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Uma balada de nova iorque

Joe Gould, bohemian artist
Philippe Halsman, USA. NYC. 1943.

Procurei por Joe Gould. Sabia-o morto, mas mesmo assim.

Não era bem eu, era eu feita personagem de um tempo que não foi um meu, de uma história que não foi minha, mas da qual me apossei.

E aquele seria um lugar provável. Mesas de madeira compridas gastas pelas mãos, pelos cotovelos, pela escrita. Procuro-lhe os sinais sem na altura perceber que pensava em alguém baixinho e enfezado, escondido debaixo de uma barba tão desfiada quanto ruiva. Talvez fossem os rostos gastos pela boémia… outros mais pela destruição pura, a que resultou da ausência de qualquer alusão ao prazer. Escrevem ou fingem que escrevem, ou fingem que lêem. Eu também finjo, afinal.
Só volto a mim quando nos olhos perdidos dos outros, aqueles cujo horizonte não vai além das imagens que lhes vão dentro. Só volto quando olho os olhos deles e eles nem pestanejam. Mas continuo sem ver Joe Gould. Vejo gente a aquecer-se numa biblioteca pública, nada mais. Lá fora gela-se. E outros que teclam e estão ali porque não podem pagar um café que lhes daria direito a uma mesa e algum tempo num lugar com vista para uma rua de gente cheirosa. Aqui, onde não está Joe Gould, cheira a pobreza e são os pobres que ali vão. Joe Gould não era de todo pobre. É chocante? O cheiro a suor e roupa suja e descuido? Pode ser, mas só para os que não sabem nada desses sítios, onde os pobres existem entre as lombadas dos livros que como eles, já poucos ou ninguém consulta. Cheiro a abandono. Joe Gould não era assim.

Mas Joe Gould não está. Claro que não, morreu.
Nunca li o obituário. Talvez vá à procura, mas distraio-me.
Sempre os outros, os que estão à volta. Escuto-lhes as conversas como Gould as escutava, seguindo o que li na vida que dele contou Joseph Mitchell, esse homem com tanto saber de jornalismo para contar de gente, e que, como Sorayan, Freeman ou Cummings, estava destinado a encontrar e deixar-se infectar por Joe Gould, o boémio assumido e tímido relutante a quem o álcool limpava a vergonha. O historiador da nossa redundância que vivia com o que tinha num saco de papel e que tantas vezes jantava ketchup antes de adormecer onde a cabeça o tombava.

Li acerca de Joe Gould antes de conhecer Nova Iorque e isso é a mesma coisa. Não é o mesmo saber dele sem saber do Village, do Bowery, do Harlem e das margens do Battery. Adivinhar-lhe os bares, ver outros, esperar encontrá-lo com o seu livro infinito debaixo do braço, pagar-lhe um café escuro sem açúcar, à cowboy, como ele gostava. Como eu gosto, lembrou-me alguém que me conhece melhor do que o Joseph Mitchell conhecia o Joe Gould. Pagar-lhe um café e ficar a ouvi-lo… Fantasia.

Vou outra vez de Nova Iorque sem ver o Joe. Lamento. Claro que continuo a olhar em volta. E no Village, justamente ali numa das ruas por onde andava, lá está ele, mas sem eu saber que ele estaria lá, dentro de um livro numa pequena livraria. “Up in the old Hotel“, uma compilação de textos escritos por Joseph Mitchell para a New Yorker, a preço de saldo. A pechincha vai comigo para casa, pelo preço de um café enfeitado por um barista de segunda. Mas só dias depois descubro, nela, Gould. O “Professor Sea Gull” constantemente a escrever a “sua” “História Oral”, e Mitchell, o maravilhoso contador de histórias verdadeiras que não lhe resiste. Porque é irresistível um homem que desdenha o dinheiro e tudo o que ele pode comprar, que vive nas ruas entre o que pede e o que lhe dão para continuar a coleccionar o que se diz, o que ouve por onde anda naquela Nova Iorque dos anos vinte, de um século que já passou inteiro. Mitchell descobriu-o em 1942 e fez-lhe o perfil, o primeiro de dois, que publicou na The New Yorker. Anos depois tornou a história mais completa e “O Segredo de Joe Gould“, assim lhe chamou, tornou-se um hino ao jornalismo e à literatura. Li-o assim, em Lisboa, há uns anos, uma edição de capa cor de rosa editada pela D. Quixote e tornou-se um dos meus livros e Joe Gould uma das minhas personagens, daquelas com quem de vez em quando dou por mim a trocar ideias. Tantos anos e ele ainda possível fora da literatura, com o seu sotaque de Harvard, onde se formou, e agora escritor de oralidades. E pode lá haver escrita melhor? 20 mil conversas tão desconexas como universais fervorosamente passadas a papel, contou Mitchell. Gould nem sempre dizia, calava mais e foi calando cada vez mais. Às vezes fingia que falava para dizer só o que queria.

No Village. Há uma toada que guia os passos. Frio, muito frio. Abro a boca para apanhar um floco de neve. Não vejo Joe Gould, alguns parecidos, mas não me lembram Joe; para falar a verdade, ninguem se compara a esse imitador de gaivotas que, como eu, gostava do rio e do grandes corpos de água, abraçadores de alma.

E estou quase a ir embora. Longe de Gould, longe do nosso Village — apropriei-me –, para longe de uma cidade que partilhamos por razões tão opostas, em tempos tão distantes em circunstancias tão diferentes.

Uma voz embala-me. Conta-me a história que Mitchell escreveu, e eu oiço, sem saber que seria um dia um embalo, uma história para eu adormecer. Mas enquanto langueio no meu embalo, vou despertando. Porque reconheço a figura de Gould, estão lá os traços, a rebeldia, mas parece que não era bem bem assim, mas também não deixava de ser assim. Era possível que fosse. Embalo, pois. A voz tem o timbre do Village, podia ser Gould. Quem sabe se não seria. Contava e contou, e no fim o título “Professor Sea Gull”… Emoção da grande.

Encontrei Gould, de facto, fora do Village, não na biblioteca. O Gould antes de eu o conhecer, graças a uma voz, e Gould tornou-se ainda mais uma das minhas baladas de Nova Iorque.

“Will do Pig, will do…”

Foi com a ponta do nariz gelada e o estômago colado que engolimos em seco. À porta, atrás do balcão, o rapaz de tatuagens coloridas nos braços apontou para hora e meia de espera por uma mesa. Por mim desmaiava já aqui. Depois de atravessar a pesada cortina de veludo encarnado reparei em duas coisas: todas as mesas eram à janela (nada melhor que sol a entrar pelas vidraças em almoços de inverno) e o guloso cheiro de ervas aromáticas e molhos quentes.

Com reservas feitas à porta, quem arrisca habilita-se. No caso, a um passeio mais demorado pelo West Village. “Oh, que chatice!”, quase ouço dizer.
Uma e meia da tarde e muitos quilómetros nas pernas fazem a diferença, e a distância entre o prazer e a penitência aumenta quando se avistam umas batatas fritas cortadas tão finas que parecem atacadores dourados por cima do um naco de Haché suculento com Roquefort. Logo eu que nem sou amiga de hamburgueres… A água já estava na boca quando vi passar saladas leves e altas e fígados de galinha em pão torrado… Desalmados, mas com sorrisos de antecipação de festa, saímos já fieis à casa e ainda sem provar nada.

Toca a andar que o vento do norte não dá tréguas, não convida a paragens e entrar numa loja pode ser o princípio de uma grande depressão para quem chega do país da austeridade, mas o Village é o Village e de roupa usada percebe o Ralph Lauren que mais americano que ele só um hamburguer. Com Roquefort? Seja, e a salivação ia secreta. Chapeux! Um segundo e ele entrou por um porta com sineta, recuou no tempo. Era Al Capone, foi Humphrey Bogart, Miles Davis. Eu, Josephine Baker enquanto pensava em pão quente e manteiga com alho e salsa. Peguei na mão dele. Fome? Confirmou, distraído com um Porcupine, as melhores ironias aparecem refinadas por momentos de atenção selectiva. Nada de esperar pela resposta. Estava mais que decidida, estava fixada num hambúrguer. Sem chapéu na mão nem na cabeça, regelados, regressámos à esquina com o porco malhado pendurado à entrada.

O lugarejo pertence ao Restaurateur Ken Friedman e à Chef inglesa April Bloomfield. Ele desenhou e decorou o estabelecimento. Ela, depois de enaltecer o River Café, o Kensington Place, o Bibendum, O chez Panisse, etc … veio refinar a sua cozinha sazonal anglo-italiana para o The Spotted Pig, o gastro-bar que para espanto dos desatentos, ganhou uma estrela do famoso Guia Michelin. Ambos são tambem sócios do John Dory , mas isso é uma outra história completamente diferente.

Uma cerveja ao balcão e o quente a pedir manga curta até chegar a nossa vez. Mais olhos que barriga, queria experimentar todos os pratos que vi desfilarem numa dança de equilíbrios e tropeções até à frustração de perceber que já passava das três e do menu já sobrava pouco. Estranho, para um lugar em que a cozinha só fecha as duas da manhã. É preciso saber que o período de almoço passa para o período de jantar de forma tão leve e imperceptível como um tanque de guerra. Acabam os ingredientes? Não, acabam os preços diurnos. E com hospitalidade germânica, uma miúda que parecia saída de um concerto dos Joy Division orientou-nos para os melhores pratos que sobraram dos melhores pratos que esgotaram. Venha outra cerveja – Old Speckled Hen Pub Ale (Suffolk, England) – e um torcer de nariz.

Vieram uns fígados de galinha numa tosta de pão provençal. Conjugação perfeita entre o ligeiro amargo da carne e o doce da cebola caramelizada. Tudo desfeito numa mousse onde se pode distinguir os pedaços. Depois deste “soube a pouco”, um arenque fresco servido frio, a enrolar os componentes daquilo que o tornaria num ceviche: cebola, salsa e vinagrete. Durante um gole na cerveja – Six Point Crisp Lager (Brooklyn, NY) – apareceu uma salada de agriões, nozes e queijo de cabra. Partilhámos uma sopa de vegetais de inverno com cogumelos silvestres que chegou rústica e perfumada como as cozinhas sicilianas. Finalmente, e já sem o desespero dos famintos, o fabuloso, maravilhoso e fantástico (perdoem a adjectivação) Chargrilled Burger with Roquefort & Shoestrings fries.

Com uma carta vinhos minimalista mas sofisticada – apenas três opções por cada uma das categorias de tintos, brancos e espumantes – a atenção prendeu-se nas cervejas artesanais e nas cidras locais e francesas. Território fascinante e desconhecido. Desde cerveja de casco a garrafas de litro, passado pelas de pressão, em copo ou caneca, este lugar, a que só abusivamente se pode chamar restaurante, tem o aconchego dos pubs da “velha” York. Há quadros de porquitos, tapeçarias de porquices, fotografias de porqueiros, posters e  porcarias emolduradas. A clientela vem do cinema, da música, da TV e espalha-se sem dress code por mesas que sentam no máximo seis pessoas. O restaurante tem agora a capacidade aumentada para 100 comensais desde que o segundo andar foi passado para o domínio público. Antes, falava-se da sala privada no andar de cima onde April Bloomfield preparava pratos tradicionais para amigos e amigos de amigos.

E a tarde passa para a noite o interior em paredes forradas a madeira, com as conversas a atingirem decibéis que abafam qualquer música. Mas as cadeiras estão longe de ser as mais confortáveis do mundo. Não são para ficar, é para comer e andar, sabendo que The Spotted Pig raramente fecha. Todos os dias há hamburgueres. Todos os dias são de rock-n-roll. Havemos de voltar ainda que de Lisboa a Nova Iorque continuem a ser sete horas de avião, mais 90 minutos de espera no Village. No Verão não custa nada. Mas há que ler o letreiro cá fora:

“Please respect our neighbours and keep noise to a minimum”

314 W. 11th Street
@ Greenwich St.
New York, NY 10014

Tel: (212) 620-0393
info@thespottedpig.com