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Passageiro do fim do dia

Pedro apanha o autocarro ao fim do dia e vai do centro da cidade para a periferia, um bairro chamado Tirol, visitar a namorada, Rosane. É hora de ponta e a viagem demora. Há tempo para ler um dos livros de Charles Darwin sobre as suas viagens ao Brasil e também tempo para deixar correr os pensamentos, entrar em reflexões . Resumindo, esta é a trama que valeu ao brasileiro Rubens Figueiredo o Prémio Portugal Telecom de Literatura com o livro “Passageiro do Fim do Dia”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, e já vencedor do Prémio São Paulo de Literatura que elege o melhor livro do ano publicado no Brasil. O português Gonçalo M. Tavares ficou em segundo lugar com o romance “Uma Viagem à Índia”, que lhe valeu cerca de 14 mil euros.
Rubens Figueiredo, professor de português e de tradução na PUC do Rio de Janeiro, sucede ao mediático Chico Buarque que em 2010 ganhou os cem mil reais do prémio (41,7mil euros) não sem alguma polémica. Então, não faltou em considerasse que a decisão tinha sido puramente mediática e não teve em com a qualidade literária dos outros concorrentes. Desta vez, quando foi anunciada a lista dos dez finalistas de um total de 380 concorrentes, os mais ortodoxos não se manifestaram quanto à qualidade das obras a concurso onde estavam dois livros de dois autores portugueses: “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M.Tavares; “As Três Vidas”, de João Tordo.
“Fico muito feliz e só consigo dizer isso. Me desculpem o mau jeito”, disse o autor na cerimónia de entrega do prémio, no passado dia 8, em São Paulo, na Casa Fassano. Mais tarde, ao jornal ‘Público’, o escritor foi mais longe e falou do processo criativo que o levou ao que muitos críticos consideram ser o romance que o afirma como uma das vozes mais sólidas da altura literatura brasileira: “como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.

A negação da banalidade
A atenção ao pormenor, aos pequenos detalhes que ocorrem em situações rotineiras são o ponto alto de um narrativa que vive disso mesmo: da negação da banalização do quotidiano, mesmo que ele seja opressivo, como é qualquer viagem de autocarro de uma centralidade onde tudo acontece para uma periferia onde acontece o que “não deve” ou o que é varrido desse centro. São histórias de violência, de exclusão nas quais Rubens pega com conhecimento de causa. Ou seja, enquanto passageiro frequente de autocarros entre o centro e a periferia. Mas como ele sublinha, esta não é a sua história, nem de um lugar concreto. É a história de Pedro, um rapaz ficcionado, e das suas cogitações e recordações e preocupações. Do ambiente que o envolve enquanto viaja num autocarro. “No quotidiano se concentram os processos mais importantes da dominação social. É onde as relações sociais se produzem, se reproduzem, se justificam e são esquecidas. E também é onde eles mais se empenham em se manter ocultos”, declarou numa entrevista recente, ainda antes de saber que viria a ganha o prémio PT.

O Booker português?
Bastante popular no Brasil, onde tem um prestígio que ainda não atingiu em Portugal, o Prémio PTde Literatura, distingues livros em português publicados no Brasil. E vale quase tudo: poesia, ficção, biografia, dramaturgia ou crónica.
Criado em 2003 com o objectivo de contribuir para a promoção da língua portuguesa, “ainda não é o Man Booker ou o Pulitzer ou o Goncourt português. Mas um dia será. Não desistimos dessa ambição”, disse Henrique Granadeiro, o presidente da PT, durante a cerimónia de entrega de um galardão que tem a ambição de estimular e encorajar “os melhores talentos”. Ao fim de nove edições já premiou nomes como Bernado de Carvalho, Milton Hatoum ou português Gonçalo M. Tavares (em 2007, com “Jerusalém”). Desta vez foi para um romance que pretende ser uma crítica às desiguladades sociais na cidade do Rio de Janeiro onde Rubens Figueiredo nasceu em 1956 e onde vive. Foi lá também que se formou em letras e é lá que ensina.

Duplo Jabuti
Escritor nas horas vagas, como se define, escreveu o seu primeiro livro há 23 anos. Em 1998 venceu o prémio Jabuti, um dos mais prestigiados para autores brasileiros, com o livro de contos “As Palavras Secretas”. Repete o feito em 2002, desta vez com um romance, “Barco a Seco”. Nesseano, fazia um balanço sobre a sua obra: “Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.”
Não se deslumbrava com a consagração. Perguntava pelos livros esquecidos depois de lidos e premiados. E aí colocava os seus. Quem se lembrava deles? Talvez por isso tenha abandonado o trabalho de tradutor. A qualidade e a profundidade da escrita de Rubens Figueiredo não é decerto alheia ao modo como pratica a tradução. Envolve-se o mais que pode com os autores, do ponto de vista criativo. Quer perceber o processo e a sua perspectiva é a de que o tradutor é também um autor quando passa uma obra de uma língua para a outra. “Traduzir é escrever – em termos concretos, mecânicos e intelectuais, pois transpomos ideias e sentimentos de um idioma para o outro. Mas também vale o oposto: escrever é traduzir, pois transpomos”, diria sobre o assunto depois de ter traduzido Anna Karenina.
O seu percurso conta com mais de 40 livros traduzidos, com destaque para a literatura russa, e concilia isso com as aulas de português. Daí a escrita pertencer às horas vagas e ter começado em 1986. E logo com um romance: “O Mistério da Samambaia Bailarina”. Não demorou até ao segundo título, “Essa Maldita Farinha. Foi no anos seguinte, em 1987. Em 1990 publica “A Festa do Milênio” e em 1999, “O Livro dos Lobos”, que relançaria quase dez anos depois, totalmente reescrito. Pelo meio ficou “Contos de Pedro” e com o mais recente livro foi o que se viu. “Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada, mas não universal, nem fora de um tempo. A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto.”

Artigo publicado na edição de 11.11.11 do Diário Económico

Basta

Não fez as malas porque não as tinha. Passou-se.

Um “basta” que a fez aproveitar a porta aberta para descer as escadas sem olhar para trás. Não iria ficar sozinha nem mais um dia. Cansara-se de mãos passadas pelo pêlo, de um “até já e porta-te bem”. Não se lembra do número de vezes em que assistiu à cena de abrir gavetas e portas de armários.
Primeira calava-se. Depois já não conseguia segurar os protestos. Em vão. A mala fechava-se, a correria atrás de chaves e de papéis repetia-se até a porta bater e ficar o silêncio.

Três anos de vida assim. Nunca lhe faltara nada, é certo. Comida e conforto. Chegou a ir. Ficar em casa de família, de amigos, sempre que o tempo de viagem era maior e a solidão podia pesar mais. Escusado dizer que não gostava. A família não era a dela, nem os amigos, embora depois de algum convívio ficasse também o afecto por mais alguém.
Dizem que é demasiado independente, mas só ela sabe que não é tanto assim.
Há uma imagem a preservar e não está disposta a sinais de fraqueza.

Pelo menos que a deixem por casa. Se quiserem que a visitem. Ela não agradece, mas sempre dá para distrair da comida requentada e das vistas que não mudam ainda que as janelas sejam muitas e dêem para vários lados. Nunca pensou em ter esta vida prisioneira. Acha mesmo que nunca tinha pensado. Não foi feita para isso. Se sentir já não é fácil, pensar então… Daí o grito do Ipiranga à enésima mala.

Desceu as escadas decidida. Era vingança. Era ameaça. Eram as duas coisas. Parece que os livros rasgados, as lombadas desfeitas, os fios cortados, a melhor comida irrecuperável, a roupa sem remendo possível, nada disso demovia estas escapadelas sem prazo nem aviso. E isso dava-lhe coragem.

Era agora. Que a agarrasse se pudesse. Ela sabia de fintas, subia paredes se preciso fosse, fugir era fácil. Mas não era bem isso que queria. Era dar o sinal, um basta, e mal sabia que estava quase a conseguir.
A outra olhava o relógio. Tentava seduzi-la, chamá-la à razão. Eram horas.
Ela aprendera a ler os sentimentos da outra, a tal, a que pensava que podia tudo. Via que estava nervosa. Ora bem. E continuava a andar em direcção à rua, à derradeira porta que a afastava de todo o conforto.
Olhou para trás. Não devia.
Ali estava a fraqueza, a dela. Agora sabia que estava nas mãos da todo-poderosa. Mesmo assim não subiu as escadas. Esperou.
Havia de ir ao colo. Sentiu o alívio da outra, a mão pelo pêlo.

Ela lambeu-lhe o rosto e deu-lhe aquele miau de resignação. Haveria de estar à porta quando a chave desse a volta uns dias depois, como sempre.

Uma das músicas da minha vida

Já a ouvi triste e já a ouvi alegre, nostálgica, serena, como fundo e sem mais nada. Como vai melhor é mesmo sem acompanhamento, o que não quer dizer sem companhia. Fica bem com o mar, fica bem em viagem, ouve-se como água num dia de chuva. Nunca o ouvi na praia. Nunca consegui que fosse banda sonora de uma leitura. Sempre foi pura, e aparece sempre de improviso como quando Keith Jarrett a gravou em 1975. De longe, de muito longe, alguém me pergunta porque me lembrei dela. Porque é bonita. Porque fica bem com a saudade que sinto, com o silêncio da casa, porque faz parte da minha discoteca mental. Vem, desaparece por uns tempos, mas volta sempre. É uma das músicas da minha vida. É o concerto de Colónia, que às vezes me aborreço de ver tão tocado e ouvido e repetido. Dá raiva. Como um segredo que pensamos só nosso, mas que as comadres já espalharam, No caso que ricas comadres. Um dos discos a solo de piano mais vendidos de sempre. Pois, mas não esquecer que é música gourmet…

Voo

Todos olhavam, mesmo os que fingiam não olhar. Ou sobretudo esses.

No meio de um grupo de excursionistas a Fátima que saudaram a entrada no avião com um “Avé Maria” em bom português da América, destacava-se um rapaz loiro, olhos azuis, porte atlético, barba meio escanhoada e um colarinho que o identificava de imediato como padre católico. Como os outros, os que fingiam, também fingi ver e não me interessar numa normalidade ensaiada. Como todos, ele arrumou a mala no cacifo e retirou um livro. Ele e o livro vieram na minha direcção. Estava ali o meu companheiro de viagem.

Interpretei o facto, meio a brincar meio a sério, como uma bênção à minha partida. Sete horas a cruzar o oceano com alguém que me confessou não se cansar de olhar a terra a partir do céu. Era dele a janela. E dele o entusiasmo.

Vinha de Fátima sem tempo de conhecer Lisboa. Lamentava não ter exploraado a cidade que lhe pareceu bonita. “Gorgeous”, disse, após elogios à refeição servida a bordo e que agradeceu em oração, sem embaraço de ser observado, numa intimidade que senti perturbar. Não notou ou fingiu não notar e nada melhor do que falar de comida para quebrar o gelo e perguntar coisas de um país de que viu pouco

Filho de um electricista que assustou o pai quando lhe anunciou a intenção de ser padre, o mais novo dos filhos, único homem, único capaz de lhe levar o negócio por diante. Fez a universidade, teve tempo de namorar e perguntou a Deus porque o estava a castigar daquela forma quando quando via casais de namorados, crianças com os pais. Mesmo assim diz que compensa. Só ainda não se habituou muito bem ao colarinho. Ainda sente os olhares, o constrangimento da identificação imediata pela diferença. Mas vai contando que não é padre vinte e quatro horas por dia ou sete dias por semana, embora ser padre implique uma condição. É quando tira o colarinho branco e vai fazer jogging, ou conversar com os amigos, ou visitar os pais à quinta onde cresceu, no estado de Nova Iorque, embora sem quase ter pisado Nova Iorque. “Só fui duas vezes à cidade e de passagem”. Curiosidade? Claro. Está em Albany, a cinco horas de carro. Diz que dos outros só o distingue o celibato prometido e os olhares desconfiados quando tenta ajudar sem que alguém lhe peça. Só? Ele sorri, vai arranjar explicações e prefere dizer que põe questões em vez de duvidar, mesmo quando sente a solidão, os momentos de desespero. “São breves”, não se pense que ande a demorar neles. “Deixar de pôr questões é triste”, continua. E ele põe. Perguntam entre olhares à terra por cima das nuvens. Põe os auscultadores, liga iPod e ao aterrar o aperto de mão apertado: “Sou o David”.

(crónica publicada no Diário Económico de 8/4/11)