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Aside

Hoje comecei a leitura de O Verão de 2012, um livro que antes de o abrir já me fez viajar. Fixo-me na capa. Revivo marés-baixas, banhos gelados e de sol. Leituras e livros cheips de areia de uns meses tão … Continue reading

O Chapéu

O chapéu de palha girava-lhe nos dedos. Como se chamava o modelo? Fez um esforço, mas não sabia nada de chapéus. Ele é que sabia dos fedoras, dos panamás e de todos os outros.

O chapéu girava nos dedos e ela pensava na falta que ele lhe fazia. E não lhe venham dizer que falta é o mesmo que vazio. Isso é o que a ponta do cigarro aceso faz no guardanapo de papel. Um buraco que alastra e consome até não restar nada. Foi ele quem usou a metáfora para lhe dizer do perigo do desgaste, do que o tempo e o não dito e mal dito podem fazer entre duas pessoas que se amam.

A falta dele não era o vazio. Era uma enorme ausência. Quase tudo e não quase nada. O chapéu que lhe girava nos dedos, de palha amarela, diz que tecida à mão, aumentava essa ausência. Lá fora, a tarde era de inverno, mas o tempo igual ao de verão, como no dia em que aquele chapéu fazia todo o sentido e não lhe girava nos dedos.

O verão acaba aqui


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.

Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
alma e brancura.

Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.

Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro (1961)

De volta a Conrad

Volto a Joseph Conrad e a “Nostromo”, um autor que me faz sempre viajar para os sítios que quero, mesmo quando não são os melhores, e da forma que desejei mas nunca consegui, e a um livro que mais do que todos os outros de Conrad me liga ao mar, o meu elemento desejado. Gostava de ser do mar.

Não sou marinheira, e lembro-me de o meu pai me dizer, na choradeira de fim de férias, que se eu quisesse ficar os doze meses por ano de toda a minha vida ao pé do no mar ou casava com um pescador ou com um homem rico. Passaram-se muitos anos desde esse conselho; não vivo os 12 meses do meu ano junto ao mar, e o homem que melhor consegue essa aproximação continua a ser Joseph Conrad, o escritor que nasceu Józef Teodor Konrad Korzenieowski, em 1857, na Polónia, e que em 1904 publicou este “Nostromo”.

Só o conheci anos depois da famosa tirada paterna que me deixou a pensar, talvez pela primeira vez, no lado interesseiro de concretizar o sonho. Não fosse isso e teria atirado com “Nostromo” para os braços do meu pai.

Conheci-o pouco depois da faculdade, num Verão como tantos outros, cheio de ruído onde encontrava o meu silêncio nas páginas que guardava cheias de grãos de areia. No fim, entretinha-me a abrir página a página a correr com eles, ao sopro ou com as pontas dos dedos, uma sensação semelhante à de cortar as páginas coladas dos livros com as velhas facas. Manias.

Hoje voltei a Nostromo, uma edição nova, limpa de areia e não quis deixar de assinalar este dia.  Agora vou-me a ele. Sem a surpresa da primeira vez, mas com a mesma emoção de quem se senta numa esplanada a sentir a maresia, haja sol, ou uma manta nos joelhos.

“No tempo do domínio espanhol, e ainda por muitos anos, a cidade de Sulaco, cuja beleza luxuriante dos laranjais dá testemunho da sua antiguidade, não passava de uma cidade portuária…” e lá vou eu, por Costaguana, um lugar que só existiu na imaginação de Conrad, na costa ocidental da América Latina, entre a prata da mina de San Tomé e os seus efeitos nas vidas dos que lá moram. Para já, os outros livros que esperem. Apeteceu-me mais deste.