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passear bonecas

Foto de Robert Frank

Eu fazia como a menina da foto de Robert Frank, mas usava um camião vermelho de plástico que obriguei, com uma forte birra, a minha mãe a comprar numa loja de brinquedos de uma senhora velha. Todos os dias escolhia uma ou várias bonecas para levar a passear no meu camião igual ao dos rapazes. De vez em quando fazia corridas com o camião, ladeira abaixo, e algumas bonecas saltavam. Corria a socorrê-las, mudava-lhes a roupa, penteava-as e elas voltavam a parecer bonecas. Ainda tenho esse camião. Está no sótão da casa, com uma corda tirada de um novelo de lã grossa que a minha mãe usou para fazer uma camisola. Puxei o cordel e tive o impulso de encher o camião de bonecas e pô-lo a correr ladeira abaixo, com a promessa de que mudaria de vestido às bonecas.

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Assis Pacheco

O tempo desfaz-se em pó por cima do livro esquecido. Quantos anos? Antes de passar o dedo tento adivinhar a capa. Parece rosa, mas está velho. Luz e pó deformam uma cor. As telhas são vãs neste sótão de aldeia. Passo o dedo e confirmo ser o livro que há muito achava perdido. “Retratos Falados”, uma edição da Asa, uma relíquia que não sei como foi parar à pilha do esquecimento. Pego num trapo ainda mais velho do que o rosa da capa e limpo o tempo a um dos livros que me fez querer ser qualquer coisa.

Saber perguntar assim, ter aquela língua de perguntador, certeira, irónica, curiosa, capaz de criar no outro um grau de cumplicidade que o leva, ao perguntado, a deixar cair as armas, ao desconcerto. E saber a deixa, sempre, ser interlocutor numa conversa mais do que ser entrevistador.

Foi naquele livro que li pela primeira vez Fernando Assis Pacheco. Li-o nas perguntas e nas respostas a que elas levavam e eu quis saber fazer aquilo.

Aprende-se? Alguma vez se aprende a ser assim, a fazer assim? Mas tarde soube que se pode tentar, mas só ele sabia ser assim. Li-lhe depois os poemas, todos os livros. Fui ver como uma das suas filhas lhe ilustrou capas de obras póstumas. Amigos que privaram com ele contaram-me que ia em reportagem, e não tomava uma nota e era capaz de contar a história como ninguém. Cada vez o admirava mais.
Quando comecei  também a perguntar quis um dia poder perguntar-lhe, mas a vergonha ia-me impedindo até que ele um dia, cedo de mais, não voltou a perguntar nem a contar, nem a fazer poemas com a vida. Sem nunca o ter conhecido pessoalmente, chorei. Confesso agora sem vergonha das lágrimas, mas envergonhada pelo meu orgulho, a pena de nunca ter tido coragem de lhe perguntar o que quer que fosse mesmo que tivesse feito triste figura.

Volto ao pó. Peguei no livro e limpei-lhe o tempo depois de ter lido a biografia que a Tinta da China acaba de editar sobre Assis Pacheco. Quis voltar a ler-lhe as perguntas e sabia que esse livro tinha de existir. “Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco”, de Nuno Costa Santos, título inspirado em “Benito Prada” e na Galiza que corria no sangue do coimbrão.

Voltei às entrevistas de papel amarelo, feitas a gente que já morreu ou já perdemos ao vasto horizonte do tempo. Só ele, Assis, escapou ao pó.