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In a big jet plain

Levo uma música. Não me lembro de a ter escolhido…  Gonna take you for a ride in a big jet plane.

Angus & Julia Stone a picar-me os miolos como quando os ouvi pela primeira vez numa estrada larga, a caminho do mar na costa leste da América. Foi desde aí. Um frio de rachar, eu a fazer anos e a querer esquecer que fazia.

Bela música para fugir. Pelo menos naquele dia era. Bom som para sair da idade. Agora cola-se, nostálgica, miudinha. Lá está ela enquanto os seguranças me mandam fazer tudo o que não quero.
Penso nos pés sem sapatos. A revelação pública das meias irrita-me mais do que a mulher polícia que me manda pôr os braços para cima enquanto os dela seguem para baixo, na direcção das meias. Eu ali, exposta, e vale-me a música que ganhou direito a beatificação e me iludiu nesse tempo. Para mim, a meia é mais íntima do que o pé. Nada a fazer. Gonna take you  for a ride  in a big jet plane… Não olho para os pés, ou melhor, para as meias. Angus e Julia continuam e se o pensamento tivesse headphones emprestava um à senhora que me pede agora um teste às mãos. Vestígios de quê? Posso ir detida? E assim descalça, ou melhor, de meias?

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O político

O aviãozinho esperou o político no sítio das partidas vip da Portela.

Ele chegou de gravata de seda vermelha e fato de bom corte. O sorriso desfez impaciências. Seguia para norte em conversa bem feita com os convidados que foram ver como é que um político deve estar com o povo numa inauguração longe da capital. Bem falante, contava histórias num tom casual muito treinado, tentando uma intimidade que, conquistada, servia de travão a perguntas mais incómodas. Palavras contadas para conseguir aliados.

O aviãozinho voava e o político atreveu-se a dizer que tinha um certo medo. Será? Os convidados simpatizaram e fez-se humor sobre o medo. O político somava pontos. Aterrou.

Compôs a gravata, ajeitou as calças, abotoou o casaco e pôs o sorriso de acordo com o acto de descer as escadas entre o cumprimentar do senhor que lhe estendeu a mão antes de o levar ao carro sem passar pelas maçadas da segurança. O motorista esperava-o, vindo de Lisboa, no seu carro de sempre. Era preciso ir mais a norte. E o político sentou-se à frente. Disse que era sempre assim. Sempre assim. Não era, Costa? Pois.

E na terra o povo estava aos magotes, sem ordem nem arrumo. Era tarde e a paciência é limitada. Além de que os sapatos apertam e as gravatas não se moldam aos pescoços. E há tanto que fazer e dizer e o político que não vem. Mas lá vinha. A banda tocou e todos se perfilaram, presidente da Câmara à frente de uma populaça treinada para receber. Aperto de mão fraterno. Quem diria que eram rivais políticos? Eram, mas o político de Lisboa ia ali anunciar obras novas e quem diz que não a uma novidade? Havia discurso, almoço e passeio à beira rio e fatos para estrear.

Os políticos trocaram os sapatos engraxados por galochas e, um e outro, lado a lado, conversavam o que ninguém ouvia, cajado na mão a desbravar mato, como se fosse coisa de todos os dias. E os outros atrás. O da terra apontava. O de Lisboa fazia que sim com a cabeça. Seria ali. Era aquele o lugar que iria fazer toda a diferença à política nacional sem que ninguém desconfiasse. Vendia-se orgulhos e todos compravam. E falaram, anunciaram, sorriram, voltaram a apertar a mão, deram palmadas nas costas, ouviram palmas e calaram o que havia para calar. Palavra de político. O negócio estava feito. Comeu-se carne, bebeu-se vinho, provou-se o doce e não houve tempo para café. O político de Lisboa é ocupado e tem de chegar a horas para a reunião. A reunião!

E veio o carro e depois o aviãozinho e o político foi citando pensadores, inspirações, referências, passou pelo corredor e arredou a cortina da janela do gabinete. Acendeu o cigarro e olhou o rio da varanda.