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Do Belo

A ventoinha zumbia por cima da cabeça e era o único barulho além de uma ou outra buzinadela de um trânsito impaciente naquela rua de um bairro de putas e chulos e gente solitária. Estava num bar escuro e esperava um escritor.

Sabia da mesa onde se sentava, sempre com um scotch à frente. Acendia um cigarro e deixava que ele queimasse, logo após a primeira baforada, entre o polegar e o indicador tão amarelos quanto papel pardo. Despejava o copo e só depois, houvesse humor ou raiva ou os dois juntos, tirava um bloco gasto e uma caneta. Tinha de ser de tinta preta. Era o único requisito. Dizia que não conseguia escrever sem raiva e ria a bom rir da inspiração. Talvez a culpa fosse do scotch que lhe dava aquele torpor próximo do lado de lá das coisas.

Inspirado ou tocado pelo álcool, escrevia e isso era um alívio. Um amigo psiquiatra dizia-lhe que era a sua salvação, que de outra forma já teria dado um tiro na cabeça. Na dele ou na de alguém.  Ele, o escritor, via-se mais ao soco do que aos tiros, mas enfim… a psicanálise dá para estas explicações e por respeito ao amigo ele dava-lhe algum crédito, ainda que mínimo. Se era para doer que fosse lento e partilhado, dizia em defesa do soco.

Pedia um segundo copo e a caneta ainda estava pousada no papel. A ventoinha zumbia; no balcão nem um cliente. Só o homem do costume, de camisa branca e colete preto às riscas a passar o pano pelo mármore. Horas nisto. Coisa de loucos, de gente só. E eu quis ver. Pedi uma imperial com medo de não aguentar o escocês, na esperança de passar despercebida. Tola. Ele só fingiu não me ver e o outro fingiu ser normal atender uma rapariga de franja e ar de universitária armada aos cágados. Ela queria ser escritora e aquele cheiro a tabaco velho impregnado nas paredes, na alcatifa era só mais um chamariz. Queria ser como aquele homem, duro na escrita, limpo de adjectivos, direito ao assunto, sem pieguices gramaticais. Ela queria ser escritora como ele mas ela não sabia da tal dor. Ouvira falar dela, lera muitas vezes sobre ela, talvez já a pressentisse. Queria saber mais. Será que estaria visível nele, essa dor? Um gesto, uma expressão e lá estava ela? Procurava por ele, o escritor, nos livros que ele escrevia. Um dia ganhou coragem, perguntou-lhe como era, o que era preciso. Ele acendeu mais um cigarro e deixou-o queimar. Acho que a olhou. E foi a vez dele perguntar se já sentira o peso de um punho. No estômago, num olho que arroxeava na hora, de uma costela partida contra um degrau. Não esperou resposta nem ela a deu. Escrever é uma violência assim, escrever é assim físico. Pôs o discurso bem directo: “bebo para aguentar o reviver dessa dor; bebo para a tornar ficção e ficar mais suportável e às vezes parece que sei escrever sobre coisas belas, o belo, e o que dizem… Da dor pode nascer o belo.” E ria uma gargalhada rouca. Deve ser da loucura desta ventoinha por cima da cabeça, do álcool a tomar conta do meu sangue, porque do belo eu não sei nada.

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Da raiva

E de repente tudo faz sentido.
Dois dias a ler “A Ilha de Sukkwan”, é sentir um murro no estômago à moda de Cormac McCarthy ou William Faulkner e tentar perceber o porquê.
Porque ninguém escreve um livro assim sem uma boa razão e aí tem de haver uma dose de verdade.
David Vann, o autor, afinal acredita nisso, que a ficção tem de ser verdade. Isto soa melhor dito pela escritora Grace Page: “Fiction must Allways be true”. É que quando se escreve com a intensidade e a simplicidade de Vann não pode haver mentira. Há sim trocas de personagens, mas isso é outra coisa.
Muita coisa de “A Ilha de Sukkwan” se explica depois de saber um pouco da biografia deste escritor nascido em 1966 no Alasca, que esperou uns bons anos até ver publicada e reconhecida a sua escrita. Tantos anos que ele diz que deixou de se importar muito com ela, ou melhor, com o que dela se poderia dizer. E foi escrevendo e dando aulas até que… concorreu ao prémio de short-stories e ganhou… Foi quando perdeu a vergonha de dizer o motivo da morte do pai: suicídio.
Durante dois anos, a raiva fê-lo dizer que fora de cancro. Um tiro na cabeça, estava no escritório, foi-se a vida ficou um bilhete para a mulher, madrasta de Vann. Amo-te, não consigo viver sem ti.
No caso, nem sem porque antes fora ela a tentar acabar com tudo. Vann tinha 13 anos e não é difícil descobri-lo em Roy, o protagonista de A Ilha de Sukkwan, o rapaz adolescente, de 13 anos como ele, que embarca com o pai, um dentista como o pai de David, para viver uma aventura numa ilha inóspita no Alasca.
Que rapaz não gostaria de uma aventura assim. Pois.
Roy foi, acompanhou o pai e às noites ouvia-lhe o choro e de dia a frustração de ter falhado o casamento com a segunda mulher, a confissão de que não conseguia viver só, a traição à mãe. A primeira, a segunda, tantas infidelidades.
E a tentativa, mais do que uma, de pôr fim à vida, quando caiu de uma falésia. Roy, nas suas saudades de casa, suspeitou que não fora bem assim. Quando viu o pai quase a morrer achou que fora de propósito. Nunca lhe disse, como não disse nada no dia em que o foi encontrar com uma pistola pontada à cabeça ao lado do rádio onde comunicava com Rhoda, a ex-mulher, depois desta lhe ter cortado qualquer possibilidade de uma reconciliação.
O pai de Roy, ao contrário do pai de David não atirou. Na sua eterna cobardia baixou a arma e entregou-a ao filho e então começa quase tudo, uma vida de falhanços, de tiros lado, da derradeira falha.

Ler “A Ilha de Sukkwan” é saber da relação entre homens e mulheres, entre pais e filhos, do egoísmo e da tentativa de emendar um erro com outro erro. Para chegar onde? David Vann agora já diz de que morreu o pai, e como muitos outros escritores fala da escrita como salvadora. Salvou-lhe a vida, o trauma que não o deixara dormir durante 15 anos. Agora escreve e muita gente quer saber disso. Ganhou um prémio com esta história. O Medicis, em França. E continua a escrever.

Em Outubro haverá mais.