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Como gente grande

Queria escrever como gente grande.

Mesmo quando me sentava à minha secretária onde os pés não chegavam ao chão. Rabiscava, gatafunhos que só tinham sentido para mim. Lia neles o que queria e sabia que mais ninguém entenderia. Eles falavam baixo e eu sabia que não era para mim. Pequena, baixava os meus olhos e criava o meu mundo. O mundo dos adultos era o meu grande mistério. A maturidade das conversas que eu tentava descobrir quando sussurradas, os movimentos dos lábios em rostos sérios ou sorridentes. Que diriam? Coisas que eu podia lá saber, mas decerto inteligentes, sábias, certeiras. Lembro de me por ao espelho a imitar expressões, a movimentar os lábios e a gesticular como os via. A repetir com voz grossa a frase desafiadora do meu avô: “Agora és a última a falar e a primeira a ficar calada.” Dizia aquilo só porque sabia que me irritava, e passava a grande mão pela minha cabeça num sorriso que eu não via. O importante não era parecer-me com eles, era saber o mistério das suas cabeças. Quando me sentava a escrever era a esse mundo que queria chegar, mesmo quando o que saia ainda não eram letras. No meu alfabeto muito pessoal, arrependia-me de frases, refazia parágrafos, editava a narrativa. Que sabia eu? Ia lendo o que já tinha sido escrito, colocando ênfase em alguns momentos. Era uma música que eu relia sempre numa auto-intimação a aprender a ser grande.

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secretária nova

É hoje.
Tenho uma secretária nova e vou desatar a escrever.
Melhor: começar a desatar a escrever.
Estava à espera dela para isso. Sentada no sofá, a passar paginas de um livro, enquanto perdia os olhos na televisão que dava as últimas do coronel libanês.
Foram meses.
Com secretária nova é que era, acabavam-se as desculpas, os momentos mortos, os procrastinanços.
Sem secretária nada acontece.
Eu sabia disso. Precisava dela mais do que de papel e caneta. Seria o princípio.
Nunca mais chega a secretária, pensava eu quando me dava a vontade mas me faltava a inspiração ou vice-versa.

A secretária chegou numa manhã triste. Cinzenta, de más notícias.
Ela era o sinal de que nem tudo é mau e, claro, agora é que haviam de sair coisas boas.
Tentar não custa quando se tem uma secretária em condições.

Lá está. Tampo liso, da cor que escolhi, da madeira que escolhi, grande para poder espalhar nela todos os livros, todos os papéis, todas as coisas úteis e inúteis que servem para escrever, ou não. Seria agora, mais uma mão pelo tampo, como que a testá-la, a domá-la. Não me dome eu a mim… e já estão as canetas e o tapete e a cadeira que era do meu avô e fica ali mesmo a matar. E se não ficar, melhor que fique porque as economias foram para a secretária, ela que tem a capacidade de mudar vidas. Que mude então a minha, que foi para isso que esperei por ela, por esta manhã em que dois rapazes rasparam a parede para a pôr no lugar.

Cá está a secretária nova. Vazia. Olho para ela e para todas as possibilidades e fico presa nisso.
E agora o que falta mesmo é um armário para arrumar as tralhas. E pendurar os quadros e as fotos que vão fazer a diferença. Afinal, uma secretária sozinha não faz milagres, descobri agora, mãos em cima do tampo, janela aberta para a varanda, o sol a entrar no tapete vermelho.

Já tenho uma secretária nova, posso começar. Não posso? Então porque não começo?