Monthly Archives: April 2012

A gota de água

A gota era grande e refletia a rua. Caia iluminada pelo sol e com a lentidão do sonho. Pairava, como se de ar e não de água. Era uma gota espelho, mas não havia Alice do outro lado. Era toda um núcleo e nele estava eu. Tive tempo para me ver lá dentro, inteira, à distância, tridimensional. Eu, outra, aquela que caia suspensa pelo repentino silêncio dos minutos que pareciam não passar. Não havia pressa. Eu e a gota e eu na gota com a rua. E eu estranhei-me, como se estranha o som da própria voz quando gravada.

Não nos vemos como somos, tal como não nos ouvimos como soamos. Aquela imagem de mim não tinha nada a ver com a imagem de uma foto, de um filme. Era eu recortada. Eu para mim. “Vês-te? É assim que te veem? É assim que queres que te vejam? É esta a imagem que achas que passas ou queres fazer passar?”
A gota interpelava, desafiante. E eu só tinha o choque porque não me revia naquele núcleo apesar de me ter reconhecido de imediato. Era eu. Seria eu agora, eu daqui a uns tempos? Será que eu já fui assim? A gota caia sustendo-se à minha frente num momento em que eu queria saber mais de mim e devolveu-me como eu achava que não era. Não sabia se gostava ou não. Só o espanto e algum desconforto, claro. Se fosse uma bola de sabão eu rebentava-a e seguia em frente. Mas era de uma solidez líquida indiferente à gravidade.
Não sei quanto tempo esteve ali. O suficiente para eu ver o filme da minha vida e projectar nela, na gota, um futuro. E a minha imagem sempre lá, como uma boneca numa caixa de líquido, daquelas onde há neve ou brilhantes a cair e se vendem nas feiras ou agora nas lojas dos museus onde o kitsch virou trendy. Mas eu estava só, na rua, com as casas de sempre, eu na tal da minha circunstância.
Sei que a gota me queria provocar não sei mandada por quem. Terá chovido para mim, só para haver aquela gota? Ela interpelava-me e eu procurava respostas.
Dei-lhe tempo para cair. Havia uma mala para fazer, decidi. E agora tinha pressa. Eu. E foi como se a deixasse cair. Quando ela caiu olhei para o relógio e vi então que foi ela quem me deu tempo a mim. Aquele filme todo e não passou um segundo até a gota cair, como sempre, como com todas as gotas. Só que aquela fez o tempo parar até eu me decidir.

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canita e os livros

Em casa havia três livros. Verdes, de capa dura, muitas páginas, da mesma colecção. Uma série sobre medicina natural, escrita em português do Brasil, com receitas de mezinhas e vendendo a ideia de que tudo se cura com plantas. Tantos anos depois, recorda apenas uma excepção, tão clara. À frente da palavra “câncer” estava: “limão. Procurar médico”. Perdeu inocência, ilusão. Não havia milagres e não era possível um mundo sem médicos.
Não tinha mais de seis, sete anos. Leu os três livros de uma ponta à outra, como as crianças que repetem leituras, filmes até os saberem de cor. Ela também decorou tudo, até as ilustrações das plantas. Naquelas páginas não havia fotos. Só desenhos a preto e branco e isso agradava-lhe, talvez cansada dos livros infantis que lhe enchiam o quarto e também sabia de cor. Mas fora do quarto, aqueles eram os únicos três livros. Havia revistas, jornais que se acumulavam, mas livros de gente grande só aqueles e ela queria saber o que liam os grandes. Achava que devia ser mais do que aquilo, mas era aquilo o que lhe chegava.
A carrinha da Gulbenkian que ia à aldeia não lhe dava isso e por isso não a recebia com o mesmo entusiasmo das outras crianças. Ela tinha livros infantis e juvenis e gostava que fossem seus, gostava de os visitar de vez em quando, abri-los, voltar às páginas, às frases, e ter de entregar depois de ler era quase como se lhe levassem a cadelinha rafeira que a seguia por todo lado lá em casa. A Canita. Por isso não pedia livros. Não era orgulho. Era afecto. E na falta de mais lá ia para a enciclopédia medicinal, a sua iniciação à leitura de gente grande, onde aprendeu a gostar do cheiro do papel, da textura das páginas, do equilíbrio que a capa dura permitia na estante vazia.
Olhava para as prateleiras e o seu sonho era um dia enchê-las. Perguntava à mãe se era possível e sempre teve um sim como resposta. Hoje olha para os três livros de capa verde. Estão no centro. Lugar de destaque de uma imensa parede forrada a lombadas para gente grande.

passear bonecas

Foto de Robert Frank

Eu fazia como a menina da foto de Robert Frank, mas usava um camião vermelho de plástico que obriguei, com uma forte birra, a minha mãe a comprar numa loja de brinquedos de uma senhora velha. Todos os dias escolhia uma ou várias bonecas para levar a passear no meu camião igual ao dos rapazes. De vez em quando fazia corridas com o camião, ladeira abaixo, e algumas bonecas saltavam. Corria a socorrê-las, mudava-lhes a roupa, penteava-as e elas voltavam a parecer bonecas. Ainda tenho esse camião. Está no sótão da casa, com uma corda tirada de um novelo de lã grossa que a minha mãe usou para fazer uma camisola. Puxei o cordel e tive o impulso de encher o camião de bonecas e pô-lo a correr ladeira abaixo, com a promessa de que mudaria de vestido às bonecas.

A prazo

Não é preciso olhar para os ponteiros para saber que se consegue.

Talvez no início. E quanto mais se olhava maior o stress, tempo perdido sem saber dessa perda. Depois vem o hábito, a rotina. Sim, a perfeição é o limite determinado pelo prazo. É uma lição de humildade. Saber que é provável o erro, a falha, a gralha. Tudo porque, depressa e bem… Não somos máquinas, temos dias, horas e um minuto pode deitar tudo a perder, matar o resto, que foi tanto e acabou em nada. Dói. Tanta angústia ao deitar sem saber como vai sair a página amanhã. E sempre mais um telefonema, mais uma declaração, a tentativa de apanhar o que ninguém apanhou, e mais uma penteadela ao texto, uma corrida, uma demora a escutar quem não sabe desta pressa, da urgência.

Dead-line, linha da morte. Em português tem outro peso. É ir, esquecer o tempo e saber que na vertigem se é capaz. Afinal, nunca saiu uma página em branco, ouvimos dos mais velhos, repetimos aos mais novos. Nunca. Comprimido que acalma. Isso ou: “esse texto é para o Pulitzer?” que acaba com a pretensão. Uma vida a obedecer a um relógio sem o ver. Prazos a cumprir nem que isso custe o sono, o almoço, uma sandes ao jantar, a família que não se vê. E tudo porque… às vezes nem se sabe bem. Porque se gosta da adrenalina, da história, de a contar, de fazer chegar aos outros algo que temos a pretensão que seja importante para eles. Se é para nós… E continuamos, às vezes robots, às vezes demasiado gente com lágrimas que tentamos esconder.

Olheiras, sorrisos, acontece um êxtase. Pode ser apenas por uma missão cumprida. Fechar uma página, fechar 40. Escrever a breve das nossas vidas. Ir a todas, ou ser capaz de ir. Na vida, na morte, o livro, a música, na rua, com os pobres e os ricos e os outros todos em quase todos os lugares. Ver rir, ouvir o choro, provar o bom, saber do amargo. Viver e contar. Uma vida a trabalhar para um prazo, há quem diga que é uma missão. Às vezes queremos acreditar que sim, mas há sempre quem nos tente, como a Judas. E quem nos tire o relógio, e então, mesmo sem olhar para ele há tanto tempo, é como se faltasse tudo e o que era o sonho do alívio do tempo, de não haver a linha da morte, acaba num desasar.

Com todo o tempo, sem prazo, a quem  culpar pelo erro, pela gralha e pela angústia que ela dá? Sem cruzar os braços, sou uma espécie de Bartleby, “preferia não” e a grande dúvida volta nessa passagem do rápido ao longo. Não pior, não melhor. Outro ritmo. Serei capaz de esquecer que não há relógio e uma hora pode durar um ano?

“Às vezes o real mata a ficção”

Entrevista com Laurent Gaudé, escritor. Uma conversa em janeiro de 2008 que recordo quando me rendo ao seu mais recente livro publicado em Portugal, “Furacão” (Porto Editora) e antes que o autor chegue a Lisboa para mais uma ronda de conversas.

Como foi voltar a escrever após ter ganho o Prémio Goncourt aos 32 anos? Sentiu pressão ou alguma espécie de angústia?
No início confesso que foi um pouco difícil arrancar, mas quando comecei a escrever não voltei a pensar no assunto. O “fantasma” do Goncourt não me acompanhou no processo criativo. Depois sim, regressou quando o livro ficou impresso e chegou às livrarias. Houve o receio da comparação, uma certa angústia, mas durou pouco. Digamos que foi uma insegurança natural. Mas Eldorado acabou por ser bem recebido e não pensei mais no assunto.

Estava a falar do processo criativo. Tem uma rotina de trabalho?
Escrevo todos os dias, durante várias horas seguidas e sempre à mão. Só uso o computador no fim, para passar a limpo.

Porquê à mão?
Não sei. Acho que preciso da lentidão da caneta no papel. O computador é muito rápido. Não dá para digerir as palavras. Escreve-se, apaga-se, volta-se atrás… Não dá para maturar, para deixar repousar o pensamento. É uma questão de ritmo que se tornou um hábito. Não sei escrever de outra maneira.

Passa a computador no fim do dia de trabalho?
Não. Só quando o livro está terminado, na chamada hora da revisão. Sou eu quem executa essa tarefa. Não a dou a ninguém. Aí emendo, corrijo. O computador é muito bom para fazer copy/paste.

Depois de O Sol dos Scorta, romance com que ganhou o Gouncourt, volta a Itália para escrever um livro sobre imigração clandestina. Visitou os lugares de que fala?
Não. Pensei em fazê-lo, mas achei que depois seria “comido” por esses lugares. Eles iriam marcar-me de mais para que eu pudesse fazer uma ficção. Não teria saído um romance, mas outra coisa qualquer, mais próxima da reportagem talvez. Às vezes, a realidade mata a ficção. Eu não queria que isso acontecesse. Não queria deixar-me contagiar.

Como é que veio a ideia para este livro?
Há uns anos comecei a recolher artigos de jornais. Recortava tudo o que via sobre essa nova forma de esclavagismo que é a imigração clandestina, o tráfico de pessoas. Quando dei por mim tinha uma enorme dose de material, guardei-o durante alguns tempos sem saber o que queria fazer com ele, até que me surgiu a história de Eldorado.

Foram esses artigos que o ajudaram a reconstituir os lugares na narrativa?
Sim. Devo isso aos jornalistas, às peças que vi sobre o tema na televisão.

A experiência como dramaturgo (foi por aí que começou na escrita) ajudou na encenação desses locais?
Sim, talvez. Não pensei muito nisso, mas o cenário é importante, o lugar onde decorre a acção é determinante para narrar uma história que, como esta, tem de fazer sentido nesse ponto de vista. Aqui falo de lugares que existem e onde acontecem determinadas coisas. Não posso inventar muito nessa matéria. Aí, é preciso que a ficção case com a realidade.

Entre todos esses artigos que coleccionou houve algum que o tivesse marcado especialmente ou influenciado de forma determinante a narrativa?
Sim (pausa). Houve um em que se faziam contas e se chegava a uma conclusão arrepiante. O tráfico humano era muito mais rentável, por exemplo, que o tráfico de armas. É assustador, impressionante.

Este não é um livro-tese, mas quer passar uma mensagem…
Este é um livro sobre a viagem, no sentido mais lato do termo. Se o tivesse de resumir numa frase diria isso: é um livro sobre viagem. No caso, uma viagem para o desconhecido. O movimento entre um lugar e outro feito no meio de uma incerteza que pode ser a diferença entre a vida e a morte. O que é que leva alguém a abandonar tudo e a ir para um lugar que não conhece. No caso vai à procura do Eldorado, o que não é bem a mesma coisa que ir em busca da Terra Prometida. Essa tem uma carga religiosa, a outra uma carga onírica. É o sonho. E o sonho pode ser simplesmente a fuga à miséria, como os dois irmãos sudaneses que apostam tudo – e tudo é a vida – para chegar à Europa, o lugar do sonho.

Mas há também outra procura, a de um amor perdido por parte do comandante do navio que tem a missão de prender os clandestinos que encontrar, mas que por vezes os salva. Em quem se inspirou quando criou a personagem Salvatori Piracci, o guardião de Catânia onde chegam os chamados barcos da morte?
No homem e na sua ambivalência. Por isso também lhe poderia dizer que este é um livro sobre a condição humana. Procurei dar o retrato dos dois lados. O do desespero de quem sai de um lugar, sabendo que muitas vezes não irá encontrar absolutamente nada, mas que mesmo assim vai, como se na Europa estivesse a solução, uma qualquer solução. E levam filhos e deixam filhos e adoecem e morrem, sabendo que do outro lado do mar não há nada mais do que outro tipo de miséria. Piracci está desse lado, mas no conforto. Representa o Eldorado, mas ele mesmo tem a sua busca, a sua viagem. Ele consegue ver a dor de uma mãe que perde o filho e protege-a das autoridades e a autoridade ali é ele. O Homem é ambivalente. É a sua condição. Miseráveis ou não, todos, naqueles barcos, são homens à procura de se salvarem numa viagem, e quis dar voz a ambos: àquele que tem a obrigação de salvaguardar a fronteira mas que por vezes traem a sua função e aos que a tentam transpor. São vozes diferentes, mas só aparentemente.

29 Janeiro 2008

hoje acaba a páscoa?

O azul. Mar e tudo o que queria. “Cara de batata podre. Foste a última a chegar”, um choro infeliz e outro birrento. Eu quero. Eu posso. Eu já não quero. Agora pode ser. Não pode. Andar, correr, jogar, dormir, comer. Tudo. Pés na areia e areia nos pés, o outro que me empurrou, aquela arranhou-me, caí. Levanto-me, levantem-me. Ó pai! Pode ser uma salsicha e a seguir vamos contar até aos infinitos que é onde acaba tudo, não é mamã? Cambalhota. Esta rua chama-se dê e a, dá, mê e i mi damião. Isso. Parece que foi rei. Parece que não. Trim-trim, bicicleta junto ao passeio, capacete na cabeça. Quando é que vem o ovo? Amanhã, com as avós e são dois, um por cada avó. Posso dar um mergulho? Claro que não. Ohhh, mas aquele menino… E tirar os sapatos, e as meias e um gelado? Sim, de limão, sem lambuzar. Sim. E vamos jogar à bola e andar de toalha, escorregar na duna, acordar toda a gente que tenta dormir ao sol. Santa Páscoa! Santa? Um espirro. O que se diz? Dá-me um lenço. Funga. Assoa. Mais. Pasmada. Uma pena no cabelo. Um pássaro de água que engana os pássaros de verdade. Risos. Apanha-me patifa! E corre, corre até à nódoa negra. Descanso, pensavam eles. Uma caminhada nunca vem só. E nem caracóis nem imperiais. Amêndoas, anuncia uma avó. Ninguém liga. Haja sol e o rosto levanta-se para ele. Que grite, que berre, que cante. Cavalitas?! Então não. Come. Cala-te. Não sejas chata. Ai. Amuos. Não duram cinco minutos. Mãe, hoje acaba a Páscoa? Sim.

a minha latrofobia

Tenho medo de médicos. É quase pânico. Fujo deles. Tenho angústia, suores frios, tremuras, fico doente só de pensar que tenho de ir ao médico.

Já menti, escondi, sofri calada para não ter de enfrentar a bata branca, estetoscópio ao peito. Sou uma hipocondríaca ao contrário. Tenho sempre a certeza de ter uma doença demasiado grave e prefiro morrer na ignorância. O meu lado pessimista dá-me a garantia absoluta de que um médico nunca terá uma boa notícia para me dar.

Talvez uma hepatite grave aos três anos explique muita coisa. Dali vinha a proibição de comer quase tudo, dormir sestas quando a energia era para correr e, pavor dos pavores, fazer análises. Não conseguia imaginar nada pior do que uma agulha a furar-me a pele, tirar sangue. E a cena repetia-se, tantas vezes que a minha mãe, para não me ouvir berrar e fincar os pés nos chão, mentia-me. Convencia-me que ia à modista para ter um vestido novo.

O percurso era o mesmo, a mesma rua, e tudo corria bem até, que em vez de tocar à campainha da D. Noémia, seguíamos para a porta de vidro que eu reconhecia a milhas. Só não chorava por vergonha, outras vezes chorava e tinha vergonha e chorava ainda mais. Lá vinha pica, um estetoscópio frio no peito, histórias para me distrair do inevitável, como se eu não soubesse, e a cara daquele homem, uma cara de quem sabe sempre mais do que aquilo que vai dizer.

Para mim, eles estão sempre a esconder o pior, e por mais que eu não o queira saber esse pior, menos ainda quero que mo escondam. Esconderam-me que eu podia ter morrido aos três, aos quatro anos. E desconfio, mesmo quando me garantem que estou muito bem ou dizem coisas como “o seu colesterol está lindo.” Lindo? Um colesterol pode ser lindo? Ou “a sua lágrima é óptima”. O que isso me alegra! Pode-se vender?

Este medo crónico, irracional, paralisante, afastou-e de qualquer clínica, hospital, centro de saúde durante anos. Recusava-me a estar doente como se dependesse da minha vontade. Sim, automediquei-me. Tantas vezes. Tinha idade para isso. Dizia que eram comprimidos para a minha avó, a minha mãe, o meu pai, amigos, amigas, irmãs que não tinha. Até que um dia… há sempre um dia. Lá fui eu, recambiada, com mais medo do médico do que da dor. A dor passou, mas o medo do médico não.

Continuo a tremer quando vejo uma bata branca. Mas esforço-me. Respiro fundo e vou lá. Enfrento-os e só eu sei com que bravura. E no caminho continuo a fingir que vou para a modista provar um vestido novo. Isso acalma-me. Sou eu quem me mente, e só não choro por vergonha, apesar da vergonha de querer chorar.

indefinições

Sinto falta de um dicionário de indefinições. Parece que não há no mercado