Tag Archives: tempo

A prazo

Não é preciso olhar para os ponteiros para saber que se consegue.

Talvez no início. E quanto mais se olhava maior o stress, tempo perdido sem saber dessa perda. Depois vem o hábito, a rotina. Sim, a perfeição é o limite determinado pelo prazo. É uma lição de humildade. Saber que é provável o erro, a falha, a gralha. Tudo porque, depressa e bem… Não somos máquinas, temos dias, horas e um minuto pode deitar tudo a perder, matar o resto, que foi tanto e acabou em nada. Dói. Tanta angústia ao deitar sem saber como vai sair a página amanhã. E sempre mais um telefonema, mais uma declaração, a tentativa de apanhar o que ninguém apanhou, e mais uma penteadela ao texto, uma corrida, uma demora a escutar quem não sabe desta pressa, da urgência.

Dead-line, linha da morte. Em português tem outro peso. É ir, esquecer o tempo e saber que na vertigem se é capaz. Afinal, nunca saiu uma página em branco, ouvimos dos mais velhos, repetimos aos mais novos. Nunca. Comprimido que acalma. Isso ou: “esse texto é para o Pulitzer?” que acaba com a pretensão. Uma vida a obedecer a um relógio sem o ver. Prazos a cumprir nem que isso custe o sono, o almoço, uma sandes ao jantar, a família que não se vê. E tudo porque… às vezes nem se sabe bem. Porque se gosta da adrenalina, da história, de a contar, de fazer chegar aos outros algo que temos a pretensão que seja importante para eles. Se é para nós… E continuamos, às vezes robots, às vezes demasiado gente com lágrimas que tentamos esconder.

Olheiras, sorrisos, acontece um êxtase. Pode ser apenas por uma missão cumprida. Fechar uma página, fechar 40. Escrever a breve das nossas vidas. Ir a todas, ou ser capaz de ir. Na vida, na morte, o livro, a música, na rua, com os pobres e os ricos e os outros todos em quase todos os lugares. Ver rir, ouvir o choro, provar o bom, saber do amargo. Viver e contar. Uma vida a trabalhar para um prazo, há quem diga que é uma missão. Às vezes queremos acreditar que sim, mas há sempre quem nos tente, como a Judas. E quem nos tire o relógio, e então, mesmo sem olhar para ele há tanto tempo, é como se faltasse tudo e o que era o sonho do alívio do tempo, de não haver a linha da morte, acaba num desasar.

Com todo o tempo, sem prazo, a quem  culpar pelo erro, pela gralha e pela angústia que ela dá? Sem cruzar os braços, sou uma espécie de Bartleby, “preferia não” e a grande dúvida volta nessa passagem do rápido ao longo. Não pior, não melhor. Outro ritmo. Serei capaz de esquecer que não há relógio e uma hora pode durar um ano?

Advertisements

Assis Pacheco

O tempo desfaz-se em pó por cima do livro esquecido. Quantos anos? Antes de passar o dedo tento adivinhar a capa. Parece rosa, mas está velho. Luz e pó deformam uma cor. As telhas são vãs neste sótão de aldeia. Passo o dedo e confirmo ser o livro que há muito achava perdido. “Retratos Falados”, uma edição da Asa, uma relíquia que não sei como foi parar à pilha do esquecimento. Pego num trapo ainda mais velho do que o rosa da capa e limpo o tempo a um dos livros que me fez querer ser qualquer coisa.

Saber perguntar assim, ter aquela língua de perguntador, certeira, irónica, curiosa, capaz de criar no outro um grau de cumplicidade que o leva, ao perguntado, a deixar cair as armas, ao desconcerto. E saber a deixa, sempre, ser interlocutor numa conversa mais do que ser entrevistador.

Foi naquele livro que li pela primeira vez Fernando Assis Pacheco. Li-o nas perguntas e nas respostas a que elas levavam e eu quis saber fazer aquilo.

Aprende-se? Alguma vez se aprende a ser assim, a fazer assim? Mas tarde soube que se pode tentar, mas só ele sabia ser assim. Li-lhe depois os poemas, todos os livros. Fui ver como uma das suas filhas lhe ilustrou capas de obras póstumas. Amigos que privaram com ele contaram-me que ia em reportagem, e não tomava uma nota e era capaz de contar a história como ninguém. Cada vez o admirava mais.
Quando comecei  também a perguntar quis um dia poder perguntar-lhe, mas a vergonha ia-me impedindo até que ele um dia, cedo de mais, não voltou a perguntar nem a contar, nem a fazer poemas com a vida. Sem nunca o ter conhecido pessoalmente, chorei. Confesso agora sem vergonha das lágrimas, mas envergonhada pelo meu orgulho, a pena de nunca ter tido coragem de lhe perguntar o que quer que fosse mesmo que tivesse feito triste figura.

Volto ao pó. Peguei no livro e limpei-lhe o tempo depois de ter lido a biografia que a Tinta da China acaba de editar sobre Assis Pacheco. Quis voltar a ler-lhe as perguntas e sabia que esse livro tinha de existir. “Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco”, de Nuno Costa Santos, título inspirado em “Benito Prada” e na Galiza que corria no sangue do coimbrão.

Voltei às entrevistas de papel amarelo, feitas a gente que já morreu ou já perdemos ao vasto horizonte do tempo. Só ele, Assis, escapou ao pó.

O tempo e um rebuçado de mentol

“Sabes, uma vez passei três dias em cima de uma árvore e a boca sabia-me a sangue.”

Ele não tinha ideia de quantas vezes já me contara aquela história. Nem eu. Os anos passavam e escutava-a como se fosse nova. Falava e não desviava os olhos da televisão, mas duvido que soubesse quem marcara o golo pelo Sporting. Festejou, claro, mas essa alegria merecia castigo. Ele não podia ter a futilidade dos que vibram com a bola. Não ele que sabia o que era ter a boca a saber a sangue. Não pela fome, mas pela sede. Estar num equilíbrio difícil, silencioso, agarrado a uma arma como à vida, se se poder deixar vencer pelo sono, estômago dormente com falta de comida, força nos limites mínimos, concentração a raiar a loucura … “mas se tu soubesses o que é não ter água para beber… Morre-se mais depressa de sede do que de fome.”

Lá estava ele e uma das primeiras verdades que me ensinou quando eu ainda não tinha idade para perceber o que era morrer, quanto mais morrer de sede. Nem ele, quando estava em cima da árvore, uns vinte anos e a levarem-no de casa para o mato, quase uma criança na sua ingenuidade rural. Era assim que falava: do mato.

E era Natal por esses dias, mas nem a lembrança das filhoses da mãe, do perú que ele aprendera a embebedar antes de ser caçado para o forno. Se ao menos pudesse ele, ali em cima daquela árvore, embebedar-se com o whisky de quinta categoria que lhe ia chegando sempre, contrabandeado, para esquecer a sede e o amargo de boca. Quantas vezes despejara garrafas só para esquecer onde estava, o que fazia? Mas era com água que sonhava. Podia vir em latrinas sujas, podia vir dos rios infectados com doenças de que ele mesmo antes de saber o nome já perdera o medo. Medo de quê quando pode vir um tiro de qualquer lado e acabar com tudo? Ele não tinha medo mas precisava de whisky. Afinal não ter medo pode ser assustador e agora o que precisava era de água porque um soldado não pode simplesmente acabar caído de uma árvore que nem um tordo. Também nunca quis tanto uma caneta e aquele bloco de folhas de carta. Não há melhor maneira de escrever sobre uma alucinação a não ser no momento em que ela está ali a alucinar. Sabia que não iria esquecer aquela sede enquanto fosse vivo, mas tudo o que contasse ou lembrasse depois seria pouco diante daquela presença.

E talvez por isso contasse tanto, logo que desceu da árvore, não fosse aquela memória diluir-se. Há coisas que matam que não queremos matar.

Contraditório? Seja, mas é assim. E lá estava ele, tantos anos depois, comando da televisão na mão, pés cruzados no conforto do sofá, a não deixar apagar. E sempre a mesma interlocutora. Ela havia de reter essa guerra onde ele ainda vivia, apesar das rugas que vieram, dos cabelos que foram, do álcool que se acumulou e quase lhe tirou o fígado, apesar do medo que voltou porque o mato estava longe e já não havia tiros, mas a vida escoava, rotineira, sem história. O medo da sem-aventura é o pior por não ter razão de ser.

É o medo dos poucochinhos, esse lume brando em que só um cancro pode aparecer como grande papão. E apareceu e a guerra perdeu valor. Por isso lamenta-se: se ao menos pudesse ter escrito essa sede nas mesmas folhas que usava para mentir para casa sobre uma guerra que ele ficcionava e onde tudo corria bem e a boca não amargava. É que agora, depois do cancro, isso não tinha a mesma importância. Daí a repetição. Era preciso repetir para fixar. Tinha o comando na mão, mas mudou de canal e calou-se. Hão-de vir outros golos a pedir lágrimas para o ilibar da alegria e desviá-lo do facto desses dias de sede estarem a perder importância na sua biografia. Mesmo que ele não queira, mesmo que o passar do tempo se assemelhe a um rebuçado de mentol a matar maus hálitos.

A gargalhada

Uma imensa gargalhada. Gasta pelo tempo, pela fita magnética que foi perdendo o magnetismo de tanto roçar na cabeça do leitor.

É a gargalhada velha de uma criança. Uma gargalhada cheia de requebros e de cortes. Não me faz rir. Ainda não sei porquê. Há algo nela que me prende. Faço rewind. Volto a ouvir a fita fina até me reconhecer naquele riso. Olho para o meu tio. Ele sorri. Espera a minha reacção e eu não sei que reacção lhe dar. Um dia eu dei muitas gargalhadas e ele decidiu imortalizá-las ali ate ganhar coragem para o dia de hoje. Não que tenha pensado nisso quando quis mostrar as maravilhas da sobrinha mais velha aos amigos. E como ela ria… E lá atrás no som, sumida, a dele que ele não queria gravar mas que lhe saia. Tal como o choro, o riso contagia e ambos trazem lágrimas. Eram lágrimas o que havia agora nos meus olhos ao olhar os dele, a evitar os dele e ele também brilhante nos olhos. E a gargalhada a ecoar pela casa, a apanhar-me desprevenida. Há fotos de rostos, mas não havia muitas fotografias de sons, dos nossos.

Não sou uma bebé digital, nunca vi uma imagem minha em movimento quanto mais uma gargalhada, um som, uma palavra. E lá estava eu no meu contentamento gravado, imortal até que a fita fique tão fina que… pois, agora ela pode ser gravada e ficar outra vez imortal noutro registo que não o da fita. Promete sobreviver-me ainda que já não esteja completa, com os cortes, os soluços do atropelo do riso.

E os meus olhos a brilharem e os do meu tio que não tira o riso dos olhos dele. Ele era um puto a brincar com a sobrinha. Agora não. Mas é esse puto que ele revive e é a sobrinha que ele vê a rir até perder o fôlego em gargalhadas que para ele eram únicas e mereciam ficar para sempre. E para sempre é hoje. E eu e ele estamos lá, com a gargalhada a tocar até a fita partir, a rir e a chorar.

A chorar de rir

Vá, escolhe…

Vá, escolhe. Milhares de lombadas perfilam-se de todas as cores numa ordem que acabou por se desordenar. Escondem gente. Nomes, terras, ambientes, lágrimas e gargalhadas. Há sublinhados, folhas dobradas e pó que se acumula e não se vê em papel mais amarelecido. Mais branco, com mais ou menos tempo, mais ou menos luz. Há grãos de areia de uma praia que vive na memória. Há uma mancha de café, um cheiro, uma factura esquecida que já não entra noutra contabilidade que não a da história de um dia onde houveram outras facturas.

Vá, escolhe. Escolhe entre essas milhares de lombadas a que faz a diferença. A que fez a diferença. Tantos livros e nada para ler. Como quando se abre um roupeiro. Tanta roupa e nada que vestir. Há que ir às compras. Encher mais prateleiras, comparar uma estante nova para os livros que andam pelo chão e invadem o espaço como insectos com cio. Crescem e multiplicam-se como se tivessem vida própria. E não têm.

Vai, escolhe. Entre os lidos e os não lidos, os que se sabem que nunca se irão ler e aqueles que estão prometidos para um dia, umas férias onde haverá tempo, um tempo em que não irá haver interrupções. O telefone não toca, a criança não chora, nem haverá a culpa do que não se faz por estar a ler. A visita que ficou por fazer aos pais, a tarde na praia, o filme que vai sair de cartaz. Esses são os livros que um dia… Um dia, certamente. E depois os outros, os que se pegam displicentemente, como quem não quer e que se colam às mãos, aos olhos. Uma frase, uma vida que se pega e não os deixa voltar tão depressa à prateleira.

Vá, escolhe entre esses milhares os que levas e os que deixas para um dia, quando tiveres tempo. Os que ainda não foram parar ao quarto entre os vários a mendigar uma abébia de sono e entre os que o roubam descaradamente, sem complacência pelo que vem a seguir. No silêncio há menos culpa pelo que se lê.

Vá, escolhe. Lembras a frase que copiaste para o caderno como quem a quer eternizar fora do contexto em que alguém a colocou como se valesse só por si? Solitária e completa. Uma frase. Um ambiente que aparece em flashes numa memoria que não obedece a calendários  nem conhece cronologia. Vem ao acaso.

Vá, escolhe. São milhares e o ‘P’ já não vem antes do ‘Q’, que é como quem diz que também não há alfabeto que resista à cadência das entradas nem à arrumação da mulher a dias que numa mudança de casa decidiu arrumá-los por cores. Um arco-íris de lombadas e a memoria a ditar que o rosa velho está perto do castanho claro, ente alguns salmões.

Vá, escolhe. Os clássicos, os contemporâneos, os que arriscam e não têm género, os de policias e ladrões, os de fazer chorar as pedras da calçada e aqueles que fizeram cair uma lágrima que demorou nos a desfazer-se, que ainda não se desfez sempre que a lombada se impõe.

Vá, escolhe. O espaço não se compadece e as malas têm limite de peso. E então “O Amor nos Tempos de Cólera” não pode ficar para trás e “Em Busca do Tempo Perdido” não é coisa que se deixe.  Ah! “Crime e Castigo” para quem se esquecer de “O Som e a Fúria”. Vá, escolhe. O novo romancista que está a dar cartas e ameaça fazer escola. E o calhamaço que saiu no Verão e tem de ser lido antes que acabem as conversas onde ele pode entrar.

Vá, escolhe. Não há muito tempo e as malas estão quase cheias e o peso custa dinheiro. Não vale olhar para trás. Como estes muitos vão chegar. Mas que raio, é preciso não esquecer aquele que vai fazer falta quando tudo desabar. E esse qual é?

Vá, escolhe. Nada de dramas. Afinal hás-de voltar. Qualquer bilhete pode ter regresso e aquelas lombadas não passam de guardiãs de palavras que alguém ordenou numa certa ordem. Também tu podes dar ordem às tuas e não tem necessariamente de ser em papel. És ou não do teu tempo?

Vá, escolhe. Entre o que vai e o que fica já sabes que sais derrotada. Leva um, só um. Fecha os olhos. Tira ao calhas. Já sabes que dói por isso para quê o drama? Um, só um. Nada de batota. Roda o corpo, despista as coordenadas. Nada de jogo viciado. Vais embora e só tens direito a uma lombada. Os braços baixam-se. Os olhos abrem-se. Olham o conjunto, têm pena de o desfazer.

Vá, escolhe. Os ponteiros do relógio não sabem o que é isso da hesitação. Vá, vá, vá,… a cadência aumenta e quer-se um livro que comporte em si a falta dos outros. O tempo está a acabar. Agora ou nunca.

Vá, vá… tudo teria sido tão mais fácil se a mulher a dias não tivesse escolhido aquela arrumação em arco íris. Como desfazê-lo? E lá vêm as palavras da tua avô: “Pede um desejo sempre que vires o princípio e o fim desse arco de cores”. Ela que não sabia ler as palavras mas que as ordenava sem livro.

Vá, escolhe… Pois que fique o arco-íris. Nem que seja reflectido na lágrima de quem deixa para trás a paleta de cores que há-de ficar ali, com o seu princípio e fim, pronta a satisfazer desejos. Basta que no regresso se sopre o pó.

(crónica publicada no Diário Económico)