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Arrumado

O escritor deixou de fazer sentido. Leio-o e encontro malabarismos, piruetas, emoções a martelo. Um bocejo. Escrita à medida de uma expectativa fabricada pelos fabricantes de livros, cada título uma encomenda. É preciso fazer chorar, fazer rir, fazer bonito, mostrar que se sabe, citar… O escritor deixou de olhar para dentro, de observar cá fora, para se ver a ele num espelho gigante, corpo inteiro de sucesso, músculo ganho à conta de vendas. Nada contra as vendas, bem entendido, mas… Continuo a olhar as páginas como para encontrar a razão da perda do tal sentido. Achar nelas o talento de fazer diferente com as mesmas palavras sem trair a essência da escrita: o tal espelho onde cada um é capaz de se ver e não apenas encontrar o reflexo do escritor musculado. O meu escritor tornou-se banal, papagaio sem penas nem fado. Fecho o livro e arrumo-o na prateleira, ao lado dos outros livros dele que me fizeram segui-lo, e passo à letra seguinte.

Só a imagem

As palavras são as de Herberto Helder, num foco tão próximo que lhes altera o sentido dado pelo poeta.

É outra leitura, outra história, uma coisa e as suas vastas possibilidades. Isso, que o fotógrafo Paulo Alexandrino, quis contar, ou melhor, dar a contar, numa exposição com 13 peças. Nove individuais e quatro díptícos para os quais não quer encontrar uma ordem, alinhar o caos. Nada disso. São olhares, os dele, sobre situações, sítios, coisas.  Elas estão ali e quem quiser que lhes encontre um sentido.

“Os rios correm para o mar”, como o pneu que rola na areia e dá nome à mostra. O que fazem então estas palavras aqui, incompletas, retiradas de contexto, ao lado de uma sala de autópsia? Incomodam? “Eu nunca durmo.” É a única frase completa que pode ler-se. E ao lado uma cama vazia. Noutro contexto, noutro ambiente, noutra foto, mas que o fotógrafo quis casar. Talvez então se possa dizer que este é o olhar do fotógrafo quando o fotógrafo experienta olhar para o lado e se fixa em algo que lhe interessa e não na encomenda.

Foi com o Paulo que eu aprendi a olhar a realidade através da lente. A realidade que eu queria reportar. Foi ele quem me perguntou pela primeira vez: “É isto?”, apontado para uma imagem. E eu sem saber muito bem se era aquilo. Ele sabe narrar, reportar, contar uma história com imagens. Estas não são imediatas, repito. “Os Rios Correm para o Mar” são esse olhar despretencioso. Um história que pode ser outra qualquer.

“A exposição convida o espectador a fazer a sua própria ficção sobre cada imagem e a construir uma narrativa pessoal sobre a unidade do conjunto”, escreve na apresentação.

Pode ser vista a partir de hoje e até dia 2 de Dezembro no Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.