor nas horas vagas, como se define, escreveu o seu primeiro livro há 23 anos. Em 1998 venceu o prémio Jabuti, um dos mais prestigiados para autores brasileiros, com o livro de contos “As Palavras Secretas”. Repete o feito em 2002, desta vez com um romance, “Barco a Seco”. Nesseano, fazia um balanço sobre a sua obra: “Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.”
Não se deslumbrava com a consagração. Perguntava pelos livros esquecidos depois de lidos e premiados. E aí colocava os seus. Quem se lembrava deles? Talvez por isso tenha abandonado o trabalho de tradutor. A qualidade e a profundidade da escrita de Rubens Figueiredo não é decerto alheia ao modo como pratica a tradução. Envolve-se o mais que pode com os autores, do ponto de vista criativo. Quer perceber o processo e a sua perspectiva é a de que o tradutor é também um autor quando passa uma obra de uma língua para a outra. “Traduzir é escrever – em termos concretos, mecânicos e intelectuais, pois transpomos ideias e sentimentos de um idioma para o outro. Mas também vale o oposto: escrever é traduzir, pois transpomos”, diria sobre o assunto depois de ter traduzido Anna Karenina.
O seu percurso conta com mais de 40 livros traduzidos, com destaque para a literatura russa, e concilia isso com as aulas de português. Daí a escrita pertencer às horas vagas e ter começado em 1986. E logo com um romance: “O Mistério da Samambaia Bailarina”. Não demorou até ao segundo título, “Essa Maldita Farinha. Foi no anos seguinte, em 1987. Em 1990 publica “A Festa do Milênio” e em 1999, “O Livro dos Lobos”, que relançaria quase dez anos depois, totalmente reescrito. Pelo meio ficou “Contos de Pedro” e com o mais recente livro foi o que se viu. “Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada, mas não universal, nem fora de um tempo. A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto.”

Artigo publicado na edição de 11.11.11 do Diário Económico

Bellow a propósito de “Ravelstein”

É curioso que os beneméritos da humanidade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também de o entreter. Durante a Guerra Civil, as pessoas queixavam-se das anedotas de Lincoln. Talvez ele pressentisse que a seriedade estreita era bastante mais perigosa do que qualquer piada. Mas os críticos consideravam-no um frívolo e o seu próprio Secretário de Estado o achava um Brutamontes.

Fala-se muitas vezes de grandes aberturas de romances. Acho que esta pode entrar no top.  É o arranque de “Ravelstein”, livro sobre um homem que escrevia e privava com poderosos, e um obra emblemática de Saul Bellow, agora reeditada pela Quetzal.

Voltei a reler páginas, ao calhas e lembrei um texto que uma vez escrevi sobre o escritor, natural do Quebeque, onde nasceu em 1915 e Nobel em 1976.
Foi quando ele morreu, em 2005. Coube-me “enterrá-lo”, como se dizia na gíria dos jornais. Não em achei à altura de tal tarefa, mas lá fui.

Foi ele que disse um dia que “a ficção é a maior das autobiografias”, para dizer também o mesmo que só saber escrever sobre a realidade que o cercava: “Não posso exceder o que vejo (…) Estou limitado (…) pela situação em que vivo”. E a um eventual biógrafo terá respondido: “Que pode você revelar sobre mim que eu não tenha revelado já?” A vasta obra deste homem, cujo nome integra um dos grupos literários mais brilhantes do século XX, o dos romancistas norte-americanos de origem judia, onde se incluem nomes como Bernard Malamud ou Philip Roth (e no qual não gostava que o colocassem, alegando independência criativa), contém muitas marcas de uma vida que terá começado para as letras aos oito anos, quando leu “A Cabana do Pai Tomás,” de Harriet Beecher Stowe – livro que marcou a luta contra a escravatura. Com isto, abandonava o projecto da mãe que sonhava para o filho mais novo um destino de rabi ou violinista. Não foi. A sua missão foi outra. Renovar o romance, diz-se. Mas o mundo não parecia pelos ajustes para quem estava a começar no género.

Muitos profetizavam o fim do romance. Provou o contrário. Através de personagens de enorme densidade física e psicológica, muitas com características biográficas, criou um universo erudito onde cruza a experiência com a introspecção, indo ao fundo de cada um dos seus heróis para, através deles, reflectir sobre o mundo. O britânico Martin Amis, seguidor confesso de Bellow, e que agora também está aí com “O Segundo Avião”, também da Quetzal, escreveu na sua biografia “Experiência” (Teorema), que “Saul Bellow, muito graças ao seu isolamento espiritual, escreve sobre o eu da perspectiva da alma, da alma permanente.” E sempre com enormes doses de ironia e acidez.

Aplaudido pela crítica e com um enorme séquito de leitores fiéis, tomou, por vezes, posições polémicas que lhe valeram o epíteto de chauvinista por parte dos movimentos feministas ou de conservador pela ala mais esquerda da sociedade. Nada que lhe beliscasse o talento ou lhe apagasse o sorriso irónico por baixo do chapéu à Humphrey Bogart, acessório inseparável do fato de corte sempre impecável, que faziam da sua imagem pouco dada a excessos, algo fora do estereótipo do escritor maldito dos anos 50 e 60.

Além do Nobel da Literatura, em 1976, Bellow  foi o único escritor três vezes distinguido com o National Book Award e ganhou o Pulitzer.  
A revelação para as letras deu-se em 1953, com “As Aventuras de Augie March”, que lhe valeu o primeiro National Book Award e é ainda considerado pela crítica norte-americana como um dos livros mais marcantes da revolucionária (para o romance) década de 50, a par, por exemplo, de “Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac. Antes já publicara “A Vítima” e “Agarra o Dia”. Também com Augie March, surgem heróis cuja existência parece suplantar a ficção. Casos de Moses Herzog, herói de “Herzog” (1964), obra vencedora do National Book Award, ou Von Humboldt, em “Humboldt’s Gift”, ganhador do Pulitzer. Personagens às quais se aplica a interrogação do próprio Bellow acerca dos heróis criados pelos romancistas que não se cansava de ler, como Shakespeare, Dostoiesvky ou Flaubert “Pode alguma coisa tão viva como as personagens dos seus livros alguma vez morrer?” Ele morreu em 2005. Mas Ravelstein” está aí com tudo o que ele deixou.

“Até agora nunca escrevi nenhum livro mau…”

Começando pela ideia, que é por onde tudo começa nos seus livros…
Sim, como a história que se conta do Newton, quando lhe caiu uma maçã na cabeça nasceu a Lei da Gravitação Universal. De cada vez que acabo um livro fico simplesmente esperando que aconteça outra ideia… Podem passar-se semanas, mas também meses. Tenho tido sorte. As ideias têm aparecido quando são necessárias. Acabo um livro e não tenho qualquer ideia para outro. Espero-a.

Essa espera angustia-o?
Não. Claro que a preocupação está cá, mas não a alimento. Talvez porque me tenha habituado a que, mais tarde ou mais cedo, chegue uma nova ideia. Um dia destes tenho uma desilusão tremenda.

E qual é a história da ideia que está na origem do livro suspender a morte?
Eu estava a ler um livro de Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Lauridis Brigge, e há um momento em que ele fala da morte de uma pessoa. São páginas extraordinárias! Foi então que me ocorreu a tal ideia. Mas não foi “E se a morte deixasse de matar?” A ideia inicial era outra: “E se a morte não conseguisse matar uma certa pessoa?” Essa acabou por ser deslocada para o final. O embrião é, afinal, o fim.

Nesta história, encetou um discurso irónico, que em si é novo.
Sim. Quando se fala de um livro sobre a morte, parte-se da ideia de que vai ser um livro sério. Era uma opção, escrever um livro tenebroso. A outra é dizer não vale a pena dramatizar o que já de si é dramático, então vamos imaginar uma situação em que, falando-se da morte, no fundo do que se tratará é da vida. A morte não existe fora de nós.

Rainer Maria Rilke forneceu-lhe a ideia e Proust deu-lhe o título?
Habituei-me a escrever já com um título e chamei-lhe O Sorriso da Morte, apesar de não gostar, consciente de que se tratava de algo provisório e também pela ironia que sabia que iria usar. E, porque o que a morte me diz é intermitente, mais tarde recordei que Proust, em La Recherche…, fala das intermitências do amor. Que o amor seja intermitente parece que é uma experiência de todos nós. Agora que a morte o seja… Porque gastamos tanto tempo a perguntar o que há além da vida? Se nos interrogássemos sobre o que realmente se está a passar aqui na vida, no tempo que nos calhou.

É a grande questão?
Sim. É disso que se fala. No livro, o primeiro-ministro põe essa questão se isto continua assim como é que vamos pagar as pensões.

Essa é apenas uma das muitas questões concretas que se colocam quando a morte deixa de matar. Nesse exercício, quase ensaístico, fala dos “pantanosos terrenos da realpolitik”.
A expressão é aplicada no sentido do pragmatismo absoluto, excluindo questões de princípios e atendendo apenas ao que convém a cada momento. Portanto, subindo e descendo, oscilando, segundo a maré. Mas pode ser entendido de maneira extrema, como é o caso. Para cumprir determinado fim, o Estado não hesita em fazer um acordo com a “máphia” com ph, mas não deixa de ser máfia por isso.

É a morte a jogar o seu jogo, o que por sua vez justifica um jogo de palavras?
É. Escrever “máphia” com ph deu–me um certo gozo. É um anacronismo. Não sei como é que as traduções vão resolver a questão. Provavelmente não podem. Por exemplo, em alemão os substantivos escrevem-se com letras maiúsculas. Eu andei a pôr os nomes das pessoas com minúsculas, tudo minúsculo. Para manterem essa lógica, teriam de transgredir as suas próprias regras. Não creio que o tradutor esteja disposto a isso porque não seria compreendido, mesmo que explicasse que seguia o original. Nem sei se a questão de traduzir o título para alemão já está resolvida.

Então?
Eles usam a expressão “luz intermitente”, mas não têm uma forma para dizer As Intermitências da Morte. Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos…

Os tais jogos que lhe deram prazer jogar neste livro?
Deram. Foi um livro escrito com alegria. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria… É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe “Estou a brincar contigo.”
A ironia com que trata a morte é a mesma que usa para retratar a velhice, mas aí há mais de amargura. A velhice inquieta-o?
Bom, eu sou um velho. Mesmo com a esperança de vida de cem anos, e estamos muito longe disso, eu sou um velho.

Acha que o olham como um velho?
Não só as pessoas não me olham como um velho como eu não me sinto velho. Mas tenho a lucidez suficiente para ver que, com 83 anos, sou realmente um velho. Um velho que se mantém bem e que trabalha. Isso dá-me a impressão falsa de que nada do que escrevi sobre a velhice tem que ver comigo.

É distância da velhice do outro tal como a morte é a morte do outro…
Sim, a morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. É como se eu, por não me sentir velho, não o fosse e pensar que nada do que vem de negativo com a velhice me pudesse tocar. É uma estupidez minha, porque chegará o momento em que tudo isso me tocará. Às vezes solto uma frase um pouco pretensiosa. Quando me perguntam como me sinto, digo “Quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical.” Aplicado ao meu caso isto é certo, mas dizer quanto mais velho mais livre é absurdo, porque a velhice diminui, retira, anula e, com tudo isto, tira liberdade. A não ser que tomemos aqui a velhice, como se costuma dizer, como um sinal de sabedoria. Aí, é como se eu me fosse tornando mais sábio e consequentemente mais livre devido a essa sabedoria, e não pela velhice. E quanto mais livre mais radical. Isso sim, gosto de ser.

Na que se pode considerar a segunda parte do livro, a morte passa a avisar quando vem, escrevendo uma carta.
É uma partida diabólica. Mas a morte fez isso com boa intenção. Ela achou que era uma brutalidade fazer com que as pessoas morressem quando estavam com saúde e felizes e que o melhor seria avisar. Acaba por reconhecer que se equivocou uma vez mais. Primeiro, quando renunciou a matar. Depois, quando pretendeu remendar a situação e dizer “Vou regressar, e para que não me acusem de abusadora passarei a avisar.” É pior a emenda, porque essas pessoas passam a estar no corredor da morte.

Faz, depois, um exercício onde tenta esgotar as várias possibilidades de reagir ao comunicado mortal.
Sim. Tudo pode acontecer reconciliar-se com o irmão com quem cortou relações, fazer testamentos, pagar impostos em dívida, ou dedicar os últimos dias a uma orgia de álcool e sexo.

Como acha que reagiria ao ser o destinatário de uma tal missiva?
Não sei. Álcool não, porque nunca fui dado a isso e não veria aí satisfação. No sexo sim, enquanto me fosse possível. Acho que o sexo é a única coisa verdadeiramente possível, ou melhor, é a única coisa que verdadeiramente não é impossível. Uma relação sexual pode existir em qualquer momento ou em qualquer idade, nem que não se concretize pela penetração física de um corpo no outro. O sexo não se limita a isso. Iria tentar viver esses dias em paz, procurar aquilo a que chamamos paz interior, que não seria nunca resignação. Seria a aceitação do facto. E tendo por companhia a minha mulher. Oito dias para se despedir são oito vezes em que o Sol nasce e em que o Sol se põe, oito dias para viver com as pessoas, olhar as árvores, respirar o ar. É uma eternidade, um tempo acrescentado à vida.

Um pouco como acontece com o violoncelista?
Sim, que já devia estar morto e não sabia. Estava vivo num tempo que, em princípio, não lhe pertencia. Mas quando a morte diz “Você morre daqui a oito dias, no fundo já o está a matar nesse momento.” Aí, é o princípio da morte.

Acha que o fim da morte é o fim da ideia de Deus?
Creio que sim. Seria horrível se fôssemos imortais nesta vida. O tempo não pára e estaríamos condenados a uma velhice eterna que é a pior coisa que poderia suceder. Com a morte, prometem-nos a vida eterna numa outra vida e a Igreja, nesse caso, diz-nos que ficaremos a contemplar a face do Senhor. Parece-me que ficar a contemplar a face do Senhor para toda a eternidade é um bocado forte.

Até porque não acredita no Senhor…
No Senhor, como Deus, realmente não acredito. Em mim, tudo rejeita sequer a possibilidade dialéctica ou retórica da existência de um Deus porque eu não saberia onde colocá-lo. Há uma pergunta que parece que não é costume fazer-se mas que deve ser feita e para que é que Deus haveria de querer criar um universo? Qual era o objectivo de Deus criando o universo tal como ele é? É uma questão inicial.

No livro, porque escolheu a Suite n.º 6 de Bach para despedida?
Porque gosto e porque são suites para violoncelo solo. Quando era muito mais novo, comecei a estudar música na Academia dos Amadores de Música com a ideia de vir a tocar violoncelo. Nunca lhe pus as mãos em cima, mas sempre me ficou essa vontade por se tratar de um instrumento cujo som mais se aproxima da voz humana. (Pausa). No princípio do último andamento da Nona Sinfonia, de Beethoven, há um momento com os violoncelos e com os contrabaixos… (trauteia) É lindo! Isto é falar. Aqueles instrumentos falam. Suponho que foi a primeira vez na história da música que um instrumento falou. Como se fosse uma voz humana a articular as palavras do Schiller.

Em Julho de 1997 escrevia num dos Cadernos de Lanzarote “Zeferino Coelho [editor] gostou de Todos os Nomes. Ainda não foi desta vez que o editor torceu o nariz… Mas não tenho ilusões, o dia chegará. Chega sempre.” Já chegou? Essa possibilidade angustia-o?
Sou muito consciente de que até agora não escrevi nenhum livro de que se possa dizer é mau. Mas isso pode suceder um dia e, o pior de tudo, sem que eu tenha a consciência de ter escrito um livro mau. Seria o pior que me podia suceder. Como tenho uma leitora em casa, que também é minha tradutora e, além disso, é minha mulher, espero que, se tal acontecer, ela me diga: “Este não é para publicar.” Se ela ceder, por amor, espero que seja o editor a dizer não.

Por Isabel Lucas 09 Novembro 2005
in Diário de Noticias

Romance à antiga

O que há de comum entre Jonathan Franzen, o escritor norte-americano de 51 anos, natural do Illinois, famoso depois de publicar “Correcções”, romance vencedor do National Book Award em 2001, e o russo do século XIX, Leo Tolstoi, autor de clássicos como “Guerra e Paz”, não é apenas o modo de estruturar os romances, mas sobretudo contar uma época tendo como principal guia as particularidades de cada uma das personagens. A comparação não é original e está longe de ser forçada ainda que pareça presunçosa, como sublinhou, aliás, o jornal inglês “The Independent” na altura da publicação de “Liberdade”, o romance que acaba de ser traduzido em Portugal e publicado com a chancela da D. Quixote. Presunçoso, porque são poucos os que se atreverão a pensar, quanto mais a publicar, que Tolstoi tem um escritor à altura na actualidade. Tim Walter, o autor do artigo publicado a 16 de Setembro do ano passado não fez por menos, provavelmente influenciado pela referência ao “Guerra e Paz” no romance de Franzen. Afinal, o livro de Tolstoi é um daqueles livros com a capacidade de transformar a vida de quem o lê. Foi o que aconteceu com a personagem principal de Liberdade, a ex-estrela do basquetebol universitário Patty Berglund, uma mulher que trocou uma quase inevitável carreira enquanto atleta por uma missão que chamou a si: ser mãe e esposa exemplares.

Presunção, pois, esta de comparar Jonathan Franzen a Tolstoi enquanto mestres da narrativa, autores capazes de captar a essência da época em que vivem e transmiti-la da forma mais sedutora para quem lê: sem que pareça um ensaio, saída do que há de mais íntimo em cada uma das personagens que um e outro criaram indo ao fundo do que é a natureza humana. Por isso, mais do que vozes de um tempo, eles são psicólogos com uma capacidade invulgar de expôr as tragédias e as alegrias pessoais graças à densidade humana que colocam em cada uma das personagens que inventaram sem que pareça que há nisso qualquer invenção.

Mas presunção ou não, vamos ao plot, que é como quem diz, à acção de “Liberdade”, o romance que já fez correr muita tinta pelos sítios por onde anda a ser publicado. Ele conta a história de um casal, os Berglund. Patty e Walter, dois universitários vindos de universos sociais bastante distintos. Ela, a filha de um advogado rico de Manhanttan e de uma mulher cheia de ambições políticas; ele, o segundo filho de um casal pobre e problemático, alguém que assumiu desde cedo a responsabilidade de tomar conta da família enquanto persegue o sonho do teatro e de uma formação superior. Ele ama-a e ela quer amá-lo, mas pelo meio há Richard Katz, um músico de segunda linha, melhor amigo de Walter, alguém que despreza as mulheres não conseguindo ter com nenhuma uma relação duradoura. É para ele que Patty olha sempre que questiona a sua existência com Walter, o homem a quem aprende a amar, mais como projecto de uma vida que quer familiarmente diferente daquela de onde veio do que por paixão, um sentimento que há-de reservar para Richard, precisamente numa altura em que está a ler, a conselho de Walter, “Guerra e Paz”, a obra maior de Tostoi. É então que se vê a si mesma como a heroína pouco heróica, Natalia Rostov, na sua ambiguidade de sentimentos.

Simples? Só aparentemente. Qualquer tentativa de resumo peca por ser demasiado simples e esconder a densidade que Franzen consegue dar a este livro que lhe levou nove anos a escrever e resulta de uma pesquisa imensa, não apenas da História, mas sobretudo daquilo que parece mais fácil: a capacidade de fazer com que cada uma das personagens que cria seja inesquecível e fique para sempre no imaginário de quem lê o romance. É aqui que Franzen talvez mais se assemelhe e Tolstoi e talvez “Liberdade” tenha essa mesma capacidade de mudar vidas como tem “Guerra e Paz”.

Jonathan Franzen, que foi buscar muita da sua mestria narrativa ao romance europeu, o romance realista europeu, situa este livro nas últimas três décadas da História americana e coloca cada uma das suas personagens com uma função: a de servir de metáfora de um tipo. Psicológico, político, social. Não sendo totalmente original (outros escritores americanos já o fizeram e fazer, como por exemplo, John Updike) Franzen conseguiu como poucos passar a sua obra ao reunir, primeiro com “Correcções” e agora com “Liberdade” apoios como o da mediática Oprah ou de Barack Obama. O presidente depois de ler o livro numas férias veio de imediato dizer que se tratava de uma das grandes obras da literatura americana. Franzen colhe os louros disso e de saber estar no cento das atenções graças aos artigos que vai assinado na “The New Yourker”.

“Liberdade”, como antes “Correcções”, veio para ser o livro de uma década. Citado, lido, posto numa estante como marco. Clássicos como “Guerra e Paz”? Isso fica para o tempo. Para já, é um prazer ler.